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10/04/2014 - Cristal Rocha, do 3x3

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Cristal Rocha é a segunda melhor jogadora no ranking nacional e a 18ª do mundo no Basquete 3x3, segundo o ranking da FIBA (Federação Internacional de Basquete), com 60.800 pontos. A armadora já perdeu as contas de quantos títulos conquistou no 3x3, calcula cerca de 20 troféus, mas o que não deixa dúvidas é sua referência nacional na modalidade. A paulista, de 32 anos, vive intensamente a modalidade desde sua chegada oficial ao país, há quatro anos, sem falar nas duas décadas de dedicação ao basquete de quadra. Cristal agora sonha mais alto. Ela quer defender o Brasil no 2º Campeonato Mundial +18 da Rússia, que será realizado de 5 a 8 de junho.
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Quando nasceu esse interesse pelo basquete?

Na verdade comecei no esporte com o vôlei e a natação, mas tinha uma quadra ao lado de onde eu jogava que as pessoas praticavam basquete. Esse foi o meu primeiro contato com a modalidade. Observava muito e vi que eram possíveis mais movimentações e jogadas, além de contato físico. Então, um dia fui treinar e não larguei mais.
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Você iniciou no basquete muito nova. Conte um pouco da sua trajetória.

Comecei no basquete aos nove anos de idade na cidade de Descalvados, interior de São Paulo. Meu técnico na época era o irmão da Maria Helena Cardoso, que acompanhava a carreira dela de perto. Depois, aos 12 anos, fui convidada para jogar em Americana (SP), fiquei lá até os 17 anos e tive a oportunidade de trabalhar com diversos técnicos. E foi quando consegui aprimorar o meu talento e o meu basquete melhorou muito. Joguei ainda em Barretos (SP) durante três anos, passei dois anos em Ourinhos e acabei em São Caetano, onde fiquei até terminar o juvenil. Quando fui para a categoria adulta, voltei para Ourinhos, mas só treinava porque a concorrência era grande e não teria chance de ter tempo de quadra. Então, recebi uma proposta de Santo André (SP) e fiquei por quatro anos. Disputei o Campeonato Paulista, mas quando ia começar o Campeonato Nacional sofri uma lesão no joelho e tive que operar. Por causa disso, voltei para São Paulo e iniciei a Faculdade de Educação Física em São Paulo, no Centro Universitário Sant'anna (UniSantanna), onde estudei com bolsa por conta do basquete. Nos quatro anos de faculdade, atuei nos Jogos Regionais e Abertos de São Paulo. Quando terminei os estudos, em 2010, conheci o basquete 3x3 que estava sendo apresentado nos Jogos Olímpicos da Juventude de Cingapura.
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Você saiu de casa muito cedo. Como foi essa adaptação?

Eu tinha 12 anos quando fui morar e jogar em Americana (SP). No início foi bastante difícil, pois nunca havia me distanciado dos meus pais. Mas com o tempo me adaptei bem, já que tinha uma meta e um pensamento traçado. Eu tinha saudades de casa e da família, mas nunca fui de sofrer com isso e não queria voltar. Eu tinha uma consciência do meu objetivo e isso também me fez amadurecer muito cedo. Sentia essa diferença inclusive na escola entre minhas colegas. Eu era mais centrada e não era tão boba, mas não deixava de ter os problemas naturais da idade.

Você teve bons professores no decorrer da sua carreira. Conte um pouco.

Tenho um carinho muito grande pelo meu primeiro tecnico, que foi o Rômulo em Americana (SP). Fui para lá muito criança, ele me criou como filha e me ajudou bastante. Joguei também com os melhores técnicos do Brasil como Wolmer [Bicalho], Borracha [Norberto José da Silva], Vendramini [Antonio Carlos], Paulo Bassul, Mila [Rondon] e Ferreto [Edson]. Foram todos grandes professores e muitíssimos importantes na minha formação como jogadora.
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Você é a 18ª do Ranking da FIBA e a 2ª do Brasil. Qual o segredo para chegar a esse resultado?

Sempre fui muito dedicada ao basquete. Desde que iniciei no 3x3, venho me envolvendo não só com a modalidade, mas com a divulgação dela. Eu juntamente com mais três jogadoras formamos o The Choice e estamos participando ao máximo dos jogos. Cheguei ao ponto de ser a única mulher em meio a 63 homens em uma dessas competições. Não deixo passar uma competição sem estar lá. Eu sempre me cobro bastante e acabo fazendo isso com a equipe.
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Como que você faz para colaborar nessa divulgação do 3x3?

Eu estou sempre pelos parques de São Paulo, seja no Ibirapuera ou no Villa Lobos, onde tem muita gente que joga basquete. Sempre chamo as crianças e os adultos para entender um pouco mais do 3x3. Convido também para entrar na minha página do Facebook, onde divulgo os jogos que estão acontecendo. O pessoal me chama de embaixadora do 3x3. O meu grande objetivo é que o basquete 3x3 cresça ainda mais no Brasil e consequentemente a nível mundial. Inclusive, por conta desse meu trabalho, fui convidada para homenagear o Oscar Schmidt, no Programa “Altas Horas” do Serginho Groisman na Rede Globo.
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E por que esse nome "The Choice"?

Eu e meu marido (Anderson Rocha) somos evangélicos e usamos o esporte como forma de evangelização, sem a obrigatoriedade de ler Bíblia ou seguir os preceitos da religião. Mas procuro passar que Deus está presente e é maior do que qualquer coisa. Eu queria algum nome que transmitisse o que sou. Eu sou evangélica, posso transmitir Deus pelas minhas ações. As meninas da equipe respeitam minha opção religiosa e muitas vezes vejo que elas entendem o que eu quero passar e sentem o que sinto. Até então usávamos um nome diferente cada vez que precisávamos, mas eu queria um significado para o nome, não simplesmente ter o nome. Um dia a Fernanda, que é uma menina da equipe, veio aqui e conversando falou: “porque não coloca The Choice, a escolha?!”. Aí ficou. Depois de termos pensado vários nomes, ficou. "The Choice", "A Escolha". Então para mim é como se fossemos a escolha de Deus.
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Como foi a adaptação no 3x3?

Eu ainda jogo basquete de quadra. Participo dos Jogos Regionais e Abertos, mas uso como uma preparação para o 3x3. Esse é o meu foco principal. Não tive problemas de adaptação, pois sempre tive uma boa leitura de jogo. Minha dificuldade sempre foi a altura e a força física porque também sou bastante magra. Mas uso a malicia, a técnica e a explosão para driblar essas dificuldades.

O que faz para manter a forma e o vigor físico?

Faço preparação com personal trainer, mas não gosto de treinar sozinha. Faço um trabalho no Instituto Vita que é voltado só para atletas de alto nível aqui em São Paulo. Lá faço trabalho físico e de fisioterapia. Além disso, não deixo de participar das competições.

Como você se define como jogadora?

Sou uma líder, mas de maneira tranquila. Tenho ótimas qualidades, como rapidez, um bom arremesso, e boa visão de quadra. Acho que a questão da liderança tem muito a ver com a posição de armadora. Uma vez o técnico Ferreto me disse: "Cristal, se você não jogar de armadora, você vai jogar de que com essa altura toda?". Nunca esqueci disso.

Você tem a chance de representar o Brasil no Mundial 3x3 da Rússia. Quais são suas expectativas?

Defender o Brasil com o basquete é o meu sonho desde criança. Hoje essa possibilidade está mais próxima de se tornar realidade. Confio muito em Deus e sei que se for para eu estar lá vai acontecer. Mas caso venha a ser convocada, seria uma honra representar o meu país e uma coroação da minha dedicação ao basquete, desde os nove anos. Quem não sonha em vestir a camisa do seu país?
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Você é casada. Como é a Cristal em família?

Sou casada há três anos com o Anderson. Assim como me dedico ao esporte, sempre me dedico a minha família. Meu marido é técnico de futebol em uma ONG para crianças carentes e juntos somos missionários e atletas de cristo. Nos momentos de lazer, faço coisas normais como ir ao shopping. Mas procuro sempre estar bem e com a vida equilibrada. Ainda não tenho filhos, mas tenho uma cachorrinha, a Jully, que tratamos como filha.

Você é personal trainer e Educadora Física. Porque escolheu essa profissão?

Eu sou educadora física, trabalho no SENAI com esportes, sou personal trainer e atleta. Mas escolhi a educação física por que sempre tive vontade de trabalhar com o alto rendimento e superação. Hoje trabalho mais com escola, que foca mais com esporte no sentido da qualidade de vida. Sou personal do Gustavo Bracco, que também é jogador do 3x3, e trabalhamos no alto rendimento. Ele quer estar bem fisicamente e conquistar resultados. Nunca tive o sonho de me tornar técnica, mas ainda espero trabalhar com a parte física.

Quem é seu ídolo no basquete?

Sempre me espelhei no exemplo do armador Chris Cole, que joga na NBA. Ele também não é muito alto, mas tem muita técnica e velocidade, o que supera qualquer altura.
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O que acha da modalidade 3x3 ser esporte olímpico?

Acho que existem muitas possibilidades de vir a ser uma modalidade olímpica. O esporte está crescendo muito, inclusive no Brasil, onde foi transmitido ao vivo em um canal aberto de TV. Mesmo que não faça parte em 2016, espero que entre como demonstração. Gostaria muito que isso acontecesse. Pela minha idade, não acredito que pudesse participar, mas seria bom para o basquete que está em ascensão crescer e dar uma alavancada.

O que representam as conquistas na sua vida?

As conquistas são resultados da superação, dedicação e concentração. Saber que existe algo superir a tudo isso. Acredito que há um único responsável por tudo isso, Deus. Ele é maravilhoso. Tenho 49 jogos disputados e se perdi três ou quatro vezes foi muito. Eu acredito que se você se dedica e tem objetivos maiores, você consegue atingir metas altas.