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14/04/2015 - Antonio Carlos Barbosa

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Aos 70 anos, completados nesse dia 14, Antonio Carlos Barbosa acredita que tem muito a ajudar no desenvolvimento e crescimento do basquete brasileiro. Foram 50 anos de carreira como técnico e 30 anos na seleção brasileira com muitos desafios e conquistas. Entre eles está a descoberta de jogadoras como Paula e Hortência e as conquistas da medalha de bronze no Jogos Olímpicos de Sydney (Austrália/2000) e o primeiro título em uma Copa América/Pré-Mundial (Brasil/1997). Foram duas fases distintas no comando da equipe nacional, sendo a primeira entre 1976 e 1984. Desde que o treinador voltou ao comando pela segunda vez, entre 1996 e 2007, todas as equipes comandadas por Barbosa ficaram entre as quatro primeiras do mundo.
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Você começou jogando basquete ou já como técnico?

Comecei jogando em um time juvenil de Bauru. Na época não existia muita divulgação da modalidade, então éramos uma grupo de amigos de cinema e brincadeiras dançantes. Fomos convidados por um técnico a formar uma equipe, mas eu era um jogador bastante limitado. Como eu era atuante na comunidade escolar, onde eu tocava na fanfarra e era orador de turma, a professora perguntou se eu gostaria de comandar o time da escola. Na época, eu frequentava o curso clássico de manhã e dava aulas na parte da tarde, mas também não tínhamos muito conhecimento. Eu só sabia o que o meu técnico me passava. Me formei em Educação Física e Direito e fui convidado para levar o time da escola e de um outro grupo de meninas que comandava a se juntarem. Então criamos em Bauru a Associação Luso Brasileira de Bauru.

E foi essa sequência iniciada como técnico?

Depois que criamos a Luso Brasileira começamos a disputar como federados o Campeonato Paulista e fui me desenvolvendo. Em 1968, fui convidado para ser assistente técnico da equipe paulista no Brasileiro Adulto de Seleções. No ano seguinte, recebi o convite para dirigir a seleção juvenil paulista (Sub-19). Depois fui contratado pelo SESI/Bauru e dava quatro horas de aula de basquete por dia. Lá formei muitas equipes boas e foi quando meu trabalho começou a aparecer.
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De quem veio o convite para integrar a Seleção Brasileira?

Aconteceu em 1971. Depois da conquista do terceiro lugar no Campeonato Mundial, o professor Waldyr Pagan me convidou para ser seu assistente nos Jogos Pan-Americanos de Cali, quando conquistamos o ouro. Eu tinha 26 anos na época e foi um início bastante precoce. Permaneci mais dois anos com a Seleção Brasileira, mas devido a compromissos no SESI precisei sair, mas segui com as categorias de base das seleções paulistas onde mantivemos a hegemonia. Em 1976, depois de um resultado ruim no ano anterior, fui chamado a voltar e demos início ao processo de renovação. E levamos a geração de Paula (14 anos), Hortência (17 anos) e Vania Teixeira (19 anos).

E esse processo de renovação levou muito tempo a trazer resultado?

Os resultados demoraram a aparecer, mas fui mantido. Era um buraco entre as gerações, mas sucessivamente os resultados foram aparecendo. Se hoje é difícil fazer um intercâmbio entre as seleções, imagina naquela época. Era uma seleção que não tinha muita altura e nem a linha de três pontos para ajudar. Essa geração esteve comigo de 76 a 84, foram nove temporadas de muito trabalho. Elas levaram 15 anos para conquistar um grande título que foi o do Pan-Americano de Havana (Cuba/1991).
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Em 50 anos de carreira como técnico e 30 anos na seleção brasileira, quais os principais momentos que você guarda na memória?

Uma vida longa no basquete como a minha tem vários momentos marcantes. Posso começar destacando a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos (Sydney/2000), mas para mim um dos principais foi a conquista do primeiro título da Copa América/Pré-Mundial Adulta em São Paulo (Brasil/1997). Foi um ótimo campeonato contra fortes seleções como Cuba (115 a 106) e duas grandes vitórias contra os Estados Unidos (87 a 83 e 101 a 95). Um dado importante desta conquista é que estávamos sem Janeth Arcain, que estava na WNBA. Guardo com carinho essa conquista. E claro a minha convocação para a Seleção Brasileira que foram marcadas por duas fases, a renovação da equipe e depois no momento de transição. No primeiro com a geração de Paula e Hortencia e as coadjuvantes. No segundo as coadjuvantes passam a ser as protagonistas. Fomos para os Jogos de Sydney com seis jogadoras participando pela primeira vez de uma edição. E com Janeth que estava sempre um patamar acima. Foi muito gratificante. Com os clubes, tenho marcado as conquistas com o Piracicaba sobre o time de Campinas, que fizeram grandes encontros.
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Você foi o treinador que provavelmente mais lançou jogadoras no mercado. O que é preciso para formar atletas de alto nível?

Quando comecei a realizar esse trabalho nós tínhamos um Campeonato Nacional muito forte com atletas estrangeiras de alto nível vindas dos Estados Unidos, Rússia e Bósnia. A consequência disso é que tínhamos equipes de base fortes com grandes técnicos atuando. Na época, tínhamos muita estrutura para as equipes de base, mas quando começa a faltar financiamento para as equipes principais começa a faltar para as categorias abaixo. É a estrutura fornecida pelo clube que favorece o crescimento. Podem me chamar de louco, mas não acho que o Brasil está em má situação em se tratando de número de jogadoras. Se compararmos a muitos países, nenhum deles tem o nível de pivôs que possuímos aqui e as que jogam de fora do garrafão também. Estamos em um momento de transição em que o nível foi caindo. Hoje o Brasil tem condições de jogar de igual para igual com muitos países pelo que vi nos dois últimos Mundiais. Foram detalhes como uma preparação mais longa, com mais amistosos e detalhes de jogo individual que fogem do controle do técnico que fizeram a diferença. Fora Estados Unidos, França, Espanha e Austrália, todos os outros países estão mais ou menos no mesmo nível.
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Como foi comandar a Seleção Brasileira na conquista da medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Sydney (Austrália/2000)?

Foi complicado. Nos preparamos bem e não faltou nada. Tivemos as condições de treinamento com os amistosos no exterior. Mas alguns jogos não podíamos ter perdido. A derrota para a França (70 a 73) na prorrogação e Canadá por um ponto (60 a 61) não podiam ter acontecido. O saldo foi que em cinco jogos tivemos duas vitórias (Eslováquia e Senegal) e três derrotas. Com o resultado aconteceu um tríplice empate contra França e Austrália, mas decidido no confronto direto. Ficamos em terceiro lugar no grupo e enfrentamos a forte Rússia. A disputa do bronze foi extremamente emocionante. Ganhamos na prorrogação (84 a 73) e levamos a medalha.
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Você também trabalhou durante muito tempo fazendo Clínicas de Preparação Técnica em todo território nacional. O que você viu de mais curioso nos quatro cantos do Brasil?

O que vi foi a heterogeneidade entre as regiões. Eram Clínicas rápidas, mas qualquer conhecimento era útil, pois não existia muita literatura para formadores de jogadores. Vi muitos professores transvestidos de técnicos. Hoje tem muita literatura que ensina basquete formativo. Realizei muitas palestras de apresentação da modalidade com objetivo de trazer novos interessados a fazer basquete, foi a porta de entrada para a Escola Nacional de Treinadores (ENTB). O caso mais engraçado foi quando fui fazer uma Clinica em Brasiléia, no extremo do Acre, que é separada da Bolívia por apenas um Rio. E durante o evento apareceram muito mais bolivianos do que brasileiros. Precisamos seguir com a disseminação da informação e do conhecimento para não elitizar a formação.

Na sua opinião, o que é fundamental para ser um bom técnico?

Escuto muito a palavra estudioso, mas isso é apenas parte do contexto. O treinador tem que estar ligado no que acontece ao redor e observar e ver o que estão fazendo ou que se pode fazer. Além disso, tem que ter talento, não dá para apenas se inspirar em alguém. Tem que ter o diferencial e manter a criatividade.
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Depois tanto anos envolvidos com o basquete, como você faz para se manter atualizado?

Acompanho tudo que acontece no universo do basquete tanto feminino quanto masculino. Assisto NBB, LBF, Liga ACB, Euroliga, NBA e o que mais aparecer. Confiro as estatísticas e as notícias do basquete no Brasil e no exterior. É um esporte que está em evolução constante não apenas na parte tática. E hoje a tecnologia ajuda muito nisso.
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Sente saudades de estar na beira da quadra no comando de uma equipe?

Gosto muito de estar na quadra. Em 2014, foi a última vez que comandei uma equipe, mas sinto que com tanto conhecimento ainda tenho plena condições de trabalhar. Mas claro, já me aposentei da Seleção Brasileira.

Depois de tantas conquistas, você ainda tem algum sonho para realizar?

Acho que quando você para de sonhar, morreu. Gosto sempre de desafios. Possuo 429 jogos com a seleção brasileira entre oficiais e amistosos. Continuo querendo ajudar no desenvolvimento e crescimento da minha modalidade.

Como é o Barbosa fora das quadras?

Sou uma pessoa extremamente tranquila. Tenho muita energia e disposição, além de uma vida social bastante agitada. Faço parte do Lions Clube e fazemos muitos trabalhos sociais.