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09/01/2014 - Edio José Alves, Secretário Geral da CBB

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Com 52 anos de serviços prestados ao basquete brasileiro, o Secretário Geral da Confederação Brasileira de Basketball (CBB), Édio José Alves, é um dos dirigentes mais antigos em atividade no mundo. Aos 81 anos, o Secretário, que entrou na Confederação em 1962 para participar e ajudar na organização do Campeonato Mundial Masculino de 1963, realizado no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, conta um pouco da história da entidade e lembra momentos marcantes do basquete.
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Quais os momentos de destaque nesses 52 anos na CBB?

Pra mim o momento mais marcante foi o Campeonato Mundial de 1963, no Rio de Janeiro, onde efetivamente participei trabalhando na organização e pude acompanhar de perto a conquista do bicampeonato mundial.

Como foi organizar o Mundial nessa época no Maracanãzinho?

A organização começou no Rio, na sede da Confederação, no Edifício Central, mas o espaço era muito pequeno. Então, foi necessário que o Bureau do Campeonato se instalasse em outro lugar. O local escolhido foi o Automóvel Clube, na Cinelândia, também no Centro da cidade, onde o Comitê ficou instalado, com todas as comissões trabalhavam no mesmo setor. Tínhamos uma equipe interna e externa trabalhando para o evento.
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Como foi esse processo de comunicação?

A organização foi muito difícil, pois não tinha os meios de comunicação que se tem hoje. Você tinha necessidade de passar horas imensas pra poder botar a logística em funcionamento. Só tínhamos o mimeógrafo, que funcionava com tinta, para imprimir todas as comunicações. E essa mecânica era feita com batedores que foram contratados para ir de motocicleta e bicicleta para dar andamento na organização.

Qual foi a contribuição das rádios para a divulgação do basquete junto ao grande público?

A comunicação toda era feita através das rádios. Os jogos e as comunicações eram feitas através de alto-falantes espalhados pela cidade. As rádios estavam permanentemente atuando nessa atividade. E tinham uma comissão própria para essa divulgação.
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Como foi adquirida a sede da CBB?

A Confederação já estava instalada em uma sala junto do Conselho Nacional de Desporto (CND), como eram várias outras Confederações. A CBB através de um programa da administração trouxe ao Brasil o Harlem Globetrotters para uma série de apresentações. Com a renda foram adquiridas as duas salas no Edifício Central. Evidentemente não deu para comprar nada à vista, mas foi o elo principal para o começo. Que eu tenha conhecimento, a CBB foi a primeira entidade de esporte no Brasil a ter sua sede própria, até o futebol tinha sede alugada na época.

Conte um pouco desse seu início de trajetória na CBB?

Efetivamente eu vim para trabalhar em uma transição. Fui convidado por um diretor, o Argentino Gentil Ribeiro, que trabalhava comigo no banco e me convidou pra ajudá-lo nessa transição e organizar a administração da entidade. Dessa forma, eu vim em junho de 1962 e fiquei até dezembro do mesmo ano. Fiquei uns dias afastado e em fevereiro fui chamado para trabalhar no Campeonato Mundial de 1963. Foi nessa época que o Brasil se candidatou e conquistou o direito de patrocinar o Mundial, uma vez que as Filipinas por questões políticas, não puderam realizar o evento. Fiquei trabalhando na Comissão Executiva, na parte administrativa. Esse trabalho era árduo e me obrigava a ficar até altas horas.
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O que aconteceu durante o Mundial que você foi demitido em um dia e recontratado no outro?

As equipes foram para as sedes fora do estado e eu fui designado para ficar de plantão, mas me rebelei contra isso porque disse que não havia necessidade, já que não tinha nenhuma atividade e que as equipes estavam todas fora. Disse que não poderia atender ao pedido. O Sr João de Souza Mello Junior, que era um dos membros da comissão executiva, me exonerou naquele momento. Eu fiquei muito chateado e fui embora. No dia seguinte, compareci na sede da Confederação para falar com o vice-presidente de finanças e receber o que tinha direito. O diretor tesoureiro quis saber por que eu tinha sido demitido. O senhor Paulo Martins Meira [presidente da CBB] estava presente no momento e sem eu pedir ele disse: "O senhor não precisa ir embora. Pode continuar trabalhando com as finanças". E eu fiquei na comissão de finanças o tempo todo do Campeonato. Quando terminou o Mundial fui convidado para continuar na Confederação. Por isso, estou até hoje aqui.

Você teve a oportunidade de trabalhar com seis dos sete presidentes que dirigiram a CBB. Conte um pouco dessa experiência.

As épocas tinham conotações completamente diferentes. Podemos dizer que éramos todos amadores. Os diretores eram em sua maioria militares, inclusive o presidente, o Almirante Paulo Martins Meira. Não tínhamos salário, nem horário de funcionamento. Mas a Confederação tinha a assistência sempre presente do presidente, que com suas relações conseguia todos os apoios necessários para desenvolver o basquetebol. O que foi feito e acabamos conquistando o bicampeonato mundial. Mas não dá para comparar os presidentes, pois as épocas eram muito diferentes.
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Quais os jogos que mais te emocionaram?

Os jogos que mais me emocionaram foram os do passado. Eu tinha uma comunicação maior com as seleções e acompanhava alguns treinamentos. Os Jogos Olímpicos de 1948 foram muito marcantes. Eu ainda não estava na CBB, mas escutávamos os jogos nas ruas e muito comentava-se sobre um baixinho, o nosso armador Ruy de Freitas. Também lembro muito dos jogos do Mundial masculino de 1963 e do feminino de 1971. Os de 63 me marcaram pela proximidade comigo, pois foi meu primeiro grande evento na entidade. Os de 71 tiveram momentos bastante emocionantes como a bola nos minutos finais da pivô Nilza Garcia, no jogo contra o Japão [77 a 76], que deu a medalha de bronze para o Brasil.
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E os jogadores que mais chamaram sua atenção nesses 52 anos?

Wlamir Marques, Ubiratan Maciel e Amaury Pasos. Essa foi uma geração muito boa, que foi campeã mundial. Também tive a oportunidade de ver várias gerações crescerem no basquetebol, não só no masculino como no feminino. Tive o prazer de acompanhar toda evolução de jogadoras como Hortência Marcari, Magic Paula, Martha Sobral, entre outras atletas que estiveram nas conquistas do Mundial da Austrália [1994] e dos Jogos Pan-Americanos de Cuba [1991]. Tive o prazer imenso de acompanhar todas essas atletas e outros como Oscar Schmidt que hoje não atua mais, mas que acompanho sua carreira desde que começou no basquetebol.

Você é um dos dirigentes mais antigos em atividade no mundo. O que significa isso pra você?

Mereço uma coroa de flores [disse entre risos]. Pra mim é uma alegria e um prazer estar nessa atividade. Sempre gostei de estar aqui na Confederação. Inclusive passei minha vida toda dentro da Confederação. Em poucas oportunidades ou em quase nenhuma tirei férias, mas também não conheci muitos lugares com o basquete. Conheci apenas três países viajando com a seleção (Uruguai, Argentina e Espanha).
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Podemos dizer que o basquete é sua vida?

Com o basquete consegui formar toda a minha família. Meus três filhos estão formados e em atividade. E eu devo muito ao basquete e a Confederação que tem me suportado por todos esses anos. Sim, o basquete é minha vida.

Você participou de 26 grandes eventos organizados pela CBB. Como foi isso?

Comecei como superintendente nas minhas primeiras atividades na Confederação. Administrava a parte de escritório da CBB. Era difícil, pois no início funcionávamos com três funcionários, além de alguns colaboradores de fora. Com certeza, esses eventos contaram com a participação de diversos e muito bons colaboradores que foram se agrupando. Hoje temos em média quase 30 funcionários na CBB.
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Conte um pouco da sua rotina como Secretário Geral.

Havia uma época que o Secretário Geral fazia parte de todas as atividades administrativa e financeira, além de suporte ao departamento técnico. Com o decorrer do tempo, as atividades ficaram mais especializadas e agora cuido mais da correspondência e comunicados nacionais e internacionais entre CBB, federações, FIBA e FIBA Américas. De acordo com Estatuto, também assino pelo presidente todos os documentos e atividades financeiras.

Muita gente só conhece você pela assinatura em documentos e notas oficiais. Então conte quem é Edio Alves?

Eu sou Basquetebol na acepção da palavra. Todo momento que eu posso assistir uma partida estou presente. Evidentemente que o basquete está bastante distante da minha área de atividade nesse momento. Mas eu estou sempre em atividade em casa e procuro o basquete como a melhor distração e lazer que qualquer outro esporte.
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Você participou de 51 aniversários da CBB. Esperava comemorar os 80 anos da Entidade em plena atividade?

Não esperava, porque não temos previsão de vida. A gente vai trabalhando, se dedicando, participando e o tempo é que foi somando para que eu atingisse todos esses anos em atividade. Eu considero um marco na minha vida.
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Já pensou alguma vez em aposentadoria?

Não tenho mais nenhuma pretensão fora das minhas atividades na CBB. Contei muito com o apoio da minha companheira e esposa Iacy Alves para ter permanecido todos esses anos aqui. Com o falecimento dela, em 2009, minhas expectativas mudaram e não tenho outra pretensão além de permanecer em atividade até que a minha saúde permita e que meus dirigentes me aceitem em atividade na Confederação em prol do basquete.