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14/02/2014 - Suzete Gobbi

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Nascida no interior de São Paulo, na cidade de Penápolis, a ex-ala da Seleção Brasileira, Suzete Pereira da Silva Gobbi, fez parte de uma geração importante para o desenvolvimento do basquete brasileiro. Mas há 17 anos, Suzete mantém seu foco voltado para a Escolinha Criarte, em Bauru (SP). Lá ela ensina meninos e meninas de 6 a 15 anos e usa o basquete para lições de socialização. Quando jogava em clubes e na seleção, Suzete já pensava em trabalhar com crianças na segunda fase de sua carreira. Achava que seria uma forma de repassar seu aprendizado de menina que saiu de casa aos 12 anos para virar atleta profissional. Durante 11 anos como capitã da Seleção Brasileira chegou a receber as então novatas Hortência e Magic Paula. A ex-jogadora representou o Brasil em quatro Campeonatos Mundiais (Colômbia - 1975, Coréia - 1979, Brasil - 1983 e União Soviética - 1986), dois Torneios Pré-Olímpicos (Bulgária - 1980 e Cuba - 1984), três Jogos Pan-Americanos (México - 1975, Porto Rico - 1979 e Venezuela - 1983), além de cinco Campeonatos Sul-Americanos (Bolívia - 1974, Peru - 1977, Bolívia - 1978, Peru - 1981 e Brasil - 1986). Aos 56 anos, hoje os treinos não são tão intensos, mas Suzete se mantém ativa disputando os Campeonatos Máster.

Como o basquete surgiu na sua vida?

Já faz tempo. Foi em Penápolis, cidade do interior de São Paulo que nasci. Comecei a praticar esporte por causa da minha irmã mais velha que jogava vôlei. Mas também participava de todas as brincadeiras de rua, com futebol, vôlei e basquete. Eu era uma moleca. Tenho cinco irmãs, mas era com os meninos da vizinhança que gostava de correr atrás da bola. Um dia no treino, peguei a bola de vôlei e joguei na cesta, aí o professor falou que era pra eu fazer o basquete também. Comecei a jogar nos Jogos Abertos e Regionais aos oito anos e fui jogadora revelação nos Jogos Regionais. Então, começaram a surgir os convites e recebi em minha casa a visita de uma comitiva de Bauru interessada em conversar com meu pai. Veio o Barbosa [Antônio Carlos], técnico do Bauru, e o meu técnico de vôlei. Aos 13 anos, fui para Bauru jogar as duas modalidades e fiquei assim por dois anos. Até que aos 14, fui jogar pela primeira vez na Seleção Paulista e na Brasileira. Então tive que deixar o vôlei, já que o basquete era o esporte que eu mais gostava.
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Conte um pouco da sua trajetória no basquete.

Cheguei em Bauru em janeiro de 1972 para ficar de vez. O Barbosa disse que teríamos no início do ano o Campeonato Juvenil, então depois do ano novo eu fui. Quando cheguei lá fui morar na casa do meu técnico de vôlei. Joguei o Campeonato Paulista e o Brasileiro de Base, onde fui revelação nas duas. Disputei os Jogos Abertos e os Regionais Adulto, com apenas 14 anos. Aí o Waldir Pagan, na época técnico da Seleção Brasileira, me convidou para o Festival Mundial de Basquete e novamente fui destaque. No ano seguinte, já fui convocada para o Sul-Americano Adulto, mas não pude ir porque ainda não tinha 15 anos, e era a idade mínima para jogar um adulto. Depois iniciaram os processos de renovação da seleção e tive o prazer de jogar com uma geração fantástica como Norminha, Delcy, Laís Elena, Marlene e Neuzinha, entre tantas outras. Era uma mistura bastante gostosa entre veteranas e novatas. Em 1976, com 17 anos, eu já era capitã da seleção que conquistou o título Sul-Americano da Bolívia. Foram 14 anos de Seleção e 11 deles como capitã. Em 1986, no Mundial da União Soviética, bati o recorde com quatro participações em Campeonatos Mundiais. Foi também minha despedida da seleção, aos 28 anos. Pelos clubes, joguei em Bauru e em Santo André, na Pirelli, por dois anos. Saí de lá para formar a Minercal junto com a Hortência, em Sorocaba. Depois formei o Cica-Divino, em Jundiaí, que depois virou Perdigão-Divino. Em 90, deixei o basquete, quatro anos depois de encerrar minha carreira na Seleção Brasileira.

Quando foi o ápice de sua carreira?

Em 1975, quando houve essa renovação total no basquete brasileiro. Entrei como capitã, foram chegando as meninas mais novas. Dali a pouco surgiram a Hortência, a Paula, a Marta, a mídia foi aparecendo e divulgando mais.
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Você saiu de casa muito jovem, com apenas 12 anos. Como foi esse processo em uma época que era difícil a independência feminina?

Eu acho que as coisas estavam escritas pra mim. Penápolis fica a 138km de Bauru, então meus pais tinham referências de amigos que estudavam lá. Eles também conheciam os dirigentes do Bauru e resolveram me deixar, já que todos diziam que eu tinha futuro. Essa foi a maior decisão da nossa vida. Minhas irmãs eram mais velhas e elas não podiam sair pra estudar fora da cidade, mas comigo foi diferente. Ele me perguntou se era isso que eu realmente queria. Fiquei três meses indo somente aos finais de semana e ficava já sentada no banco do time adulto. Senti que daria certo e que apesar da pouca idade teria minha independência financeira e poderia manter meu estudo.

A família apoiou? Como superou a ausência deles?

Foi muito complicado e difícil para mim. Na verdade, é até hoje. Não convivi muito com as minhas irmãs e isso abriu uma lacuna muito grande no nosso relacionamento. Não conseguia muitas vezes voltar pra casa nem no Natal. Mas conheci pessoas muito boas e que foram importantes para que eu conseguisse me manter longe da família. Eu acredito que quando a gente faz com amor, as portas se abrem e que as coisas acontecem com equilíbrio, às vezes se perde de um lado e se ganha de outro. Sou mais próxima da minha irmã mais nova porque quando ia passear em casa só ela estava lá. As outras já haviam casado e ido embora. Tentei ir atrás das outras, mas depois de tanto tempo é difícil recuperar o tempo perdido.
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Hoje seu maior foco é na Escolinha de Basquete Criarte que você mantém há quase 17 anos?

Meu sonho sempre foi trabalhar com crianças, o que eu era quando comecei a jogar dentro da escola. Então queria trabalhar isso de esporte mais educação. Meu sonho era passar isso para as crianças e já estamos colhendo bons frutos. Lá no Criarte, trabalho com educação física infantil, são crianças de 6 a 15 anos, e sou responsável pela escolinha de basquete, com 100 crianças em média. O objetivo da Criarte é a educação através do basquete. Usando a educação para fortalecer. Aproveito a escola para desenvolver o esporte dentro dela. E, com isso, desenvolver o lado educação mais o esporte e o social. Elas aprendem o basquete brincando.

Como é pra você comandar a meninada no aprendizado dos fundamentos do basquete?

É gratificante. O esporte é uma forma de agregar e ajudar a afastar as crianças de coisas ruins, como as drogas. O esporte ajuda também a dar equilíbrio na vida, a respeitar ao próximo e na convivência em grupo. Foi o caminho que eu escolhi e é uma ferramenta forte na vida deles. É um trabalho muito legal e sinto que nasci pra isso. Todas as equipes que joguei, enquanto atleta, eu fui capitã. Então acho que tenho essa sensibilidade de comando. Os pais me conhecem e tem credibilidade no nosso trabalho. Os pais entregam as crianças nas nossas mãos para realizarmos o trabalho com tranquilidade. Fazemos o melhor por eles, já pensando no futuro como cidadão.

Como foi o seu processo de aposentadoria do basquete profissional?

Quando você é atleta de esporte de alto rendimento, a cobrança também é muito alta. Mas fiz o melhor que pude como jogadora. Até hoje, o Barbosa é um que diz que deixei de jogar muito nova, mas me preparei pra isso e em março de 1990 parei. Na verdade, nessa época parei para realizar um sonho. Fui chamada para jogar nos Estados Unidos por duas equipes. Eu sempre tive o sonho de falar inglês, de ser fluente na língua e essa era a melhor oportunidade que apareceu nesse sentido. Mas quando estava indo, descobri que estava grávida e tive que desistir.
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Você veio de uma família grande com cinco irmãs, mas só teve um filho. Fale um pouquinho do seu filho.

Então, lá em casa tínhamos time de vôlei e basquete, com direito a reserva. Fiquei grávida com 32 anos e quis fazer o melhor para o Matheus. Hoje ele tem 21 anos, e joga basquete em uma Universidade nos Estados Unidos. Apesar da coincidência com o meu sonho, foi uma opção dele e eu nunca forcei nada. A cobrança é alta pra quem é filho de atleta, mas ele já está finalizando a faculdade lá.

O que o basquete te deu?

Me deu tudo. Sou a profissional e pessoa que sou, somente por causa do basquete. Meus amigos vieram através do basquete. Tenho grandes amigas de 20 e 30 anos atrás. E tudo veio pelo basquete. Meu trabalho dá certo por causa do basquete. Eu sou basquete e me dediquei a ele.

Mas você voltou a jogar e disputa o Campeonato Máster. A pontaria continua boa?

Já jogo há 13 anos. Fui pra o Máster através de uma amiga, pois nem sabia que existia esse tipo de competição. Na verdade é um grande encontro de basqueteiros que deu certo. Participei de Campeonatos Brasileiros no norte e nordeste, de Pan-Americano e até Mundial. Não dá para perder o vínculo com o basquete. A mira a gente não perde. Quando entro na quadra o espírito reconhece. As pessoas que vão jogar, tem como objetivo estar juntos se encontrar.

Como faz para manter a forma?

Frequento uma academia especial, onde os próprios jogadores do clube aqui frequentam com fisioterapeuta. Também treino e tenho uma boa alimentação e sou adepta da vida saudável. É um cuidado diário. Se não fizermos isso não aguentamos. Além disso, temos sucesso no trabalho porque demonstramos para as crianças como deve ser. As crianças constroem imagens e aprendem com os exemplos. O sucesso e o segredo da Escolinha são esses. Fazemos tudo juntos e ensinamos aos professores a seguirem o modelo.

Como é a Suzete em família?

Acho que os amigos também são nossa família. Saio bastante com os meus, frequento o clube e gosto de ir nos barzinhos para encontrá-los. Meu marido [César Gobbi], também é um grande companheiro e incentivador de tudo. É ele que me orienta na vida. Pra estar perto do Matheus, uso a internet, o que é uma dificuldade pra mim. Mas já fui algumas vezes visitá-lo nos Estados Unidos, e ele também vem quando está de férias.

Qual o programa preferido em família?

Viajar. A minha viagem já começa quando começo a arrumar a mala. Mas também gosto muito de ficar em casa ouvindo meus discos de vinil. Faço alguns aperitivos e chamo amigos para virem me acompanhar. Faço coleção do disco de vinil e tenho três aparelhos. Gosto de vários tipos de música, mas minhas preferidas são MPB e Bossa Nova.
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Você já escreveu um livro: “O ABC do Basquetebol com Suzete”. Pretende escrever outros?

Na verdade isso foi mais um compilado de muitas informações sobre tudo que faço na Escolinha Criarte. Escrevi pensando no professor de educação física que nunca teve experiência nesse tipo de atuação e que quer ensinar aos seus alunos. É muito fácil de ser seguido.

Quais são seus planos agora?

Voltei para o inglês. Esse sonho tinha ficado encostado por um tempo, mas agora resgatei ele e quero realizar. Sempre fui muito comunicativa e isso me atrapalhava em viagens para o exterior. Também estamos nos preparando porque iremos para os Estados Unidos, em julho, com as crianças da Criarte. Vamos participar do Camping da Nike, em Boston. Serão três semanas de muito inglês e de basquete, já que depois vamos para a Disney, antes de retornar ao Brasil.