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29/03/2002 - Maria Helena Cardoso

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Com 47 anos de carreira, a técnica Maria Helena Cardoso continua abraçando novos desafios com o entusiasmo de uma estreante. Há quase dois anos trocou São Paulo pelo Rio de Janeiro para treinar a equipe feminina do Vasco da Gama. Nesse período, a equipe de São Januário conquistou os títulos de bicampeão estadual, campeão do Nacional Feminino de 2001 e, a mais recente conquista, a 1ª Liga Sul-Americana, realizada em março. Ao lado de grandes nomes do basquete feminino como Norminha e Heleninha, Maria Helena fez parte de uma geração vencedora do esporte nas décadas de 60 e 70. Trabalhando como técnica há 23 anos, Maria Helena leva para suas atletas toda a experiência e aprendizado com suas vitórias e derrotas, ao longo de diferentes fases do esporte no Brasil.

Quais os momentos mais emocionantes desses 47 anos de dedicação ao basquete?

Do passado, o que mais carrego comigo são os ensinamentos que recebi dos meus técnicos no tempo em que jogava na seleção brasileira. São úteis até hoje. O aprendizado é a minha maior herança. Em relação a títulos, com certeza, o mais importante foi a conquista do Pan-Americano em 1991. Para mim foi mais emocionante ainda porque o último título da história da seleção feminina em Pan-Americanos havia sido o de 1971, na Colômbia, quando eu era jogadora. Já o momento mais sofrido foi a classificação para as Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Foi dramático porque fizemos nossa parte e ficamos dependo do resultado. Mas consegui o sonho de estar na maior competição esportiva do mundo. E o momento mais frustrante foi justamente a eliminação da equipe dos Jogos Olímpicos de 1992. Mas tristezas também fazem parte da rotina do atleta.
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Como foi a conquista da Liga Sul-Americana?

O título do Vasco consolidou, mais uma vez, a hegemonia do Brasil na América do Sul. Conseguimos manter um bom padrão de jogo, apesar da reformulação que a equipe sofreu, com a saída de estrelas como Janeth, Kelly e Claudinha. O grupo que jogou a Liga Sul-Americana foi completamente diferente daquela que conquistou o Campeonato Nacional. Isso mostra que estamos no caminho certo. Apresentamos algumas irregularidades normais em um time novo como o nosso, principalmente na partida final, mas conseguimos manter o equilíbrio e superar os adversários.

O que esses títulos representam para a sua carreira?

O sucesso do meu trabalho e da minha equipe (a assistente técnica Heleninha e o preparador físico João Nunes) são motivo de orgulho e mais uma responsabilidade para mim. O desenvolvimento que o Vasco vem demostrando, em todas as categorias, mostra que o basquete carioca tem muito potencial e isso me deixa bastante satisfeita.

Então valeu a pena trocar o São Paulo pelo Rio?

Acho que sim. O que motivou a minha vinda para o Rio foi o desafio de desenvolver mais um pólo de basquete no Brasil. Isso é muito importante para o crescimento do esporte. Hoje o Estado tem ainda o time de Campos, que vem fazendo um ótimo trabalho. Mas isso não pode parar nunca. Ainda precisamos de mais estados desenvolvendo o esporte para que surjam novos talentos, como vem aparecendo nas categorias de base do Vasco.
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E como é feito esse trabalho de base?

Enquanto eu treino o time adulto, a Heleninha é a responsável pela categoria juvenil e o assistente dela, Antonio Carlos Guimarães (Puga) cuida da equipe infanto. Algumas das meninas dessas categorias de base já estão treinando com o time adulto, o que proporciona um aprendizado sem limites para esses novos talentos. Além disso, desde setembro temos três núcleos de escolinhas, que são coordenados pela Bethânia, Rafaela e Bruna, todas atletas do time adulto.

Que análise você faz do atual time do Vasco?

O Vasco hoje é uma equipe extremamente jovem e com muito potencial. Espero poder dar continuidade a esse trabalho que já dura quase dois anos. Contamos hoje com uma geração nova, cheia de vontade de contribuir para a melhora do time. Jovens como Erika e Caé, que foram fundamentais nas últimas conquistas da equipe. A armadora Mina, a mais experiente, ajuda muito dentro e fora de quadra, para dar harmonia, raça e equilíbrio a um grupo onde a maioria está começando no esporte. Espero poder contar com essas meninas para a próxima temporada e conseguir reforçar a equipe para disputarmos o Nacional no segundo semestre.
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Quais as melhores jogadoras do Brasil na atualidade e quem são as grandes promessas?

Hoje os grandes destaques brasileiros estão divididos em dois grupos. O das jogadoras mais consagradas, como Janeth, Claudinha, Helen, Silvinha e Alessandra. E o outro de uma geração mais recente, representada, entre outras, por Ega, Kelly, Érika e Iziane. As duas últimas eu destaco como as grandes revelações dos últimos anos no basquete, capazes de trazer ainda muitas alegrias para o esporte brasileiro. Nas categorias menores também tem muita gente boa chegando. Posso falar melhor dos talentos que vejo nascer no Vasco. É o caso da Karina (armadora/infanto), Paulinha e Biri (juvenil). Todas essas meninas treinam junto com a equipe adulta do Vasco. Ainda tem a Fernanda e a Priscila, que foram destaque na seleção brasileira juvenil que disputou o Sul-Americano em 2001.

E as chances do Brasil no Mundial da China, em setembro?

Acho que essa geração tem todas as condições de conquistar um lugar no pódio. Além de termos ótimos talentos em quadra, acredito que ficamos em uma boa chave. Temos jogadoras excelentes física e tecnicamente em todas as posições. Me lembro que no Pré-Olímpico da Malásia, em 88, eu comentei com a equipe, que contava com Paula, Janeth, Hortência, Marta que essa geração teria uma um lugar no pódio olímpico ou mundial em pouco tempo. O que nos faltava para isso era uma equipe mais alta, pois a nossa deficiência estava nos rebotes. Com a chegada de pivôs como a Alessandra, Cíntia Tuiú e Kelly, esse problema diminuiu e o Brasil a passou a conquistar mais títulos. Hoje a seleção é uma mistura competente de experiência e juventude que tem tudo para fazer uma ótima campanha na China.