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25/01/2002 - Oscar Schmidt

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Às vésperas de completar 44 anos, o cestinha Oscar Schmidt, do Flamengo/Petrobras, entra em quadra para disputar sua última competição oficial como jogador. Em 30 anos de carreira, Oscar conquistou importantes títulos no Brasil, na Europa e com a camisa da seleção brasileira. Os principais foram a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis (1987) e o título de campeão mundial de clubes com a camisa do Sírio (1979). No Nacional 2002, Oscar realizará um sonho de jogar ao lado do filho Felipe e irá ajudar o Flamengo na busca do título inédito de campeão brasileiro.

O que significa o basquete em sua vida?

Tudo. O basquete é a minha vida. Tudo o que eu tenho, tudo o que sou hoje, eu devo ao basquete. Ao basquete e à minha família. O esporte acabou sendo um complemento da educação que tive em casa, uma educação que tentei passar aos meus filhos e que teve papel fundamental na minha formação como homem, no meu caráter, na minha personalidade. Foi no basquete que eu amadureci, que eu cresci como pessoa, que moldei a minha personalidade. Passei por muitas experiências, vivi muita coisa, fiz bobagens, errei, acertei em outras vezes, aprendi lições... Ao longo de 30 anos, acabei misturando meu nome, minha cara e minha vida ao basquete e isso é uma coisa que me dá um tremendo orgulho.

Valeu a pena esses anos todos treinando, jogando, viajando?

Valeu sim, valeu muito. Abri mão de muitas coisas ao longo da carreira, mas não me arrependo de nada. Passei por bons e maus momentos, foram anos treinando, suando nas quadras, jogando, lutando, viajando por todo o mundo numa rotina estafante, desgastante, massacrante mesmo, mas que também foi muito gratificante. Hoje eu olho para trás e tenho a certeza de que faria tudo de novo, igualzinho. Sou o que sou hoje, tenho o que tenho graças à dedicação ao basquete, por ter me entregue a esse esporte fascinante por 30 anos. Sou um cara feliz e realizado.
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Qual a importância de ter jogado na Europa?

É uma coisa que aconselho outros atletas a experimentarem quando surgirem oportunidades. Fui para lá novo e encontrei um mundo diferente, com todas as dificuldades que um estrangeiro poderia ter pela frente: comida, língua, amizades, cobranças... Mas aquilo fez com que eu me superasse, me deu força, me fez vencer lá fora. O mais importante quando se vai para o exterior é ter uma boa cabeça, tranqüilidade para tentar mostrar o seu trabalho. Ninguém recebe convite por acaso. Se você foi bom o bastante para despertar o interesse dos outros e chegar até lá, precisa ser ainda melhor para corresponder e se manter. Um convite para jogar na Europa pode ser uma chance única e uma boa passagem por lá abre portas. Uma boa trajetória no exterior valoriza o atleta, o faz crescer não apenas profissionalmente mas como pessoa também. No basquete, conhecer outro estilo de jogo, competir nos melhores campeonatos, contra alguns dos times mais fortes do mundo, em países de formas de jogo diferentes, é uma experiência de vida.

As maiores emoções e alegrias como jogador.

Ah, sem dúvida alguma, o Pan-Americano de Indianápolis (1987) foi a maior alegria, a maior emoção da minha carreira. Ganhar aquela partida quando ninguém apostava na gente, depois de ir para o intervalo perdendo de 20 pontos de diferença e vencer, conquistar a medalha de ouro dentro da casa deles, metendo 120 pontos, coisa que nunca aconteceu, foi demais. É claro que vivi outras grandes alegrias, como a conquista do Mundial pelo Sírio (1979), torneios pela Europa, emoções, como a minha despedida da Seleção Brasileira, nos Jogos de Atlanta (1996), foram muitas, sem dúvida. Mas há ainda uma grande alegria e uma grande emoção que eu vou viver. A alegria é poder jogar ao lado do meu filho Felipe. A emoção é o adeus às quadras. Não sei, não parei para pensar ainda como vai ser, o que vai ser, e na verdade eu nem quero pensar. Só sei que abandonar essa rotina da noite para o dia, esse mundo que vivi pelos últimos 30 anos, vai ser duro, muito duro...

Existe alguma tristeza ou mágoa. Qual?

Não, acho que mágoa eu não tenho nenhuma. Tristeza...? Talvez eu chamaria de tristeza o fato de não ter conseguido uma medalhinha olímpica. É a conquista que faltou na minha carreira e ficamos muito perto de subir no pódio por três vezes.
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Dos quase 50 mil pontos marcados, quais as cestas mais importantes?

Foram muitas cestas importantes, algumas representantivas para o clube, outras que significaram muito para mim... Acho que algumas são inesquecíveis mesmo. Como os dois lances livres que eu converti para empatar e levar para a prorrogação a decisão em que conquistamos com o Sírio o Mundial Interclubes no Ibirapuera e aqueles 42 pontos que eu fiz. Não dá para esquecer os 46 pontos de Indianápolis também... Claro, aquela cesta do recorde de pontos não vou esquecer nunca. Foram muitas mas junto com estas cestas, junto com as muitas que marquei na minha vida e não esqueço, estará a última da minha carreira. Esta vai ser uma cesta de alegria, pois vai encerrar a carreira de um cara que sempre deu tudo, sempre deu o seu melhor, mas também vai ser uma cesta triste pois vai me dar muita saudade.
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Uma análise do Nacional 2002 e a expectativa com relação ao Flamengo no Campeonato.

A CBB vem melhorando o Nacional um pouquinho a cada ano que passa. Este de 2002, com 17 equipes, espero que seja um grande torneio, com o público voltando aos ginásios e, esta sim foi uma grande novidade, assistindo às partidas também na TV aberta. Isso é muito importante para a popularização do basquete junto às crianças e para atrair o interesse de novo do brasileiro. Quanto mais times, quanto mais importância derem ao Nacional, melhor. Todo mundo sai ganhando: o esporte, porque será mais difundido a cada dia pelo país; a CBB, porque haverá um apelo maior à competição, atraindo mais patrocinadores e força ao basquete; as seleções, porque serão mais jogadores em quadra e aparecendo, tendo oportunidades num mercado que vai se abrindo mais, e, talvez a peça mais importante disso tudo, o torcedor. Acho que o Flamengo vai entrar forte nesse Nacional e vejo sete ou oito equipes com reais chances de conquistar o título. Fizemos um bom Campeonato Estadual no ano passado, perdemos na final, mas fizemos uma boa campanha. Estou bastante otimista. O grupo do Flamengo é brioso, guerreiro, valente e, principalmente, muito unido. Não tenha dúvidas de que vamos entrar para brigar pelo título.

E as chances do Brasil no Mundial de Indianápolis?

Acho que o Brasil tem duas partidas-chaves no Mundial: precisa de uma vitória na fase de classificação e outra nos cruzamentos para poder chegar entre os oito primeiros colocados. Lógico, não será fácil. Que ninguém ache que isso é fácil, que é simples, porque não é. Hoje há uma renovação evidente e de muita qualidade no basquete brasileiro, com jogadores jovens e talentosos aparecendo, casos de Dedé, Nenê, Marcelinho e Ânderson Varejão, e outros como Rogério, Janjão e Ratto, por exemplo, mais experientes, que podem equilibrar bem a equipe. Hoje temos uma boa safra de jogadores e acho que o Brasil não vai ‘apenas’ incomodar no Mundial, mas vai brigar por um lugar no pódio. Eu aposto e acredito muito nessa garotada.

Fale um pouco da Cristina, esposa, mãe, companheira e amiga.

É a mulher que eu amo. Ela é isso tudo, minha esposa, mãe dos meus filhos, minha companheira, minha parceira, minha amiga, e muito mais. A Cris é uma pessoa que está e sempre esteve ao meu lado nos momentos bons e naqueles não tão bons.
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Como você define o jogador Oscar e o homem Oscar?

Acho que o Oscar jogador foi sempre um batalhador, um obstinado. Não fui o melhor, mas treinei para isso e acho que vou deixar alguma coisa boa dentro do esporte. Já sobre o homem Oscar... Tentei ser o melhor filho, irmão, pai e amigo que pude até hoje. Mais do que isso, acho que só a Cristina, minha esposa, é que pode dizer melhor sobre mim. Foi ela quem me agüentou todos esses anos, foi ela quem cuidou de mim, é ela a mãe dos meus filhos, foi ela quem casou comigo. Ela me conhece melhor do que eu.
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Uma mensagem para os jovens que estão iniciando no esporte.

Estudem e treinem bastante. Sem treino, você não chega a lugar algum. Sem estudo, você não é nada.