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05/05/2010 - Guilherme Locatelli

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Há apenas seis meses como árbitro FIBA, Guilherme Locatelli foi escolhido para atuar em um campeonato mundial. O catarinense, de 28 anos, estará na Alemanha, de 2 a 11 de julho, para trabalhar no Campeonato Mundial Sub-17 Masculino. Locatelli entrou para o quadro de árbitros internacionais FIBA em novembro de 2009, quando foi aprovado na clínica de promoção realizada em Lima (Peru). A estreia fora do país aconteceu nos IX Jogos Sul-Americanos de Medellín, na Colômbia, em março. Apaixonado por basquete, Guilherme diz que sua carreira internacional está apenas começando. O árbitro, que também é engenheiro eletricista, pretende ir mais longe. As corridas, o futebol e a academia fazem parte da preparação do dedicado profissional rumo a novas conquistas.

Como começou a carreira?

Iniciei ainda criança no basquete jogando no Clube Doze de Agosto (SC). A arbitragem também apareceu muito cedo na minha vida. Apitei meus primeiros jogos com apenas 15 anos. Eram amistosos de categorias inferiores a minha, mas eram do time que eu jogava. Aos 17 anos já arbitrava jogos promovidos pela Prefeitura Municipal de Florianópolis e até algumas partidas adultas entre times da cidade. Mas como continuava atuando como jogador, a arbitragem ficou por muito tempo como um hobby. Em 2004, aos 23 anos, resolvi tornar oficial a carreira de árbitro e fiz o curso de formação de oficiais da Federação Catarinense de Basketball (FCB).

Resolveu mudar de lado por quê?

Minha família sempre insistiu bastante para eu estudar. Aos 18 anos, ingressei na faculdade de Engenharia. Logo depois veio o mestrado e ficou impossível conciliar a vida de estudante e atleta. Sempre procurei me dedicar muito a tudo que eu fazia, por isso resolvi escolher ser engenheiro. Mas como sempre convivi com arbitragem e amava o esporte, essa mudança de jogador para árbitro aconteceu de forma natural e positiva.
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Fale sobre sua prova para árbitro internacional, em 2009.

A experiência foi excelente. Entre os ministrantes da Clínica estavam o Diretor Esportivo da FIBA, Lubomir Kotleba, e o Diretor Técnico da FIBA Américas, Anibal Garcia. Ambos falaram sobre psicologia, filosofia e mecânica de arbitragem, contato físico, relação árbitro/treinador, interpretação das novas regras e preparo físico. Fiquei fascinado com as novas oportunidades que apareceriam para mim a partir daquela data.

O que representou para você esse novo passo na carreira?

Tornar-me árbitro internacional foi muito gratificante. Ver tudo que investimos ser reconhecido é uma sensação maravilhosa. Esse foi o primeiro passo de uma longa caminhada que pretendo trilhar nessa carreira. Acredito que meus próximos passos dependem de muita dedicação que terei na minha vida profissional e de empenho pessoal.

Você apita em jogos nacionais desde 2005. Como as competições nacionais te ajudaram a chegar ao nível internacional?

A arbitragem brasileira tem um nível técnico muito bom. Todos os árbitros que atuam aqui passam por preparo técnico e psicológico, em que aprendemos a lidar com a pressão de torcidas, técnicos e jogadores. Além disso, jogos muito disputados criam ambientes bastante difíceis de serem administrados, por isso precisamos estar preparados para eventuais problemas. Todos esses fatores contribuíram muito para minha formação como árbitro e foi significativo para eu ter alcançado a arbitragem internacional.
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E a experiência internacional?

Minha estreia como árbitro internacional foi em março deste ano, nos Jogos Sul-Americanos de Medellín, na Colômbia. Foi ótimo. São novos aprendizados, novos árbitros que conheci e com os quais pude interagir. Foi impressionante ver o ginásio lotado em todas as partidas, independente da seleção que estivesse jogando. Até agora foi minha única experiência internacional. Mas a próxima já esta marcada. Será o Mundial Sub-17 Masculino, que acontecerá na Alemanha, de 2 a 11 de julho. Pretendo cumprir meu papel com muita responsabilidade para ter muitas oportunidades ainda pela frente.

Qual a sua expectativa em relação a esse mundial?

Será uma competição muito importante e minha expectativa é a melhor possível. Lá também estarão o árbitro brasileiro Joaquins Feitosa e o instrutor FIBA Geraldo Fontana, dois profissionais de gabarito e que admiro. No momento, estou muito focado nesta preparação rumo ao mundial. Acredito que está é uma excelente oportunidade de me conhecerem e ainda mostrar para mais pessoas meu trabalho. Levo muito a sério minha carreira como árbitro e não foi fácil chegar até aqui. Exigiu muita dedicação. Pretendo, a partir de agora, participar de competições cada vez mais importantes. Quero apitar em mundiais adultos e olimpíadas, que são objetivos de qualquer árbitro.
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Qual sua opinião sobre qualidade da arbitragem brasileira?

Para mim a arbitragem brasileira é uma das melhores do mundo. Além de ser extremamente respeitada e valorizada em todos os países. Os árbitros brasileiros estão há vários ciclos olímpicos sendo vistos nas grandes competições e decisões mundiais, o que comprova o nosso valor.

Quais árbitros você admira?

Sempre procurei me espelhar em bons profissionais. Acredito que isto foi fundamental para o meu crescimento na carreira de árbitro. Mas nunca fiquei preso a uma só referência. Procuro observar o melhor de cada um para que eu possa aprender e, dando minha identidade, colocar em prática dentro das quadras. Mas não posso deixar de citar as pessoas que realmente admiro como Cristiano Maranho e Enaldo Batista de Souza, que se tornaram também meus amigos. Esses dois brilhantes árbitros são do meu estado, sempre me apoiaram, principalmente no início da minha carreira.

O que faz um bom árbitro?

Acredito que um bom árbitro tem uma série de características dentro e fora da quadra. Estes dois lados devem estar em perfeito equilíbrio. Concentração, condicionamento físico, técnica apurada, equilíbrio psicológico, além de experiência, fazem parte das qualidades de um árbitro de ponta. Acredito na humildade e na lealdade que devemos ter entre nós. Muitas vezes devido ao meio hostil em que vivemos, ter essas características são fundamentais para um bom árbitro. Um grande árbitro não é aquele que se destaca apenas por suas qualidades individuais, mas o que promove o crescimento de todos que estão ao seu redor.
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Assim como os atletas, os árbitros devem estar sempre bem fisicamente. Como é a sua rotina de treinamento?

Em período de competições nacionais, que fazemos viagens mais longas e duradouras, procuro me adaptar para não perder o pique. Normalmente corro em média uma hora por dia, duas vezes por semana. Além disso, jogo futebol, o que me ajuda no condicionamento aeróbico. Nas épocas do ano em que acontecem apenas os campeonatos regionais, consigo frequentar também a academia.

Como lidar com a pressão dentro de quadra?

Quando sou escalado para uma partida, me preparo psicologicamente para qualquer situação que possa acontecer em quadra. Vou para o jogo com várias estratégias traçadas em mente para possa evitar problemas. Todos os árbitros em todos os esportes sofrem pressões da parte da torcida e dos atletas. Então encaro isso como parte do jogo.
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Existe diferença entre arbitrar uma competição feminina ou masculina? Por quê?

Em minha opinião, sim, devido à diferença física entre os dois sexos. Estas características fazem com que todo o jogo seja moldado de forma diferente. As estratégias táticas das equipes e a parte técnica dos atletas, além de contatos e violações. Em geral, nos jogos masculinos, os contatos são mais claros e fortes do que nas partidas femininas, o que torna a interpretação mais fácil. Já os problemas disciplinares em jogos femininos são bem mais amenos que no masculino.

Como concilia a vida de engenheiro, professor universitário e árbitro?

Tento me desdobrar da maneira que posso, mas confesso não ser uma tarefa simples. Como estou finalizando meu doutorado, meus focos maiores são a pesquisa e a engenharia. Como estudar não é algo necessariamente presencial, consigo fazer isso em hotéis, aeroportos etc. Dessa maneira consigo levar a frente tanto a arbitragem quanto meu trabalho como pesquisador e engenheiro.

Quando não está apitando você assiste a um jogo de basquete?

Sempre que posso assisto a jogos de basquete, principalmente os realizados aqui no Brasil. Gosto de assistir aos brasileiros por que aprendo também. Procuro assistir às partidas estudando e acredito que esta análise ajude muito o meu crescimento.

De que maneira sua família influencia na carreira de árbitro?

Minha família sempre meu apoiou, mesmo no começo da carreira quando atuava somente em campeonatos regionais. Hoje acompanham mais de perto e começaram a gostar do esporte. Assistem a jogos até quando não estou atuando. Todos ao meu redor passaram a prestar um pouco mais de atenção nessa modalidade.
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E quais os seus objetivos para o futuro?

Como todo árbitro, tenho objetivos de atuar nas grandes competições internacionais. No entanto, sei que para atingir essas metas é preciso muita dedicação. Minha carreira internacional está apenas começando. Aprendi com minha família a almejar sempre o máximo, para que nunca pare de evoluir e aprender. Dessa maneira, mesmo que não se atinja os objetivos traçados, terei a certeza que fiz o melhor.