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16/06/2015 - Kelly Santos

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Os Jogos Pan-Americanos de Toronto, no Canadá, que acontecem entre os dias 16 e 20 de julho, trouxeram de volta à Seleção Brasileira Adulta a pivô Kelly Santos. A atleta de 35 anos é um dos principais nomes do garrafão brasileiro e retorna para reforçar o grupo renovado do técnico Luiz Augusto Zanon. Com 1,93m de altura, a pivô sempre deixa sua marca nas competições internacionais e já defendeu o Brasil em três Olimpíadas, tendo conquistado a medalha de bronze nos Jogos de Sydney (2000). Com sede de bola, a jogadora quer continuar ajudando e sonha em disputar os Jogos do Rio em 2016. Com a experiência adquirida em quinze temporadas na seleção e no basquete europeu e da WNBA, o garrafão brasileiro está em boas mãos.
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Em que momento da sua vida você resolveu dar a volta por cima e regatar o seu espaço no basquete brasileiro e na seleção?

Eu defendi por 15 anos seguidos a Seleção Brasileira. Comecei em 1996 no juvenil e minha última participação foi no Campeonato Mundial em 2010. Nesse período, fiquei fora um ano por conta de uma cirurgia no joelho, em 2006. Foram 15 anos intensos também nos clubes que defendi na Europa e WNBA. Houve desgaste pessoal porque não queria mais essa rotina. Na época jogava na Turquia, mas acabei voltando para o Brasil onde fiquei por três anos. O meu último retorno para a Turquia foi muito revigorante. Joguei campeonatos internacionais por lá e no Brasil joguei a LBF que está cada vez mais forte. Essas situações foram importante para que eu pudesse buscar de novo uma identificação. No Brasil me reavaliei, me autoconheci e amadureci muito nesses quatro anos que estive ausente da seleção. Com o Brasil fui medalhista olímpica e conheci o mundo inteiro. Voltar agora para a seleção é como se estivesse pagando uma dívida, porque quem me lançou foi o Brasil. Devo tudo ao meu país e estou aqui hoje para retribuir isso.

O que você fez nesse período que esteve fora?

Nesse período vi qual era a realidade do esporte brasileiro e que era bem diferente dos outros países que joguei. Isso foi importante para que eu focasse em outros caminhos como o trabalho social e ONGs, que é uma coisa que me agradou bastante. Foram anos que me fizeram ver a vida com outros olhos. Receber a notícia da minha convocação foi um susto, mas também uma alegria. O momento da convocação me fez relembrar todos esses anos que me dediquei à Seleção Brasileira e nos que estive fora também. Pensei que se pudesse ajudar essas meninas com a minha experiência, então eu iria.
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Como é retornar à Campinas?

Voltar para defender o Brasil aqui em Campinas têm muito significado positivo. Comecei a jogar basquete profissional aqui defendendo a Microcamp (SP). Depois minha primeira convocação para a Seleção Brasileira Adulta também foi no ginásio do Tênis Clube de Campinas. E fomos campeãs naquele ano da Copa América de São Paulo (Brasil/1997). No primeiro treino aqui, na hora que entrei no ginásio, passou um filme na minha cabeça. E ao ver essas meninas ao meu lado, pensei porque não resgatar uma menina dentro de mim também.

E o que acha dessa nova geração de jogadoras?

Tenho acompanhado um pouco essa geração. Vejo que essas meninas que estão aqui precisam ainda de experiência, mas possuem vigor e energia de sobra. O basquete fisicamente evoluiu muito e é difícil jogar basquete. É preciso ter equilíbrio e inteligência emocional, além de um raciocínio rápido. Então é importante esse vigor delas, mas é necessário somar com um pouquinho de experiência.
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Quais suas expectativas para o Pan-Americano de Toronto?

O Pan-Americano é uma competição de alto nível. Estou indo para meu quarto Pan, onde conquistei duas medalhas: uma de prata no Rio de Janeiro (Brasil/2007) e a de bronze em Santo Domingo (República Dominicana/2003). Teremos que trabalhar muito duro para conseguirmos uma medalha em Toronto, mas temos condições totais.

É a primeira vez que você trabalha com o técnico Zanon. Como é trabalhar com ele?

Eu já havia escutado falar muito bem dele e do treino que ele passa. Além disso o Zanon é bem descontraído, mas consegue ser muito claro nos objetivos que ele quer de cada uma de nós. Gostei muito disso nele. Na apresentação, ele brincou, explicou como seria e disse: "Vamos trabalhar, quero produção". E é isso aí.

Você participou de três Olimpíadas, conquistando uma medalha e um quarto lugar. O que isso representa na sua vida?

Representa muito. É o retrato de toda minha carreira e de minha abdicação a outras coisas. Ser atleta não é fácil, tem muitos benefícios, mas até colher isso tem que se sacrificar muito. Ter esses resultados é super gratificante.
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Espera estar na Rio 2016?

Disputar mais uma Olimpíada sem dúvida é o que me motiva. É diferente de estar em uma situação pedindo ou precisando de algo. Hoje a Seleção Brasileira pediu para eu voltar. Sei que tenho condições de ajudar o Brasil e não tem motivação maior do que essa, disputar uma Olimpíada no seu país.

O basquete te levou a vários lugares do mundo. Qual te chamou atenção?

Hoje por causa do basquete falo também italiano e espanhol. Turco é impossível. Falo sempre que é português ao contrário. Morei nesses anos todos em nove países diferentes, então vi muita coisa. Joguei em vinte clubes. Cada um desses lugares que passei possui sua peculiaridade. Istambul, na Turquia, é exótico e muito lindo. Nos Estados Unidos a praticidade de vida é incrível.
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Que balanço faz de sua trajetória fora do país?

Eu cresci bastante com todas as minhas experiências. Estrangeiro fora é muito cobrado, pois ele vai para resolver. Demorei para me adaptar a isso, mas quando entendi como funcionava tudo se tornou mais fácil. Jogar sobre pressão e com uma responsabilidade muito grande nas costas, me fez bem como atleta. E morar nesses lugares todos me enriqueceu culturalmente. Morei fora por 13 anos e passei por coisas que poucas pessoas tem a oportunidade de vivenciar.

Como é estar de volta ao Brasil?

É sinônimo de muita alegria. O Brasil é um dos melhores países do mundo para se viver. Você pode morar em cidades que é verão o ano inteiro e que é frio também para quem gosta. Nos campeonatos, as viagens não são tão cansativas como em muitos lugares no exterior. Tem lugares na Rússia que você viaja quarenta horas de trem para jogar. Além disso aqui estou próxima da minha família e dos meus amigos.
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Como conciliar a vida de atleta e de dona de casa?

Já estou casada há seis anos e assim que casamos eu quis parar de jogar e ser mãe, mas meu marido não deixou. Ele é engenheiro e ex-atleta. Ele sempre dizia que eu não estava preparada para deixar as quadras de lado, pois para ele havia sido muito difícil. Hoje eu agradeço a ele. É muito bom ter um companheiro que você pode dividir as alegrias e problemas e que te entende. Foi um relacionamento que somou muito na minha vida e me trouxe tranquilidade. É um lado da minha vida muito bem resolvido.

Você sabe cozinhar?

Eu gosto de cozinhar, mas não gosto de fazer doces. A gente divide bem os trabalhos da casa e da cozinha também. Sou mais especialista em massas e ele em carnes. Como viajo muito para jogar, toda vez que temos um tempo junto aproveitamos para fazer tudo juntos.
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Você se lembra da primeira vez que jogou basquete?

Eu lembro que meu primeiro jogo oficial foi em Piracicaba (SP). Estava no Leite Moça (SP) na época e fomos jogar lá. Mas o primeiro jogo profissional que assisti e que acho que foi naquele momento que resolvi jogar basquete de verdade foi quando o Leite Moça enfrentou a Ponte Preta em uma final. Fizemos uma caravana e fomos assistir no Ibirapuera, em São Paulo. Eu tinha 13 anos na época. Um lado do ginásio era todo branco por conta do patrocinador (Leite Moça) e o outro todo preto, pela Ponte Preta. Foi um grande impacto para mim. Vi Paula, Hortencia, Karina e Marta na quadra naquele momento. Foi o meu encantamento pelo basquete. Passaram alguns meses e fiz minha estreia no Leite Moça.

E a primeira convocação para seleção, como foi?

Comecei na Microcamp, naquele ano ganhei 17 medalhadas. Estávamos invencíveis. Ganhei medalha no infantil, no juvenil e no adulto. O Barbosa (Antonio Carlos) treinava o juvenil e o adulto. Foi quando assumiu a Seleção Brasileira e levou várias meninas que treinavam com ele. Nunca fui convocada para a Seleção Paulista, mas graças a ele que me preparou fui vista e descoberta a partir daquele ano (1996). Eu tinha 17 anos e foi um ano muito glorioso para mim.

Você está com 35 anos. O que te dá motivação para continuar em quadra?

Jogar minha quarta Olimpíada. Quero defender o Brasil e sei que posso ajudar a Seleção Brasileira nos Jogos do Rio. A minha experiência ainda pode ser aproveitada em quadra. E quem sabe ainda encantar algumas crianças como aconteceu comigo.
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Projetos Futuros?

Quero trabalhar com crianças e projetos sociais. Eu venho de uma família bastante humilde, então quero ajudar as crianças a saírem das ruas e a se motivarem com algo. Já montei minha ONG que se chama Bora Bora Brasil, onde já realizei a primeira Clínica. Na ONG trabalhamos com música, basquete, mágica. A primeira palestra que fiz era sobre a minha experiência desde o início até o dia de que tive minha oportunidade. Foi difícil eu conseguir a vaga na Seleção que tinha a geração de Paula e Hortência. Então falo sobre isso e muito sobre disciplina e estudo.