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09/04/2003 - Amaury Pasos

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Amaury Pasos é considerado um dos mais completos jogadores brasileiros de todos os tempos. Fez parte da seleção brasileira durante 16 anos, onde jogou nas três posições: pivô, ala e armador. Foi um dos protagonistas da época de ouro do basquete brasileiro e conquistou vários títulos como o de bicampeão mundial (em 1959, no Chile, e em 1963, no Rio de Janeiro) e a medalha de prata no Mundial de 1954, no Rio de Janeiro. Nas Olimpíadas, trouxe para o Brasil duas medalhas de bronze: Roma (1960) e Tóquio (1964). Amaury também conquistou duas medalhas nos Jogos Pan-Americanos (bronze em 1955, na Cidade do México e prata em 1963, na cidade de São Paulo), além de ter sido três vezes campeão sul-americano (1960, 1961 e 1963). O jogador paulista encerrou sua carreira em 1973, pelo Corinthians e hoje trabalha como administrador de uma indústria de moda íntima feminina. Aos 67 anos, Amaury continua jogando basquete, participando dos Campeonatos Brasileiros, Sul-Americanos e Mundiais de Veteranos.

Como você define o jogador de basquete Amaury Pasos?

Como um jogador muito técnico e de muita habilidade. Entrei na seleção brasileira como pivô quando tinha 18 anos. Então, apareceram jogadores mais altos que do que eu e me tornei ala. Depois de 16 anos na seleção, saí como armador. Passei por todas as posições e isso me tornou um atleta mais completo, com mais noção de quadra e de fundamentos.
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Fale um pouco sobre a conquista do bicampeonato mundial.

Em 1959, no Mundial do Chile, levamos o título, mas, na verdade, íamos ficar em segundo lugar. Fomos beneficiados na classificação porque a União Soviética não jogou contra a China. Já em 1963, a seleção estava muito bem. Era uma equipe sólida e equilibrada, formada por grandes jogadores. Para mim, esta foi a melhor seleção brasileira de todos os tempos. A conquista do bicampeonato mundial no Rio de Janeiro marcou época. Foi uma maravilha conquistar esse título no Maracanãzinho lotado de torcedores. Foi realmente um espetáculo, um momento muito gratificante na minha carreira.
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Qual foi o título mais importante da sua carreira?

Em toda a minha carreira, eu destaco o título de bicampeão mundial e as duas medalhas de bronze nas Olimpíadas de Roma, em 1960, e de Tóquio, em 1964. Nas Olimpíadas, diferente dos Mundiais, os Estados Unidos mandavam uma equipe mais relevante, formada por jogadores melhores. Por isso a conquista destas duas medalhas de bronze é bem significativa para mim e para o basquete brasileiro.

A maior alegria e a maior tristeza.

Não me lembro de nenhum momento triste. Minha carreira no basquete foi rica em momentos alegres. Foram 16 anos muito felizes na seleção brasileira. Neste período, participei de quase todas as competições oficiais. Só não fui aos Jogos Pan-Americanos de Chicago, em 1959, e ao Campeonato Sul-Americano do Paraguai, em 1968. Tenho grande orgulho das minhas conquistas. Há pouco tempo, fui eleito duas vezes o melhor jogador de basquete de todos os tempos, através de uma pesquisa feita pelo jornal O Estado de São Paulo e outra feita pela ESPN Brasil. No basquete, conquistei amizades que duram até hoje. Ainda jogo basquete e participo dos Campeonatos Brasileiros, Sul-Americanos e Mundiais de Veteranos, junto de outros jogadores que já se conhecem há 50 anos.
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Você se lembra de alguma história engraçada sobre a seleção brasileira?

Antes do Mundial de 1954, realizado no Rio de Janeiro, o Kanela (Togo Renan Soares), que era técnico da seleção brasileira na época, decidiu que o grupo deveria ficar concentrado e treinando durante 30 dias na Ilha das Enxadas. Fomos para lá e treinávamos a semana inteira. Só tínhamos folga no domingo à tarde para ir ao cinema, mas o Kanela ia junto. Ele era um técnico muito exigente. Chegava a apagar a luz dos quartos à noite na hora de dormir como uma espécie de toque de recolher. Apesar de todas as dificuldades, eu e os outros jogadores sempre dávamos um jeito de escapar. Na maioria das vezes, para encontrar mulheres.
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Dos técnicos com quem você trabalhou, qual foi o que mais se destacou para você?

Na minha carreira, o Kanela (foto) foi o técnico que mais se destacou. Foi ele que teve a audácia de me lançar e também o Wlamir na seleção brasileira, quando tínhamos apenas 18 e 17 anos, respectivamente. Ele era muito detalhista e rígido, mas fez de mim um jogador melhor, mais exigente e disciplinado. Ele também deu à seleção um espírito de conjunto muito forte. Naquela época, o Brasil não tinha jogadores muito altos. Nossa média de estatura era muito baixa em relação aos outros países. Esse defeito precisava ser neutralizado pelas nossas principais qualidades: a velocidade, a técnica e a coletividade. O Kanela era um técnico vencedor, cheio de determinação e vontade. Naquela época, o Brasil fazia parte da elite do basquete. Se a seleção ficasse em terceiro lugar numa competição, voltávamos para o país com vergonha.

Quais os jogadores que se destacavam na seleção brasileira na sua época e os da atualidade?

O Wlamir Marques sempre foi um grande jogador. Na minha opinião, ele foi o melhor que o basquete brasileiro já teve. O Oscar é muito bom, mas ele é apenas um chutador competente. Não podemos esquecer que, apesar dos talentos individuais, o basquete é um esporte coletivo, que precisa de espírito de grupo. O Ubiratan e o Rosa Branca também eram excelentes. Atualmente, destaco o pivô Nenê. Ele está tendo contato com uma estrutura excepcional na NBA e vai se desenvolver bastante. É uma grande promessa para o futuro do basquete brasileiro.