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19/01/2015 - Alzira Almeida do Amaral

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Há quase 50 anos, Alzira Almeida do Amaral é figurinha fácil nos jogos de basquete no Brasil. A carioca é uma pioneira na modalidade no país, pois foi a primeira mulher a se tornar árbitra de basquete no Brasil. A estreia ocorreu no dia 2 de maio de 1965, no Rio de Janeiro, no jogo entre o São Cristóvão FR e AA Vila Izabel. Porém, diante do forte machismo na época, ela acabou mudando de função no ano seguinte, tornando-se oficial de mesa. Hoje, aos 71 anos de idade, ela segue fazendo o que mais gosta, preenchendo súmulas, marcando pontos, cronometrando o tempo, entre outras funções.

O que representa para você ser a primeira árbitra de basquete no Brasil?

Era algo que eu queria muito. Concluí o curso e queria apitar jogos em todas as categorias. Mas, infelizmente, o basquete era muito machista naquela época. Foi complicado. Nem na mesa de oficiais tinha mulher. Apesar da novidade, passei a ser pouco escalada, era um jogo por mês. Então, tive de fazer uma opção. Para continuar no basquete, escolhi ser oficial de mesa.

O que você lembra daquele jogo no dia 2 de maio de 1965?

Tive meus 15 minutos de fama. Estava nervosa, pois o jogo passou a ser menos importante por conta da novidade de uma árbitra. Tinha televisão, jornal e rádio presentes. Todo mundo queria ver a minha estreia. E estreia é sempre complicada. Não tive problemas com jogadores ou técnicos, todos estavam imbuídos para que desse certo. Mas depois que a coisa diferente aconteceu, as pessoas esquecem e voltam suas atenções para outra coisa. A novidade não era mais novidade, passei a ser pouco escalada, então mudei para a mesa.
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Era muito machismo e preconceito? Tinha falta de respeito?

Falta de respeito não teve. Nem por parte dos jogadores, técnicos ou torcida no pouco tempo em que apitei. O problema é que eu passei a ser pouco escalada. Outro dia, num jogo local aqui no Rio, um árbitro faltou e me chamaram para apitar. Falei que estava de sapato e não teria como correr. Insistiram e fui assim mesmo.

E o que representa para você ter aberto as portas para as mulheres na arbitragem do basquete brasileiro?

Eu apitei somente por um ano. Meu maior orgulho não foi ter sido a primeira mulher, mas o fato de ter saído da quadra para ser oficial de mesa de terceira categoria e, em poucos meses, já conseguir trabalhar em Campeonato Brasileiro. Eu me orgulho dessa ascensão meteórica.

E como está atualmente? O machismo persiste?

Hoje está muito melhor. Temos árbitras de São Paulo e Minas Gerais apitando, chegando a ser internacionais (FIBA). Temos uma mulher (Dilma Rousseff) na Presidência da República, por que não vamos ter uma simples árbitra de basquete? Hoje em dia, a maioria das mulheres são mesárias. A Flávia Almeida é Coordenadora de Arbitragem do NBB.

Como foi a decisão para deixar a arbitragem e se tornar oficial de mesa?

Não foi uma decisão difícil. Foi só pegar o jeito. Quando você faz o curso para ser árbitra, aprende a ser mesária. A adaptação foi rápida e me dei bem na função. Por diversas vezes fui considerada a melhor oficial de mesa do Rio de Janeiro, ganhei troféus.

Antes de se tornar árbitra você chegou a ser jogadora de basquete, não?

Joguei pouco tempo no América. Mas vi que o esporte era muito bruto. Não queria levar porrada, não nasci para apanhar. Mas como sempre fui apaixonada por basquete, decidi fazer o curso de arbitragem para fazer da modalidade a minha profissão.
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Além de ser oficial de mesa, você tem alguma outra função atualmente?

Sim. Sou responsável pelo Departamento Técnico e de Arbitragem da Federação de Basquetebol do Estado do Rio de Janeiro (FBERJ).

Como é o seu relacionamento com os árbitros?

Hoje em dia não tenho mais atuado no NBB, somente em jogos locais no Rio. Mas é aquela coisa, né? Todo árbitro que ser sempre escalado, só que não tem jogo para todo mundo. Então, é preciso ter um jogo de cintura para administrar essa situação.

Você poderia citar os cinco melhores jogadores e as cinco melhores jogadoras que viu em sua carreira?

Difícil. Eu vi muita gente boa, vou acabar cometendo alguma injustiça. Tinha uma época que era tanta gente boa que fica complicado escolher.

Qual técnico deu mais trabalho?

Todos. Eles são legais até a bola ser levantada. Levantou a bola e não tem mais amizade. Eles reclamam de tudo, claro, pois querem ganhar.

O que você costuma fazer quando não está na quadra?

Dar uma volta na Lagoa Rodrigo de Freitas, andar de bicicleta, mergulhar na Praia do Arpoador. Moro no Humaitá (bairro da zona sul do Rio) e vou andando até o Arpoador. Chego lá, descanso e depois dou um mergulho naquela água maravilhosa.