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10/06/2010 - Paulo Villas Bôas de Almeida

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Após 28 anos dedicados ao basquete como jogador, Paulo Villas Bôas agora integra o grupo de trabalho da Confederação Brasileira de Basketball (CBB). O ex-ala da seleção brasileira é o diretor do departamento de Relações Institucionais da CBB, atuando junto aos órgãos esportivos nacionais e internacionais. Nos dez anos em que defendeu a seleção brasileira adulta (1984 a 1994), Paulinho foi medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de Indianápolis (Estados Unidos – 1987), bicampeão sul-americano (Equador - 1989 e Brasil – 1993) e bicampeão do Pré-Olímpico das Américas (Brasil – 1984 e Uruguai – 1988), além de ficar em quinto lugar nos Jogos Olímpicos de Seul (Coréia - 1988) e Barcelona (Espanha – 92). Villas Bôas tem MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC / RJ e Gestão Esportiva pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COI) e iniciou sua carreira como dirigente esportivo há nove anos, como gerente do Departamento de Esportes de Alto Rendimento do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Após tantos anos jogando basquete, como é estar nos bastidores da sua modalidade?

Estou contente com a oportunidade. Os anos que fiquei no Comitê Olímpico Brasileiro foram muito importantes para a minha carreira. Adquiri conhecimento convivendo com vários dirigentes esportivos e trabalhando com diversas modalidades. Uma das coisas que me deixa satisfeito com a minha carreira como dirigente é que posso somar o trabalho no COB com o que estudei e com a experiência que tive como jogador para desenvolver a modalidade.
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Como será seu trabalho na CBB?

O objetivo é estreitar o relacionamento da CBB com a Federação Internacional de Basketball (FIBA), FIBA Américas, Associação de Basquetebol Sul-Americana (Abasu), Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Ministério dos Esportes e outras instituições esportivas. Além disso, uma das solicitações da diretoria da Confederação é que eu divida os conhecimentos que adquiri como atleta e como dirigente para os demais departamentos.

Ser dirigente esportivo estava nos seus planos quando você parou de jogar?

Sempre me preocupei com o que eu ia fazer quando parasse de jogar. Eu só tinha certeza de que não queria ser técnico. Estava cansado da rotina de treinos durante a semana e jogos aos sábados e domingos. Eu queria um emprego regular. Voltei a estudar, me especializei em administração e marketing esportivo e procurei oportunidades de trabalho nessa área. Passei por uma entrevista no Comitê Olímpico Brasileiro e, depois de três meses, fui chamado para trabalhar. Foi quando aprovaram a lei Agnelo Piva e o COB passou a ter um recurso regular. Eu fui um dos primeiros funcionários a ser contratado nessa nova fase e passei por todo o processo de reestruturação, o que foi muito interessante para mim.
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Fale um pouco sobre o seu trabalho no COB.

Eu era um dos gerentes do Departamento de Esportes de Alto Rendimento. Quando comecei em 2002, fiquei responsável por 15 Confederações. O COB foi crescendo, contratando mais profissionais e, no último ano, eu cuidava apenas de quatro modalidades. O trabalho consistia em dar suporte ao planejamento, monitoramento, avaliação, enfim ser um facilitador para as Confederações. E tinha outras funções também como cuidar da parte técnica dos jogos multidisciplinares (Jogos Olímpicos, Pan-Americanos, Sul-Americanos e Jogos da Lusofonia) durante o ciclo olímpico. Eu verificava questões como credenciamento, regulamentos, realização dos jogos, aclimatação e preparação da equipe, além de fazer as visitas precursoras para ver as condições de participação do Brasil. E ainda dava suporte técnico ao programa de Solidariedade Olímpica.

Como você vê a participação de ex-atletas nas instituições esportivas?

Os ex-atletas sabem como funciona todo o sistema, como é participar de Sul-Americano, Pan-Americano e Olimpíada. Sabemos a logística de jogos e viagens e das necessidades da equipe. O esporte também nos ensina a ter disciplina, a trabalhar em equipe e, quando viramos dirigentes, transferimos essa vivência para a nova etapa da carreira esportiva. Mas não é só isso. Como passamos a lidar com orçamento, planejamento, entre outros, a base acadêmica é fundamental para atuar na área. É importante que as entidades esportivas aproveitem a experiência e o conhecimento de ex-atletas e ex-técnicos. O Comitê Olímpico Internacional (COI) já faz isso e o COB está seguindo o exemplo. Hoje, o Comitê Olímpico Brasileiro conta com 14 ex-atletas olímpicos e pan-americanos, todos com formação acadêmica e domínio de algum idioma estrangeiro.

O que você acha do basquete atual?

O basquete está bem diferente do que era na minha época. Os jogadores mudaram, assim como as táticas de jogo. A abertura da NBA transformou muito o basquete internacional e vice-versa. Antes os países eram mais fechados e era difícil de conseguir experiência no exterior. O jogo de basquete está muito mais rápido, mais dinâmico e físico. Quando comecei, com oito anos, os times adultos treinavam três vezes por semana à noite e jogava nos fins de semana. Os atletas estudavam, trabalhavam. Era bem amador. Hoje os times treinam duas vezes por dia, jogam muito mais e conseguem viver do esporte. As coisas estão muito mais avançadas, principalmente na parte de preparação física e médica. Antigamente, quando os jogadores ficavam parados por seis meses por lesão, enquanto atualmente não se fica mais de um mês longe das quadras. A comparação é difícil, mas a gente vê que tem uma evolução muito grande.
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E administrativamente?

Gosto do momento atual. Acho que teve uma transformação rápida em um ano de nova gestão. Mudança é saudável e normal. Isso acontece em todas as modalidades. Cada presidente coloca em prática a sua filosofia, o que acha que é certo, junto ao seu conselho consultivo e federações. O importante é que todos entenderam que a mudança era necessária. Todos estão apoiando a nova fase do basquete.

O que você acha de técnicos estrangeiros dirigindo as seleções brasileiras?

Acho o intercâmbio importante. Para ser técnico internacional é preciso estar muito bem preparado. No momento em que o basquete precisa de uma transformação rápida, acho válido contratar técnicos estrangeiros preparados, que já tenham experiência e resultados internacionais, que tenham o respeito da arbitragem e das outras equipes para buscar resultados positivos. Até a própria liderança perante os jogadores é importante, tanto no masculino como no feminino. Sou a favor neste momento especifico, mas passando o conhecimento do treinador estrangeiro para preparar os técnicos brasileiros.

Você sente falta de jogar? Ainda bate uma bolinha?

Ainda não bateu saudade. Em oito anos, acho que joguei umas duas ou três vezes, uma delas foi a despedida do Oscar. Mas uma coisa é interessante. Quando estou desanimado, de baixo-astral, eu vou para a quadra de basquete da academia que frequento para arremessar, fazer umas bandejas. Me faz muito bem ficar ali, sozinho, sem ninguém olhando, e me lembrar quem eu sou, de onde eu vim e tudo o que tive que lutar para chegar onde estou. E vejo que não devo me deixar abater.