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02/12/2014 - Bruno Cabloco

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“Eu jogo há oito anos no Toronto Raptors e nunca tive isso. Você jogou 12 minutos e já causou toda essa arruaça”. Assim o astro DeMar DeRozan brincou com o alvoroço no vestiário da equipe canadense da NBA, no dia 21 de novembro, quando o ala Bruno Caboclo estreou na liga americana. Com diversos jornalistas tentando entrevistar o brasileiro de 19 anos, DeRozan não conseguia chegar a seu armário, localizado ao lado do paulista. Caboclo teve o nome gritado pelos torcedores na vitória sobre o Milwaukee Bucks, no Air Canada Centre, em Toronto. Marcou oito pontos, sendo uma enterrada em ponte aérea e duas cestas de três. E ainda pegou um rebote e deu um toco. Escolhido pelos Raptors na 20ª posição da primeira rodada do Draft, Caboclo, de 2,06m, integra a lista de sete brasileiros selecionados entre os 30 primeiros jogadores. Além dele, tiveram essa honra Nenê, Tiago Splitter, Fab Melo, Leandrinho Barbosa, Rafael “Bábby” Araújo e seu companheiro de Toronto Lucas Bebê.

Como você avalia sua estreia na NBA?

Foi boa, mas poderia ter sido melhor. Estava um pouco travado, não estava à vontade na quadra devido ao emocional da situação.
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Foi a estreia que você esperava?

Foi sim. Jogo em casa, torcida a favor, ganhamos a partida. Todos os ingredientes para uma boa estreia.

Você falou em frio na barriga e sobre sua emoção em jogar. O que passou pela sua cabeça quando o técnico do Toronto te chamou? O que pensou naqueles segundos na beira da quadra antes de entrar?

Pensei, é agora. Só me concentrava para fazer tudo certo.

O que o técnico falou antes de você entrar na quadra?

Joga como você treina e vai com confiança.

Seu cartão de visitas foi logo uma cesta em ponte aérea. Qual foi a sensação após marcar seus dois primeiros pontos na NBA?

Quebrou o gelo. Daí em diante fiquei um pouco mais tranquilo.

Antes de você entrar, a torcida já pedia sua presença no jogo. Depois, você teve o nome gritado por todo o ginásio. Como foi para você ter o nome gritado pelos torcedores?

Eu já vinha sentindo este calor da torcida desde o início da pré-temporada, mas da forma com que eles se comportaram naquele momento, quando entrei no jogo, foi inesperado, incrível.
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Imagino que o assédio da imprensa, dos torcedores, tenha aumentado após a sua boa estreia. Como você tem lidado com isso?

Tranquilo. Não me deixo contaminar pela empolgação. Aprendi que é assim mesmo, tudo aqui é muito intenso. Continuo meu trabalho, no dia seguinte a batalha continua e tem novos desafios pela frente. O que você fez ontem já não é o suficiente amanhã. Vamos pra cima deles.

Como você encara a comparação que tem sido feita com o Kevin Durant? Estão te chamando de “Kevin Durant brasileiro”

O pessoal confunde, desde a primeira vez que alguém disse que eu era parecido com o KD. A minha semelhança com o KD é o físico e não o basquete. Seria muita pretensão minha me comparar ao KD. Quero muito chegar ao nível do basquete dele, mas agora não tem nada a ver esta comparação.

O que o torcedor brasileiro pode esperar do Bruno Caboclo na NBA? Quais seus sonhos na liga?

Pode esperar o espírito de luta, batalhador. Se trabalhar duro, o resultado vem. Primeiro, quero conquistar meu espaço no time dos Raptors e contribuir com o sucesso do time. Sonhos? São vários, mas prefiro colocar o pé no chão e subir um degrau por vez.

Você esperava essa ascensão tão rápida no basquete? De chegar à NBA tão novo?

O projeto inicial era estar pronto para o Draft de 2015. Fazia parte do projeto de desenvolvimento de jovens talentos do Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo, vinha me preparando para este momento. Por uma questão de oportunidade, o projeto foi antecipado em um ano. Agora faço parte de um projeto de desenvolvimento aqui nos Raptors.
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No Toronto, você tem como companheiro o também brasileiro Lucas Bebê. Como é a relação de vocês?

Tranquila. Tem sido um aprendizado para nós dois.

E a relação com os demais companheiros?

Posso dizer que todos me acolheram muito bem e percebo que todos têm mostrado bastante interesse em me ajudar. Agora que as viagens começaram temos mais tempo para conviver, trocar experiências. Isto tem sido muito interessante para mim.

Como é o seu dia a dia no Toronto? Quantas horas de treinos diários, muitas viagens?.

Temos três situações: dia de jogo, dia de viagem e dia de descanso. Normalmente treino três vezes por dia, manhã, tarde e noite. Em função dos treinos específicos, chego ao ginásio uma hora e meia antes que todos os outros jogadores e vou embora uma hora depois que termina o treino coletivo. Por não estar ainda jogando regularmente, minha rotina é diferente dos demais. Quando temos viagem ou jogo, naquele dia específico, a carga de treinamentos fica reduzida a dois períodos.

Você está estudando em Toronto? Como concilia os estudos com a temporada?

Estudo sim, inglês, com uma professora particular. Tenho uma carga horária de 15 horas mensais e acomodo as aulas nos períodos em que tenho um tempo livre. Às vezes, a professora me dá aula por Skype para otimizar o meu tempo.

Como tem enfrentado a barreira do idioma? Já está falando inglês?

Já me viro bem.
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E a sua adaptação a Toronto?

Tudo é adaptação. Dentro da quadra com o sistema de jogo e treinamentos. Fora da quadra desde a reeducação alimentar até os hábitos de descanso.

E alimentação? É tranquila ou tem enfrentado alguma dificuldade?

Super tranquila. Já descobri os restaurantes que eu gosto. Em Toronto tem várias opções. Não tenho dificuldade nenhuma em achar por perto um local com a comida que eu gosto.

Chegou a pegar dicas com o Leandrinho, que também jogou nos Raptors?

Quando ele estava conosco no Pinheiros, eu gostava de treinar com ele e contra ele. Tentava marcá-lo para aprender como ele fazia. Ele tinha uma intensidade diferente.

Em 2015, você espera ser convocado para a Seleção Brasileira? Já se imagina vestindo a camisa do Brasil? E Olimpíada, você sonha em disputar os Jogos do Rio, em 2016?

Olha, estou trabalhando muito para isso. A Seleção Brasileira não é somente um objetivo meu, mas um sonho também. Estou me preparando muito para este momento. Quando chegar a hora, espero estar pronto para defender o Brasil.
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Gostaria de deixar um recado para o torcedor brasileiro ou fazer algum agradecimento?

Gostaria de aproveitar a oportunidade para agradecer os clubes por onde passei, pois sem o trabalho das pessoas envolvidas e comprometidas com a formação de jogadores meu sonho nunca teria se realizado. Primeiramente ao Barueri que me iniciou no basquete e não deixou eu desistir no meio do caminho quando eu ainda era uma criança. Segundo, meu obrigado ao Esporte Clube Pinheiros que, por meio da sua equipe técnica, utilizou da sua estrutura para elaborar um projeto de desenvolvimento para mim, em que tive todas as ferramentas e oportunidades para participar de torneios importantes como o NBB, a Liga de Desenvolvimento, a Liga das Américas e o NBA Sem Fronteiras, resultando na exposição necessária para minha evolução como atleta profissional. Meu muito obrigado também ao meu empresário Eduardo Resende que soube trilhar o caminho para eu chegar onde hoje estou. Um especial obrigado à minha família, que sempre esteve ao meu lado e que tanto lutou para o meu sucesso. Espero sinceramente que outros jovens brasileiros também possam seguir o meu caminho. Acreditem no seu potencial e trabalhem arduamente. A recompensa um dia chega.