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28/05/2013 - Hélio Rubens Garcia

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O técnico Hélio Rubens de Garcia, de 72 anos, carrega 11 títulos nacionais em seu currículo e é o maior recordista da história do basquete brasileiro. Esse paulista de Franca iniciou sua carreira no Clube dos Bagres, em sua cidade natal e esteve presente em importantes conquistas defendendo o Brasil. Como jogador, foi vice-campeão do Mundial da Iugoslávia (1970), bronzes dos Mundiais das Filipinas (1978) e do Uruguai (1967) e ouro dos Jogos Pan-Americanos de Cali (1971). Como técnico da equipe nacional, Hélio comandou 96 partidas oficiais e conquistou o título dos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg (Canadá / 1999). Atualmente é o comandante do Unitri/Universo, de Uberlândia, que ria decidir o título do NBB com o Flamengo. Nessa entrevista, ele falou sobre sua vida no basquete, com a família e a satisfação de dirigir a equipe mineira.
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Você teve muitas conquistas como atleta e técnico pelos clubes e na Seleção Brasileira. Conte um pouco sobre isso.

Eu posso afirmar com clareza que isso tudo é fruto de um trabalho em grupo. Quando essa coletividade existe, quando as pessoas se motivam, isso tudo flui naturalmente. Há um ditado que diz: “qualquer que seja seu estado de espírito a motivação se induz e, através dela, você se equilibra emocionalmente”. Então, essas vitórias e esses títulos vieram através do segredo de acreditar e reagir. O trabalho basicamente é isso. O conceito de vida é o que dirige a vida. Quando existe essa filosofia isso pode ser incorporado no seu espírito, então é só colocar em prática.

Subir no pódio defendendo a Seleção Brasileira trouxe mais emoção como técnico ou como jogador?

Cada um tem a sua importância individual. Seja qual for a conquista ela sempre será a mais importante de sua vida. É gostoso saber que você lutou por aquilo e conseguiu. Todos os títulos foram parte de um todo, e que eu fui apenas parte de um deles. Posso dizer que como jogador foi mais fácil subir ao pódio. Já como treinador, você tem passa por um desespero de não poder fazer nada. Mas o dirigente ele só orienta, aconselha e ensina. Nós não podemos mudar muita coisa. Isso faz com que seja mais difícil.

Aos 35 anos, jogando pela seleção, você foi considerado o melhor jogador de basquete do país. Quais fatores te levaram a isso?

A dedicação e o condicionamento físico. A palavra cansaço não existia para mim. Meus companheiros se espantavam comigo na hora dos treinos. Eu dormia cedo, me alimentava bem, nunca bebi e nunca fumei. A vida regrada te ajuda a manter uma boa forma física. Isso explica a vaga de capitão do time, explica todos esses títulos. Foi com essa benção que eu fui construindo a minha carreira. E foi com a prática que eu fui tendo mérito.
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Em campeonatos nacionais você soma 11 títulos. Como é ser o maior vencedor da história dos Campeonatos Brasileiros do país?

Eu recebo tudo com um agradecimento muito grande. Sei que não consegui isso sozinho. Eu tenho um orgulho enorme dessa personalidade coletiva que consagramos durante todas as competições. Todos os envolvidos recebem esse merecimento e isso é muito gratificante.

A família Garcia contribuiu muito para que a cidade de Franca se tornasse uma referência no esporte da bola laranja. Como é carregar os ensinamentos do seu pai, Francisco Garcia, o Cachoeira?

Isso foi uma missão a ser cumprida. Eu tive um privilégio de ter o meu pai como pai e professor. Sem dúvidas eu afirmo que foi a pessoa mais fundamental na minha vida como atleta. Aprendi a ser quem eu sou e consegui captar todos os ensinamentos que ele deixou como profissional. São peças fundamentais na nossa trajetória que não podem ser esquecidas nunca.
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Seu filho Helinho segue na carreira com a terceira geração, também jogando na posição de armador. Como foi ver seu filho trilhar a mesma paixão do esporte?

Me sinto um homem feliz por ver meu filho feliz, fazendo o que gosta. A inserção dele no basquete foi muito natural. Ele começou aos dez anos, indo ao ginásio comigo e acabou se apaixonando. Eu como pai e jogador tenho muito orgulho. Acredito que ele venha a ser um excelente técnico. Às vezes ele como jogador sente algumas coisas que eu como técnico não vejo. É importante saber lidar com essa troca.
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A sua família sempre esteve presente à sua trajetória.

Eu vejo isso como a parte mais importante da minha vida. Para todo lado que a gente olha vemos grupos. Então, sempre que precisei, eu olhava para o meu lado e via as pessoas que me amavam. Isso me dava uma força extrema dentro do meu trabalho. A companhia da minha família me ajudou a crescer e produzir.
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Você tem alguma crença? Como você aplica isso a sua vida?

Eu sigo a religião Espírita. Sempre fomos de uma família com muita fé e muitas filosofias. E pra mim, a influência no mundo espiritual é muito maior do que a gente imagina. Eu tenho as minhas orações e as uso em todos os momentos da minha vida. Mas acima de tudo, creio que através do pensamento descobrimos que tudo tem peso, cor e forma. Eu aplico isso a minha vida não só profissional como pessoal. Dentro do esporte, sei que o nosso poder pessoal está diretamente ligado a nossa força física. E essa é a beleza da vida, você reconhecer os seus problemas e você mesmo conseguir resolver.

Em quem você se espelhou para se tornar esse técnico consagrado?

Meu professor Pedroca e meu pai. Esse foi o meu primeiro treinador, ele era extremamente visionário. Ele tinha uns conceitos muito além para a época em que vivíamos. Ele antes de morrer dizia que era para eu não perder as raízes, para construir as raízes. Para sempre criar algo por amor e por sentimento. Ele possuía um idealismo muito bom como profissional. Eu captei muito bem isso tudo e me espelhei nele a vida toda. Uma vez ele disse que uma frase que se tornou inesquecível: “A repetição é a mãe da perfeição”. A avaliação dele sobre mim, também foi muito proveitosa. Ele pensava 50 anos na frente das pessoas daquela época. Com tudo isso, ele se tornou a pessoa mais importante em relação a aprendizado. Além dos meus pais que também foram peças fundamentais.
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Como você analisa a participação do Uberlândia no NBB 2012/13?

Nós conseguimos elaborar uma equipe, através de muito trabalho. Propusemos metas e objetivos a serem alcançados. Passamos a ter um relacionamento de cobrança avaliação e seriedade com o grupo. Mas nunca esquecendo o respeito e o profissionalismo. Estamos em busca de uma realização profissional, mas também passamos por momentos de discussões, contusões, debates e longos treinos. O apoio que damos um ao outro é essencial para essa estrutura do time. Nós sabemos que não somos imbatíveis, pois tivemos derrotas, mas o importante é nunca desistir. Avaliações constantes, reconhecer limitações, todo esse processo nos levará a um bom lugar. É daí que vem uma força de dentro e que nos leva a seguir o nosso caminho.

Você chega na final do NBB com 31 vitórias em 45 jogos. O que compõe uma equipe para chegar a tantos resultados positivos?

Para mim, a definição de uma equipe é aquela que não é composta por pessoas que mandam nem que obedecem. Mas sim por pessoas que se respeitam, que tenham o mesmo objetivo e que defendem seus pontos de vista com sabedoria. Quando você consegue aglomerar esse grupo, é natural que forme um grupo positivo. É como eu vejo o Uberlândia. De repente você vê aquele grupo formado, e é ali que você ganha força para enfrentar o trator que vem pela frente.

Quais são as suas expectativas para a final contra o Flamengo?

Eu acho que será um grande jogo. Mesmo com altos e baixos, os dois times tiveram méritos para disputar essa vaga. Em uma final normalmente há um equilíbrio, e eu sei que esse jogo será decido nas circunstâncias. A equipe que estiver mais concentrada vai levar o título de campeão do NBB.
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Onde deseja encerrar a sua carreira? Já pensa em aposentadoria?

Para falar a verdade eu não sei. A idade se define de acordo com que a gente sente, e não a que a gente tem. E eu não estou sentindo vontade de parar. Com o Uberlândia eu tenho mais um ano, então vou aproveitar esse período para encarar a renovação natural do ser humano.