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04/05/2016 - Soeli Garvão, a Êga

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Aos 38 anos, Soeli Garvão Zakrzeski, a Êga, está de volta à Seleção Brasileira Adulta que se prepara para o 35º Campeonato Sul-Americano da Venezuela, de 20 a 26 de maio, e os 31º Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, de 6 a 21 de agosto. A pivô paranaense, que iniciou sua carreira com a camisa verde-amarela em 2001, sob o comando do técnico Antonio Carlos Barbosa, quer ajudar o Brasil a manter a hegemonia brasileira na América do Sul. Experiência não falta. Êga é marca da determinação, alegria e bom humor. Na Seleção Brasileira, a jogadora foi quarto lugar no Campeonato Mundial Adulto (Brasil/2006) e pentacampeã sul-americana (Peru/2001, Equador/2003, Colômbia/2005, Paraguai/2006 e Equador/2008), além de medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro (Brasil/2007) e bronze em Santo Domingo (República Dominicana/2003).

Como é retornar a Seleção Brasileira aos 38 anos?

É emocionante. Mesmo com 38 anos e sendo a mais velha da equipe, me sinto como uma menina realizada. Conversando com as meninas disse para elas que deveríamos curtir todos os momentos aqui e se dedicar ao máximo, independente de corte. Precisamos dar nosso melhor, pois eu carrego essa dor comigo de não ter dado meu máximo na Olímpiada de 2008, em Pequim. Aquele era meu sonho. O grupo se dava muito bem, mas faltava aquele algo a mais. Não sinto que me dediquei ao máximo. Na quadra fazia a minha parte, falava na defesa, ajudava no ataque, mas não vivi aquele momento intensamente. Independente de vitórias ou derrotas, o sentimento de dar o melhor eu não tive. Esse erro não repito nunca mais.
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Você está a oito anos afastada da Seleção Brasileira, como foi pra você esse período?

Foi uma dor muito grande. Eu pensava que antes de deixar a seleção não havia saído com o sentimento que tinha feito a minha parte. Defender o Brasil sempre foi o sonho da minha vida. Sinto como se essa convocação fosse a oportunidade de estar corrigindo esse buraco que ficou. É um sentimento de êxtase vestir a camisa do Brasil. Agora a cada momento tento dar o meu melhor e vai ser assim até o último dia que ficar aqui. Como todas quero ficar até o último dia, mas vou fazer o máximo para quando chegar a minha hora de sair, estar com a cabeça erguida.

Sua primeira convocação para a seleção aconteceu no Campeonato Sul-Americano do Peru em 2001, sob o comando do Barbosa. Como foi pra você receber a notícia que ele estava de volta e foi convocada?

Foi uma delícia. O Barbosa passa pra gente um sentimento de paizão. Isso é muito gostoso, acolhedor e reconfortante. Ele briga, chama a atenção, mas é de uma forma que não nos diminui. Isso é muito importante. No Mundial de 2006, eu era nova, então ele chamava muito a minha atenção quando muitas vezes não era pra mim o recado, mas eu sabia que era muito amor e preocupação. Foi engraçado que na época virou manchete durante o Mundial. É um carinho tão grande que tenho por ele. Fiquei em primeiro lugar muito feliz em saber do retorno dele e depois por saber que ele lembrou de mim. Quando me chamaram pro Evento-Teste fiquei emocionada, mas infelizmente estava retornando de uma lesão e não pude me apresentar. Mas fiquei na expectativa de ser chamada novamente e graças a Deus ele me convocou. Foi um misto de emoções.
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Ser veterana e experiente pesa?

Como peso não, mas tento levar uma alegria, uma coisa especial, para passar para as mais novas. Não é só o momento da quadra, mas o dia a dia e o que está em torno disso tudo que envolve vestir a camisa do Brasil. Quando você faz algo que ama, fica mais fácil fazer com alegria. Ganhar é muito bom e todo mundo quer, mas tem que ralar no dia a dia para chegar lá. É no treino, no descanso, na alimentação. Tento mostrar para elas e passar a empolgação natural que tenho. Não podemos perder nunca a alegria de estar aqui. A rotina pode ser um inimigo, então é importante lembramos tudo que estamos passando aqui.

Como está o clima da equipe nessa fase de preparação?

Tá maravilhoso. Já perdi muitas vezes em clubes com o melhor time, pois não tínhamos a união do grupo, assim como já ganhei com times ruins por termos exatamente essa unidade. Uma jogadora olhar no olho da outra e te lembrar de que você pode e que tem a confiança do grupo, é muito importante para superarmos momentos ruins que são naturais e alcançarmos o nosso objetivo. Precisamos de um clima bom sempre. Se um esporte coletivo como o basquete não tiver isso, não teremos o algo a mais. E sem isso não se ganha campeonato.

Mesmo com poucos dias já dá para saber o nível dos treinos?

Tá ótimo. Isso vem muito da comissão técnica e do Barbosa, que tem um jeito muito legal de nos animar e passar confiança no trabalho que está sendo feito. Ele gosta de ver o grupo unido, com um clima bom. Detalhes que poderiam passar despercebidos, como durante o treino ele chamar o nome de uma jogadora e elogiar ou até corrigir, faz com que nos sintamos importantes para o time. Faz a gente pensar que está sendo vista e aumenta a confiança em nós mesmos. E ele faz isso tudo de uma maneira muito leve. Tá um clima muito gostoso todo processo.
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No Campeonato Sul-Americano o Brasil vai buscar o 26º título e o 16º consecutivo invicto, enquanto você é pentacampeã. Como você analisa o Brasil para essa competição?

Só aceito vitória em Campeonato Sul-Americano. Sabemos que o nível da competição subiu bastante desde a última vez que disputei. A Venezuela fez excelentes amistosos na Ásia e Europa como preparação, assim como a Argentina também elevou o seu nível, mas não temos pensar em perder essa hegemonia. Estamos galgando situações para a Olímpiada de surpreender. Sabemos que muitas pessoas não esperam resultados positivos do Brasil, mas estou confiante que vamos ser uma surpresa positiva em todos os eventos que disputarmos daqui pra frente. Vamos usar esses jogos amistosos e o Sul-Americano para dar confiança pro grupo e mais entrosamento entre as jogadoras mais experientes e as mais novas. Estou muito confiante.

Como está a expectativa de ficar entre as 12 que vão disputar os Jogos Olímpicos do Rio?

É enorme. Jogar com os familiares e as torcida brasileira ao seu lado é uma coisa fantástica. Isso é muito importante e valioso. É uma oportunidade que nos é dada de representar o nosso povo e a nação. Existe uma competição entre nós para ficarmos no grupo, mas de uma maneira saudável e alegre. Uma ajudando a outra para que todas possam mostrar o seu melhor. Quem ganha com isso é o time. E independente de medalha, acredito na importância de fazermos bons jogos, pois é um momento importante de alegria que é dada ao povo, além de um incentivo para as crianças a praticar esporte. Foi vendo pela TV que quis começar a jogar. Então, se o Barbosa achar que ainda posso ajudar o Brasil nessa missão quero poder contribuir sim.
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Foram duas temporadas jogando pelo Maranhão Basquete. Como foi sua adaptação ao time e a cidade de São Luís?

Aonde eu chego com uma semana já estou adaptada. Me adapto muito rápido a lugares e situações diferentes. Todo atleta tem vida meio cigana, então precisa ser assim. O Maranhão tem um povo muito bom, humilde e que faz com que a gente se sinta a vontade. Lá já me sinto em casa. E foi assim quando jogava na Europa ou em Americana (SP). Não sofro com essas situações de mudança. Na verdade até gosto.
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O que significa representar as Forças Armadas Brasileira?

É uma honra muito grande e ainda fazendo o que eu amo, que é jogar basquete. Disputamos Mundiais fora do Brasil e cheguei a ser escolhida a MVP (jogadora mais valiosa) em um desses campeonatos. Estou adorando. Na FAB, aprendemos a justificar a existência de valores muito importantes, tanto ao Mundo Militar como ao Mundo do Esporte, valores como Hierarquia e Disciplina, e sobretudo, honrar e defender a Bandeira Nacional e a nossa Pátria. O que as Forças Armadas vem fazendo em prol do Esporte Nacional é muito louvável, não só em relação ao Basquetebol, mas também em modalidades de menor visibilidade. Hoje eu posso dizer que tenho um orgulho enorme de ser a 3° Sargento Garvão da Força Aérea Brasileira.

Como foi esse período que você atuou na Espanha e na França?

Não aprendi a língua cem por cento em nenhum dos lugares, mas como sou muito comunicativa me virava muito bem. Eu falava uma palavra em português, juntava com duas em espanhol e mais duas em francês e inglês, no fim todos achavam que eu era fluente. Foi um período muito bom e aprendi muita coisa.

Você tem uma experiência muito grande em jogar no Brasil na frente da torcida. Esse apoio ajuda?

O Pan do Rio foi uma grande experiência e muito emocionante, mas não como o Mundial de São Paulo. A torcida lotava o Ibirapuera e a gente se arrepiava com o hino. Sabíamos que aquilo ali era pra gente e pelo basquete. A cada jogo que íamos disputando, maior ia ficando a torcida nas arquibancadas. Foi muito emocionante e lindo. Acredito que aquilo não é tudo do que ainda pode ser em uma Olimpíada. Quero muito isso. Esse momento seria o auge da minha carreira ao lado do meu povo.

Quais são seus objetivos para o Futuro?

No momento tentar dar o meu melhor para a Seleção Brasileira, ser útil para essas meninas novas e para meu técnico. Quero estar no Sul-Americano e ser campeã. Depois vou dar o meu melhor na segunda fase de preparação para ficar entre as 12 para os Jogos Olímpicos. O sonho de todo atleta é jogar uma Olímpiada no seu país e o meu não é diferente.