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27/01/2016 - Waldir Geraldo Boccardo

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Medalhista olímpico (Roma/1960) e campeão mundial (Chile/1959), estão entre os principais títulos de Waldir Geraldo Boccardo, ex-jogador da Seleção Brasileira Adulta, que comemora 80 anos, nesta quinta-feira (dia 28). Pela Seleção Brasileira, o ex-ala-pivô somou 48 pontos em 13 jogos oficiais. Como assistente técnico, Boccardo esteve ao lado de Ary Vidal no comando da conquista da medalha de bronze no Campeonato Mundial das Filipinas (1978) e no título de campeão brasileiro com o Corinthians de Santa Cruz do Sul (RS). Natural de São Manuel (SP), mas carioca de coração, Boccardo se descreve como um homem extremamente realizado e feliz, além de um apaixonado pelos filhos Milla e Vitor.
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Conte um pouco do seu início no basquete.

Sou natural de São Manuel e lá não tinha basquete. Então, em 1942, quando meu pai ficou tuberculoso, tivemos que nos mudar de cidade e fomos para uma estância climática em São José dos Campos (SP). E lá o basquete era o esporte mais popular. Alberto Marson (bronze nas Olimpíadas de Londres , em 1948) foi o treinador que estava em São José na época e tinha como um dos empregos ensinar educação física. Não demorou muito e ele me encontrou. Meu sonho era ser campeão, ter uma loira e um fusca, então vibrei quando ele começou a me treinar. Meus pais não queriam no início, mas o Marson foi lá e conversou com eles. Foi a melhor coisa que ele fez e assim se tornou um dos melhores técnicos que tive na vida.
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Hoje aos 80 anos, quais suas melhores lembranças da época de glórias do basquete brasileiro?

São tantas que nem sei por onde começar. Até hoje quando para pra pensar vejo o quanto sou feliz na vida pela profissão que tive. Consegui ser campeão mundial e isso foi maravilhoso. Quando chegamos ao Brasil desfilamos no carro de bombeiros e fomos recebidos com muita festa. Depois mesmo não tendo sido o primeiro lugar, acho que a conquista do bronze olímpico em Roma foi ainda mais emocionante. Fidel Castro e Che Guevara foram ao ginásio e o povo ficou de pé gritando muito. Então me puxaram para cumprimentar eles e sai em todos os jornais de Cuba. Mas entre as melhores lembranças estão o meu trabalho em Santa Cruz do Sul (RS), em 1994, ao lado de Ary Vidal. O Corinthians nunca havia sido campeão nacional, aliás nenhum time gaúcho nunca havia sido campeão. Quando fomos trabalhar lá o ginásio ficava completamente vazio, depois tinham oito mil pessoas dentro e outras oito mil do lado de fora querendo entrar. Foi um sucesso. Quando voltamos fomos recebidos até pelo governador. Tive a oportunidade de jogar ao lado de grandes jogadores.
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Vocês mantém contato até hoje?

Graças a tecnologia, hoje temos ainda mais contato. Nos falamos regularmente e quase sempre sobre basquete. A tecnologia é importantíssima e quem não sabe mexer com a internet é praticamente considerado analfabeto (disse entre risos).
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Como encarou a responsabilidade de trabalhar ao lado de Ary Vidal com quem conquistou muitos títulos.

Ele era um treinador maravilhoso e um dos únicos que não tinha medo que eu ficasse com seu emprego, pois havia estudado nos Estados Unidos e alguns técnicos me viam como ameaça. Quando o Kanela (Togo Renan Soares) me trouxe para o Rio de Janeiro, fui trabalhar com o Ary Vidal no IBGE. Ele sempre foi um grande amigo, tanto que toda vez que precisava viajar para jogar, ele assinava o ponto pra mim. A nossa parceria era muito boa e ele me ajudou muito. Ninguém me chamava para ser assistente, mas ele sempre me convidava. Toda vez que estivemos juntos fizemos boa campanha ou conquistamos resultados positivos. Ele não tinha receio de nada. Ganhamos juntos o título nacional com o Corinthians (RS), a medalha de bronze no Campeonato Mundial das Filipinas (1978), último bom resultado do Brasil em Mundiais., além disso tivemos bons jogos pelo Uberlândia (MG). Todo dia 28 de dezembro eu dava a primeira ligação para o Ary em seu aniversário e um mês depois, 28 de janeiro, era ele que me dava a primeira ligação de parabéns do dia. Em seus últimos três dias de vida, a esposa dele me contou que o Ary ficava falando que meu aniversário estava chegando. Infelizmente, ele não me ligou naquele 28 de janeiro de 2013, pois foi exatamente o dia de sua passagem.
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Qual o título mais importante da sua carreira?

Não é um título mundial ou olímpico, mas sim um nacional e pelo o que representou. O título de campeão brasileiro em 1994 como assistente técnico do Ary Vidal no Corinthians (RS). Em 2009, tivemos uma grande festa para comemorar os 15 anos da conquista em Santa Cruz do Sul (RS). Foi muito bom pois apagaram as luzes do ginásio e foram chamando o nome de um por um para entrar em quadra. Infelizmente não fizemos festa de 20 anos, pois sem o Ary não tinha a mesma graça.
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Em 2002, você escreveu o livro "Os dez mandamentos do basquete moderno". Como foi a experiência e o que te levou a esse livro?

Foi bem simples o processo. Como já tinha o nome do livro, foi fácil. Fui escrevendo aos poucos, comecei enquanto ainda estava na Arábia Saudita escrevendo em um papel de pão. Em 2003, o Rogério Werneck, um amigo pessoal, me ofereceu ajuda para passar todo o material para digitação no computador. No livro coloquei também as palavras mágicas, já fiz muito time ganhar só com essas palavras. E não poderia ser diferente, o prefácio do meu livro foi escrito por Ary Vidal. Os times brasileiros entraram nos anos 70 com uma rotina rudimentar de treinos e exercícios calistênicos como polichinelo, canguru, abdominal, flexão etc. Então fui um dos primeiros a oferecer uma linha empírica, ou seja, a ciência aplicada ao treinamento de basquete. Sou um apaixonado pela literatura americana sobre estrutura e dinâmica de jogo. Acredito que quem age leva vantagem sobre quem reage. Sempre orientei as equipes a atacar na defesa, a contestar a bola e a provocar o erro adversário.
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Você foi professor. Como é trabalhar com jovens?

É muito fácil e muito bom. Trabalhei por 15 anos na Escola Americana e por 17 na Universidade Gama Filho. Sempre fui muito querido na Escola Americana, mas quando me chamaram para trabalhar em uma faculdade não pude manter as duas e tive que optar. Na escola ensinava basquete, vôlei, futebol de salão entre outras modalidades, enquanto na faculdade era responsável pela disciplina Basquetebol no curso de Licenciatura Plena em Educação Física. Lá tive um excelente assistente, o Byra Bello, que ficou comigo durante 14 anos. Foram anos maravilhosos e o nosso convívio sempre foi espetacular.

Como foi esse período na Arábia Saudita?

Em 1990, morei na Arábia Saudita, na cidade sagrada de Medina. Eles queriam levar o Tude Sobrinho, mas como estava impossibilitado de ir acabei indo no seu lugar. Lá treinava a Ohud Medina, uma grande equipe que era a paixão dos torcedores de lá, tipo o Flamengo no Brasil. Tivemos ótimos resultados e fomos campeões nacionais. Numa final muito acirrada ganhamos de pouca diferença, pois fui colocando os reservas na quadra. Os torcedores jogavam garrafas e copos na minha cabeça. Não tinha noção de que a disputa era tão acirrada entre esses times. Mas quando ganhamos, a torcida vibrou gritando meu nome. E também foi assim quando fomos campeões da Copa do Rei. Eles me jogavam para o alto muito felizes, pois era um título inédito. Meu contrato era de dois anos. Quando vim para casa de férias, após o primeiro ano não consegui mais voltar. Além de ser uma cultura muito diferente, sentia falta dos meus filhos.
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O que o basquete te deu?

Me deu absolutamente tudo. Do lado material me deu a oportunidade das minhas conquistas pessoais como ter dois filhos, Milla e Vitor, e de conhecer 60 países. Defendi o Brasil em Mundiais, Olimpíadas, Pan-Americanos, Universíade e Sul-Americanos. Além de ter morado na Arábia Saudita e ter viajado muito pelos países no entorno.
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Como é o Waldir Boccardo em família?

Sou adorado pela família. Sou muito caseiro, então gosto de receber meus amigos e filhos e falar de basquete.

E você continua ativo no basquete?

Infelizmente tive que parar com o basquete porque sentia muitas dores nos pés, mas não parei de me exercitar. Como moro perto da praia, faço caminhadas e exercícios na areia. Preciso manter a forma para me manter bem. Quero viver muito ainda.