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26/02/2003 - Wlamir Marques

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Considerado um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, Wlamir Marques continua mostrando que o seu amor pelo basquete é cada dia mais forte. Aos 65 anos, o ala divide seu tempo entre o trabalho de comentarista esportivo da ESPN Brasil, as aulas que ministra na Faculdade de Santo André (FEFISA), além de defender a seleção brasileira master, que foi campeã mundial em 2001, na Eslovênia. Seu currículo mostra a autoridade que tem para falar sobre o esporte que pratica desde a adolescência. Um dos responsáveis pela época de ouro do basquete brasileiro, Wlamir participou de quatro mundiais, conquistando duas medalhas de ouro (59 e 63) e duas de prata (54 e 70). Em Jogos Olímpicos, o atleta trouxe para o Brasil mais duas medalhas de bronze: Roma (60) e Tóquio (64). Também subiu ao pódio por três vezes em Jogos Pan-Americanos (prata, em 63, na cidade de São Paulo e bronze em 55 e 59, na Cidade do México e em Chicago, respectivamente), além de ter sido tetracampeão sul-americano. Esse atleta, nascido em São Vicente/SP, também é nome fundamental na história do basquete do Estado. Wlamir conquistou o título de campeão paulista por dez vezes: em 57 e 60, pelo XV de Novembro de Piracicaba e entre 64 e 71, defendendo o Corinthians Paulista. O jogador encerrou sua carreira em 74, no Tênis Clube de Campinas.

Como você analisa o Campeonato Nacional deste ano?

A competição está muito interessante pelo seu equilíbrio. Não há favoritismo em nenhum jogo. Algumas partidas têm tido resultados surpreendentes. Ulbra, Limeira e Bandeirante, por exemplo, já derrotaram equipes grandes. O Unit/Uberlândia vem se destacando pela sua invencibilidade no campeonato. É um time de jogadores experientes que se destaca pelo valor individual e pelo conjunto. Eles sabem se impor quando jogam em casa. Como o Zé Boquinha explicou, o banco de reservas deles é ótimo e permite fazer substituições durante todo o jogo. O Uberlândia vem perseguindo durante bastante tempo a posição que agora conquistou no Nacional. Mas, pelo equilíbrio do campeonato, acho que essa invencibilidade não vai ser mantida por muito mais tempo.
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O que você achou da escolha do Lula como técnico da seleção brasileira?

Fui um dos maiores defensores da escolha do Lula como técnico da seleção brasileira. Para mim, sem desmerecer ninguém, ele era o primeiro da lista de candidatos. Além de ser técnico há 30 anos, ele tem uma vasta experiência acompanhando a seleção brasileira e o basquete internacional. Lula já trabalhou como assistente técnico do Ary Vidal, José Medalha e Hélio Rubens e também já foi técnico da seleção juvenil. Além disso, ele tem uma personalidade dócil e é bastante aberto ao diálogo.

Como você acha que vai ser o desempenho da seleção brasileira nas competições deste ano?

Embora algumas pessoas critiquem essa posição tomada pelo técnico Lula, vai haver uma renovação completa na equipe brasileira. Esperamos que dê resultado, mas o tempo para essa seleção amadurecer vai ser muito pequeno. As competições são muito próximas umas das outras. O grupo vai ser formado e testado pela primeira vez no Sul-Americano, em julho. Depois, o desafio é o Pan-Americano, que também começa em julho. O grande teste vai ser a briga pela vaga nas Olimpíadas de Atenas no Pré-Olímpico, em agosto. Não sabemos qual será o rendimento de alguns dos jogadores convocados para uma competição internacional. Uma filosofia nova de jogo deve ser implantada. Apesar do Lula ter trabalhado como assistente técnico do Hélio Rubens na seleção, ele não precisa necessariamente seguir as mesmas diretrizes no seu trabalho. Temos que ser otimistas.

Na sua opinião, quais os cinco melhores jogadores brasileiros da atualidade?

Minha seleção titular seria Valtinho, Marcelinho, Guilherme, Anderson e Nenê. O Valtinho nunca jogou pela seleção brasileira e não dá para saber qual vai ser o desempenho dele. Mas se ele jogar na seleção o basquete que está jogando no Unit/Uberlândia durante o Nacional, será ótimo.
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Quais as diferenças entre o basquete e os atletas da sua época e de hoje?

Hoje o basquete é super profissional e os atletas geralmente têm dedicação exclusiva. Antigamente, não se treinava mais que três vezes por semana nos clubes. Os salários eram baixos e o jogador tinha que exercer uma outra atividade. O basquete atual está seguindo a tendência dos outros esportes de aliar a força à técnica. As defesas estão mais agressivas e existe mais contato físico. As regras continuam as mesmas, mas a sua interpretação foi modificada. Os atletas da minha época nem sonhavam em entrar numa sala de musculação. O basquete era mais ágil e os placares maiores. Chegava-se aos cem pontos facilmente num jogo. Os jogadores de hoje são mais altos. Os pivôs da seleção de participei eram Ubiratan e Sucar, com 1,98 metros e 2,02 metros de altura respectivamente. Hoje, com certeza, eles seriam alas. Assim como, na minha época, um jogador como o Oscar, de 2,04 metros de altura, não seria o grande pontuador que ele é hoje. Ao invés de ser ala, ele seria pivô e teria que atuar mais na defesa. Costumo dizer que os jogadores do passado seriam muito melhores hoje, pois conseguiriam aliar a agilidade e a malandragem à força, teriam todo o aparato técnico e preparo físico necessários, além de ganhar salários melhores.
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Como era a estrutura do basquete naquele tempo?

Não existiam muitos times e não havia essa variedade de competições entre clubes que há hoje. Sempre fui contratado por times de ponta do basquete brasileiro e não encontrei grandes dificuldades. Só joguei em times alvinegros: Clube de Regatas Tumiarú, Quinze de Piracicaba, Corinthians e Tênis Clube Campinas. O grande trabalho técnico era na seleção brasileira. A estrutura era melhor que nos clubes. Os treinamentos do técnico Kanela duravam de três a quatro meses. Ele era muito rigoroso, odiava atrasos. Isso deu responsabilidade e desempenho excepcional à seleção brasileira. Ele respeitava muito seus jogadores, mas, às vezes, era muito radical. Em 1959, estava com a seleção em Volta Redonda e o meu filho estava para nascer. Pedi uma folga ao Kanela, mas ele não queria que eu abandonasse os treinos de preparação para o Mundial. Então, pulei o muro de noite, peguei um ônibus e fui para Piracicaba ver meu filho. Quando o Kanela descobriu, ameaçou me cortar, mas depois ficou tudo bem. Fui para o Mundial e fomos campeões.

Qual foi o título mais importante da sua carreira?

Com certeza, a maior alegria da minha carreira foi a conquista do bicampeonato mundial em 1963, no Rio de Janeiro.
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O que representou para o basquete brasileiro a conquista do bicampeonato mundial?

As conquistas do Brasil no basquete não eram muito reconhecidas naquela época. A medalha de bronze nas Olimpíadas de Roma, em 1960, não foi valorizada como deveria. No Mundial de 1963, foi diferente. Ganhamos o título no nosso país, no Maracanãzinho lotado e derrotando os Estados Unidos, depois de ter perdido para eles a medalha de ouro há poucos dias na final do Pan-Americano, em São Paulo. Foi uma conquista muito importante que até hoje é enaltecida por todos que amam o basquete brasileiro.
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Durante os 18 anos em que você esteve na seleção brasileira, você passou por alguma decepção?

Tinha sido convocado para o Mundial de 1967, no Uruguai, mas, nessa época, eu era técnico do time feminino do Quinze de Piracicaba, que contava com jogadoras excelentes, como a Heleninha e a Maria Helena. Eu e o Kanela conseguimos dar um jeito de encaixar os dois treinamentos e tudo estava indo bem. Às vésperas do Mundial, o Kanela exigiu dedicação exclusiva. Num mesmo dia, eu tinha um jogo amistoso da seleção e um jogo do campeonato paulista. Faltei o amistoso e, por causa disso, o Kanela me cortou. O Brasil foi terceiro lugar nesse Mundial. Logo depois desse episódio, o meu time, o Corinthians, jogou contra os Estados Unidos e fiz mais de quarenta pontos. Mas meu maior arrependimento é mesmo não ter jogado nas Olimpíadas de Munique, em 1972. Se tivesse ido, teria participado de cinco Olimpíadas e isso seria uma grande honra para mim. Fui convocado como assistente técnico e jogador, mas não quis ir porque estava fazendo faculdade de Educação Física e ia perder o ano. O Brasil ficou em sétimo lugar na competição. Eram tempos de ditadura e, quando a seleção voltou, o Jarbas Passarinho, que era Ministro da Educação na época, levou o time para explicar ao governo o porquê do desempenho tão ruim nesse Mundial.

Sua ligação com o basquete continua forte, agora como comentarista de TV. Como é realizar essa atividade?

Em 1982, fui convidado para ser comentarista da Rede Globo durante o campeonato paulista de basquete, que passava nas manhãs de domingo. Gostei muito desse tipo de trabalho e achei interessante fazer um curso de Rádio e TV. Em 1984, fui para a Rede Manchete e fiz quatro Olimpíadas (Los Angeles, em 1984, Seul, em 1988, Barcelona, em 1992, e Atlanta, em 1996) como comentarista. Quando a Manchete fechou, não fui contratado por nenhuma outra emissora. No ano passado, o Trajano me convidou para trabalhar na ESPN, comentando os jogos do masculino. A emissora me acolheu muito bem e faço esse trabalho com um prazer enorme. É muito gratificante continuar trabalhando com o basquete dessa maneira.
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Deixe um mensagem para os iniciantes no basquete.

Pensem sobre o que estão fazendo e sobre o que são capazes de fazer. O corpo é composto de cabeça, tronco e membros. No basquete, não é diferente. O jogador tem usar bem o tronco e os membros, mas também tem que saber usar a cabeça.