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04/03/2016 - Árbitro Guilherme Locatelli

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A arbitragem brasileira está mais uma vez em destaque no cenário internacional. O nome da vez é o árbitro internacional Guilherme Locatelli, de 34 anos, que fará sua estreia em uma competição olímpica, o maior evento esportivo do mundo. Ao lado do experiente Cristiano Maranho, Locatelli atuará nos 31º Jogos Olímpicos do Rio 2016, de 5 a 21 de agosto. Na categoria internacional desde 2010, Guilherme fez sua estreia nos IX Jogos Sul-Americanos de Medellín (Colômbia/2010). Depois disso não parou mais. O árbitro catarinense estreou em uma competição internacional adulta em um momento histórico para o Brasil, na Copa América – Pré-Olímpico de Mar del Plata (2011). Na competição, o Brasil conquistou a classificação para os Jogos Olímpicos de Londres, depois de 16 anos de ausência. Guilherme também atuou nos Campeonatos Mundiais Masculinos Sub-17 (Alemanha/2010 e Lituânia/2012) e no Sub-19 (Letônia/2011, República Tcheca/2013 e Grécia/2015). Em 2014, apitou pela primeira vez uma competição internacional feminina no Campeonato Mundial da Turquia. No ano passado, voltou às quadras internacionais para arbitrar na Copa América – Pré-Mundial (México/2015). Nessa entrevista, o engenheiro e árbitro falou sobre o momento que vive na carreira e na vida pessoal.

Qual foi a sensação de ser convocado para os Jogos Olímpicos?

Foi uma sensação de reconhecimento por todo um esforço que venho fazendo na minha vida nestes últimos anos. Todo árbitro tem como um dos seus objetivos na carreira os Jogos Olímpicos, e para mim não era diferente. Ser lembrado pela FIBA em uma competição de tamanha grandeza é motivo de muito orgulho para mim.
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O que representa para você esse novo passo?

Como árbitro, este passo com certeza é importantíssimo. Os Jogos Olímpicos Rio 2016 servirão para impulsionar ainda mais a minha carreira. Poder viver esse momento dentro do meu país e próximo das pessoas que me viram crescer nesse meio, é bastante gratificante.

Desde que se tornou árbitro em 2010, nunca parou. Esperava que sua carreira decolasse dessa forma?

Olha, para um árbitro, é muito difícil no começo da carreira imaginar aonde se pode chegar. Não conhecemos o que nos espera e as dificuldades que iremos enfrentar. Nesses últimos seis anos fui vivendo um dia após o outro, atendendo a cada nova convocação com muita seriedade e dedicação. Percebi que tudo estava tomando um rumo que eu não havia imaginado no começo, mas nunca criei expectativas sobre qual seria o próximo passo. Sinceramente, não imaginava que as coisas fossem acontecer de maneira tão rápida e intensa.

Qual a sua expectativa em relação à Olímpiada do Rio?

Como brasileiro tenho a expectativa de que seja um evento para ficar marcado para sempre na história do esporte mundial. Nós somos privilegiados de estarmos nesta geração que poderá ver de perto nosso país fazer parte da história dos Jogos Olímpicos. Não se sabe quando teremos outra oportunidade dessas e, se surgir, dificilmente estaremos aqui para acompanhar. É um momento único na vida de todos os brasileiros.
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Como é estar ao lado de Cristiano Maranho nessa convocação?

Poucos sabem, talvez nem ele mesmo lembre, mas foi com o Cristiano, há mais de dez anos, que apitei meu primeiro jogo em um Campeonato Brasileiro de Basquete. Nos últimos anos, estivemos juntos em várias competições internacionais, mas com certeza os Jogos Olímpicos é algo diferente. Poder estar em um torneio de tão alto nível com uma pessoa que me ajudou tanto a crescer e que se tornou um amigo, será sem dúvidas um prazer imenso.

Além de árbitro, você tem alguma outra função atualmente? E como faz para conciliar as carreiras?

Bom, além de árbitro, sou formado em Engenharia e trabalho em Plataformas de Perfuração e Exploração de Petróleo em alto-mar. Nessa função profissional, trabalho em rotinas quinzenais normalmente e me esforço ao máximo para conciliar as duas carreiras. Não é uma tarefa fácil algumas vezes, pois em alto-mar estamos sujeitos a muitas incertezas principalmente relacionadas às datas e horários. Mantenho contato constante com os Departamentos de Arbitragem da FCB, CBB e LNB, informando sempre que possível sobre minha disponibilidade para estar em quadra.
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Se você trabalha embarcado, como faz para manter a forma?

A vida que nos é proporcionada em uma Plataforma de Petróleo tenta ao máximo se aproximar de uma vida que teríamos em terra. Temos restaurante com refeições de três em três horas, durante 24 horas por dia, e com uma excelente variedade e qualidade. As plataformas também possuem academias, com esteiras, bicicletas, halteres, pesos livres e aparelhagem completa. Para mim acaba sendo até mais fácil manter a forma embarcado do que em terra, onde tenho que conciliar a preparação física com a minha vida pessoal e meus compromissos com a arbitragem.

Você chegou ao ponto mais alto da carreira ou ainda falta alguma coisa que queira realizar?

Acredito que os Jogos Olímpicos são uma excelente oportunidade de crescer ainda mais na arbitragem. Com certeza participar deste evento é um ponto alto na minha carreira, mas ainda sou bastante novo e tenho pelo menos quinze anos pela frente ainda ativo como árbitro internacional. Não ter a pretensão de conquistar mais nada, me colocaria numa situação de conforto que é extremamente prejudicial à carreira de um árbitro. Na realidade, me sinto como se tivesse muito a realizar dentro de quadra ainda e com muitos objetivos que sequer foram traçados.
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Em 2014, você apitou pela primeira vez uma competição internacional feminina. Como foi essa experiência?

O Campeonato Mundial Adulto Feminino na Turquia foi uma experiência diferente das demais que tive dentro da arbitragem. O jogo de basquete praticado pelas mulheres hoje em dia está tão especificamente moldado às características físicas delas, que precisei adaptar meu raciocínio para aquele torneio. As soluções técnicas e táticas utilizadas pelas atletas para as diferentes situações do jogo são completamente diferentes das dos homens, fazendo com que movimentos e contatos sejam também diferenciados. Confesso que após a primeira rodada do torneio fiquei um pouco preocupado em como atuar em alto nível diante daquela situação, mas acabou dando tudo certo e tive uma boa participação ao final da competição.

Quais as lembranças mais marcantes nas competições?

Apesar de os jogos também me trazerem boas lembranças ao longo dos anos, o que eu acabo realmente guardando são as pessoas, as culturas e os locais que tive a oportunidade de conhecer por causa do basquete. Estive em Praga, na República Tcheca, em 2013, durante o Mundial Sub-19 Masculino, uma das cidades mais bonitas que já conheci e que pretendo com certeza retornar em algum outro momento da minha vida. Na Turquia, tive contato com uma cultura muito distante da nossa realidade. A grande maioria da população é islâmica, foram duas semanas de um aprendizado imenso sobre as nossas diferenças. E, aqui no Brasil, o que é bastante marcante são as pessoas, o companheirismo dos meus colegas de arbitragem dentro e fora de quadra, o convívio semanal com eles durante a temporada. Isso tudo estará muito bem guardado para sempre em minha memória.
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O que você costuma fazer nos momentos de lazer?

Durante a temporada aqui do Brasil, devido a minha vida bastante corrida, procuro fazer programas mais calmos e caseiros sempre que surge alguma oportunidade de ficar algum tempo em Florianópolis. Recebo familiares, visito amigos ou fico somente com a minha esposa em casa, muitas vezes assistindo jogos de basquete, por incrível que pareça. Ela foi atleta, nos conhecemos através do esporte, e além de gostar de basquete, ela acompanha de perto a minha carreira. É ao mesmo tempo minha maior crítica e minha maior torcedora.