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31/01/2014 - Jatyr Schall

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Uma história de glórias, conquistas e talento. Essa é a vida de Jatyr Eduardo Schall, de 75 anos. Em épocas de amadorismo, Jatyr formou-se em Direito antes de ser bicampeão mundial e hoje trabalha como sócio-diretor de uma empresa de administração de frotas de automóveis em São Paulo. Casado com Dona Thora, com quem teve três filhos e oito netos, o ex-jogador é considerado um dos melhores veteranos de sua faixa etária. Mas parece que o tempo não passou para Jatyr, que ainda se diverte jogando basquete. Com extrema precisão, sempre se destaca nos rachas nas quadras do Pinheiros, em São Paulo, e nos Campeonatos de Veteranos. Jatyr foi um dos heróis de importantes conquistas da história do basquete nacional: bicampeão mundial (Chile – 1959 e Brasil – 1963), bronze nos Jogos Olímpicos (Itália – 1960 e Japão – 1964), além de tricampeão sul-americano (Chile – 1958, Argentina – 1960 e Brasil – 1961). Não era titular, mas sempre entrou em jogos importantes, já que era um dos homens de confiança do técnico Togo Renan Soares, o Kanela.
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Conte um pouco dessa época de glórias do basquete brasileiro.

Era uma época bem diferente de hoje. O esporte amador era tratado de forma diferente pelos clubes. Hoje os atletas são profissionais e tem dedicação exclusiva. Naquela época, precisávamos estudar, trabalhar e alguns precisavam parar de jogar ainda jovens por não conseguir conciliar tudo. Com relação aos jogos, também eram diferentes pois enfrentávamos adversários dificílimos sem muita informação sobre eles. Tivemos chance de ganhar títulos em Campeonatos Mundiais, Olimpíadas, Sul-Americanos e Pan-Americanos. Infelizmente, o futebol conquistou muitos títulos na época também e, num país do futebol, o basquete ficou em segundo plano. Se não fosse isso a visibilidade teria sido ainda maior.

E a relação com a Seleção Brasileira?

Nós jogávamos basquete porque era o que amávamos fazer. Seja no clube, seleção e defendendo o estado ou o país. Pra nós disputar um Campeonato Nacional já era um acontecimento. Nessa época, as viagens mais longas que fazíamos era ir até o Rio de Janeiro ou Belo Horizonte de ônibus. Quando tivemos a chance de sermos convocados para defender a Seleção Brasileira passamos para outro patamar. Éramos a elite do basquete. Mas a nossa vontade era de jogar e ganhar. Sempre entrei na quadra para ganhar. Sempre penso em ganhar mesmo em um racha. Quando isso não acontece fico muito brabo.
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Hoje fazem 55 anos da conquista do 1º título Mundial. Quais as suas melhores lembranças?

A primeira coisa que vem a minha cabeça é a lembrança de jogar no Estádio Nacional no Chile em uma quadra aberta. Levávamos cobertor para o estádio, porque esfriava à noite. Depois íamos a Cantina do Pojo Dourado, onde jantávamos um franguinho. Também lembro da disputa contra a Rússia [Brasil 64 x 73 Rússia]. Podíamos ter vencido esse jogo, porque jogamos de igual para igual, mas em uma partida com a vantagem tão apertada, o árbitro fez a diferença. E claro, a final contra Chile em que já éramos campeões. Outra situação que é bem viva na minha lembrança foi a viajem que passamos no meio da Cordilheira dos Andes. Nosso avião era de hélice, então a altitude era mais baixa.

Como era a concentração na época? Havia o mesmo entrosamento que dentro de quadra?

No caminho do Hotel para o ginásio, íamos em uma peruazinha e era bem interessante, pois eles gostavam de cantar algumas músicas parodiadas. O clima era excelente, tínhamos um respeito muito grande hierárquico. O clima era de muita risada e descontração. Era algo muito gostoso. A gente chegava para o jogo já aquecido.
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Vocês mantém contato até hoje?

Éramos um grupo de amigos. A gente se reúne pelo menos uma vez por ano até hoje. Criamos a Associação dos Veteranos de Basquete (AVEBESP), que organiza anualmente um jantar com todos esses jogadores que ainda estão vivos. Aproveitamos para discutir basquete e reviver alguns momentos históricos.
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E como foi o bicampeonato mundial em 1963?

Nessa época, o time estava mais maduro. Foram quatro anos depois da primeira experiência. Já tínhamos ido aos Jogos Olímpicos de Roma [1960]. Era um time mais experiente. Mesmo assim, sempre viajamos sem saber muita informação dos adversários, sem a perspectiva de estudo e o que íamos enfrentar. E o treinador não tinha informações para criar jogadas e elementos contra times específicos. Mas o time era bom e isso era o que valia no final.

O que significou participar da conquista dos dois bronzes olímpicos (Itália – 1960 e Japão – 1964)?

Foi muita sorte e a equipe era boa. Pude colaborar na medida do possível para mais essa conquista do basquete brasileiro. Foram títulos importantes para o esporte nacional.
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Quando estavam concentrados ou em competição, como era feito o contato com a família, afinal era uma época que havia pouca tecnologia?

Era bem mais espaçada. Falávamos depois do jogo, no hotel. A gente ligava para saber das notícias, contar dos jogos. Muitas vezes, ficávamos bastante tempo sem contato. Mas meu pai me escrevia muitas cartas. Tenho elas guardadas até hoje. Ele contava sobre a repercussão das notícias que chegavam ao Brasil.

Você é formado em direito, jogou basquete e hoje trabalha em uma empresa. Como foi pra você esse processo de aposentadoria do basquete profissional?

Consegui me formar antes de 1963, quando tinha 22 anos. Mas acabei não seguindo carreira e só exerço a profissão na empresa. O que causou o meu abandono da seleção brasileira foi meu casamento e a gravidez da minha esposa. Eu vi que não poderia me dedicar mais como antes. No início, eu treinava de manhã na Universidade de Medicina, na parte da tarde íamos para o SESC, na Francisco Matarazzo, e de noite era o treino do Palmeiras (SP). Fazíamos sem obrigação. Quando me casei, fui convocado pelo técnico Renato Brito Cunha para os Jogos Olímpicos do México [1968], mas me achava velho e tinham meninos mais novos que precisavam jogar e ter oportunidade em uma seleção. Além disso, tive problemas de lesão no joelho e precisei fazer uma cirurgia. Quando parei defendia o Sírio (SP), mas depois voltei e joguei por mais um ano o Campeonato Paulista A1 pelo Paulistano (SP). Infelizmente, o pessoal da minha turma também não continuou jogando. Sinto muita falta dos companheiros daquela época. Aos 32 anos, comecei a me dedicar ao tênis, onde cheguei à segunda classe.
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Mas você continua ativo nos rachas do basquete e ainda disputa campeonatos de veteranos regularmente. Como faz para manter a forma?

Vou toda quarta, sábado e domingo para o Pinheiros (SP) disputar os rachas, onde todos são bem vindos. Jogam meninos de 18 anos e eu sou um dos mais velhos. Os dez primeiros que chegam já fecham uma partida. Também disputo os campeonatos de veteranos por faixas etárias, e atuo na categoria +55 anos e +65 anos. Essa é minha maneira também de me manter em forma e ainda acabar com o estresse dos pepinos diários do trabalho. Isso faz com que eu me mantenha em atividade e com fôlego extra.
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O que seus familiares acham de você continuar jogando?

Minha esposa [Dona Thora], só me viu jogar uma vez na vida, em 60 anos. Esse milagre aconteceu porque ela não podia ficar sozinha no hotel e foi obrigada a ir com a gente pro jogo. Claro, que ela não entendeu nada, mas nunca foi muito chegada, mas também não implica. O problema é quando preciso viajar, aí é briga em casa [risos].

Você é casado com Dona Thora, com quem teve três filhos e oito netos. Como é o Jatyr em família?

Sou espírita, e minha filha mais velha me disse que sou responsável pela parte espiritual da casa. Então procuro me manter equilibrado e tranquilo. Adoro meus netos por perto, mas eles estão em uma fase de internet e redes sociais. Fazem muita coisa ao mesmo tempo, e infelizmente nenhum quis jogar. Mas meu netinho de cinco anos, tem o gene da família. Ele adora bola, gosta de correr e até se arrisca com crianças mais velhas e acaba se destacando. Esse puxou a mim, meu pai que foi campeão de polo aquático e meu avô que também foi campeão, mas de ciclismo.
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Antes do embarque da delegação para os Jogos Olímpicos de Londres 2012, a CBB organizou um encontro dos jogadores da sua geração com os atletas atuais. Como foi essa reunião?

Foi muito legal. Tiramos fotos e acompanhamos um treino. Gostei da atividade e achei os jogadores com muito boa técnica. Houve receptividade deles em relação a nós e demonstramos carinho por eles. Nos olharam com uma certa curiosidade [risos], porque é uma geração antiga e ninguém sabe nada de nós, já que praticamente nada foi gravado. Foi um encontro muito produtivo. Gostaria que tivessem mais oportunidades assim.