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22/08/2012 - Júlio César Patrício

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Os Campeonatos Brasileiros de Base não revelam apenas atletas. No meio de tantas equipes e técnicos, Júlio César Patrício é a prova viva disso. O atual comandante da Seleção Brasileira Sub-18 Feminina apareceu nos brasileiros e nas Clínicas Técnicas, que são organizadas pela Confederação Brasileira de Basketball (CBB). Júlio realizou o seu maior sonho em 2008, ao vestir a camisa verde-amarela pela primeira vez, e hoje, aos 39 anos, acumula vitórias. Como assistente técnico esteve nos títulos Sul-Americanos Sub-17, em 2009, e Sub-15, em 2011; além da medalha de prata da Copa América Sub-18 em 2010; e no bronze do Mundial Sub-19 em 2011. Este ano, o treinador estreou à frente da Seleção Brasileira com o pé direito, na conquista do vice-campeonato na Copa América Sub-18, em Porto Rico.
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Qual a sua avaliação da Copa América Sub-18 Feminina?

Ficou evidente que foi uma competição bastante equilibrada, mesmo contra a seleção dos Estados Unidos. O Brasil realizou ótimas partidas, como a virada contra o Canadá, na estreia, e a disputa contra Porto Rico, as donas da casa. Foi bastante gratificante participar desse torneio que teve um nível acima da média.

Qual o caminho e estratégias que foram usados na conquista da medalha?

Viemos para cá de um 3º lugar no Sul-Americano, então precisávamos mudar se quiséssemos um resultado diferente. Mudamos algumas atletas e começamos a fazer um trabalho mais forte. Mudamos a cara da equipe e aplicamos a filosofia das seleções brasileiras. E graças a Deus o resultado foi muito bom.
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O que esperar dessa geração daqui para a frente?

Depois da Copa América, já começamos o trabalho para mudar a cabeça delas, no sentindo de que temos potencial de ganhar dos Estados Unidos. O primeiro quarto que fizemos contra as americanas foi a melhor parcial que fizemos em toda a competição. Infelizmente, chegou um ponto em que devido a mudanças no time, o rendimento caiu. Como as americanas possuem uma perfomance muito grande, aproveitaram. Mas essa geração tem tudo para surpreender e conquistar mais medalhas nas próximas competições internacionais. Acredito que temos todas as condições de brigar por um lugar no pódio do Mundial de 2013.

Visando o Mundial Sub-19, como será feito o monitoramento das atletas depois que finalizou a competição?

Agora as meninas voltam para seus clubes e começam a disputar as ligas nacionais e estaduais. Faremos um acompanhamento delas durante todo o período que não estão com a seleção. Também temos membros da comissão em todos os cantos, que vão nos passando as impressões pessoais, além das estatísticas. Para os técnicos, sempre solicitamos análise dos desempenhos individuais e passamos a nossa visão sobre o comportamento da jogadora na seleção. Além disso, algumas delas já terão a oportunidade de jogar na liga adulta nacional, o que facilita o acompanhamento.
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O que significa dirigir uma seleção brasileira para você?

Esse é um sonho que venho alimentando há 10 anos. Em 2008, tive a oportunidade de vestir pela primeira vez a camisa da seleção, como técnico convidado da Copa América Sub-18. Depois, em 2009, fui assistente do Tarallo pela primeira vez. E o mesmo se repetiu em 2010 e 2011, nesses dois últimos anos obtivemos ótimos resultados. O Tarallo é um técnico que assim como a CBB, sempre confiou no meu trabalho. Fico muito feliz que a minha estreia no comando de uma seleção tenha sido tão positiva.

Qual a sua filosofia de trabalho e quais as características das suas equipes?

A minha filosofia é a mesma de todas seleções brasileiras. Temos como característica sempre levar nossas equipes ao nível máximo de exigência e mostrar o comprometimento, não só para o Brasil, mas para todos que gostam e assistem basquete. Essa equipe é muito boa e todas corresponderam, se mostrando cem por cento comprometidas. Além disso, acreditaram e buscaram sempre a vitória. Um dos maiores adjetivos que definem os times que dirijo é serem guerreiras e lutarem a cada instante. Fico contente de ver que elas entenderam a mensagem e entraram muito focadas no torneio, sempre atrás do resultado positivo.
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Conte sobre sua formação no basquete.

Comecei como jogador amador, e quando tinha uns 18 anos, as coisas foram acontecendo naturalmente. Também tive grandes mestres para me espelhar. Fiz faculdade de educação física, e depois, quando fui para Jaraguá (SC), comecei a atuar mesmo na função de técnico. Em 2001, assumi o comando seleção catarinense, pela primeira vez nos Campeonatos Brasileiros de Base. Foi graças a esse trabalho desenvolvido pela CBB que tive a oportunidade de mostrar o meu trabalho. Nos últimos anos, em que estive à frente da equipe estadual, em três delas fomos para a final, além de termos dois bronzes. Além disso, participei das Clínicas Técnicas da CBB, que serviu para mim como um ponta pé inicial. Foi durante uma Clínica, que me convidaram para participar das comissões técnicas do Brasil.

Vê muita diferença entre trabalhar com a base e com o adulto?

Gosto de equipes de base. Minha vida toda me dediquei a base, mas cheguei a comandar aqui na minha cidade alguns projetos com times adultos. Mas meus olhos brilham quando trabalho com crianças. Dou aula em um polo na minha cidade [Jaraguá], para cerca de mil e quinhentas crianças. Temos um trabalho de base fantástico por lá. Acredito que vão gerar frutos para as seleções também.
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O que é preciso para formar bons jogadores no Brasil?

É preciso conversar diretamente com o nosso público alvo, que em sua maioria são as crianças de baixa renda. Felizmente, o basquete dá oportunidade e possui esse cunho social também. A primeira coisa é cobrar que estudem e tenham uma formação, pois assim já teríamos meio caminho andado para um futuro diferente. Vejo, hoje, atletas com dificuldade de entender situações e ter uma boa leitura de jogo. Acredito que o Brasil está prosperando da modalidade. Tivemos um furo nas gerações do basquete feminino. Mas essas três últimas que estão ai são muito boas e podem melhorar ainda mais.

Cite alguns momentos inesquecíveis da sua carreira.

Em 2008, quando pela primeira vez vesti a camisa da seleção. Tudo que sempre quis aconteceu. Como sou muito emotivo, eu chorei quando me olhei no espelho. A conquista da medalha de prata este ano, foi o ápice do que aprendi até agora, e não tem preço. Não me refiro, somente à conquista, mas a caminhada que fizemos para chegar neste ponto.

Tem alguma dica para os técnicos que estão começando agora?

A primeira coisa, que todos devem saber é que independente de onde você vem, todos tem a oportunidade de chegar no comando de uma equipe brasileira. Sou prova disso. Se você trabalha com amor e de forma séria, de alguma forma será recompensado. Nunca duvidei, mesmo sabendo das dificuldades. Nunca deixe de buscar conhecimento e nem pense que você sabe tudo. Tenha humildade, pois aquele técnico que você acha que sabe menos, pode ter algo de bom para passar. Além disso, é muito importante sonhar, mas é preciso correr atrás do sonho.