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19/10/2009 - Fabiana Pereira

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A partir de agora, uma nova árbitra estará apitando no cenário internacional. Fabiana Pereira (SP) foi aprovada na Clínica Internacional de Arbitragem da FIBA Américas, realizada em setembro, em São Paulo. Além de Fabiana, Andrezza Almeida (DF) e Jacob Barreto (SP) também entraram para o quadro da Federação Internacional de Basketball (FIBA), que agora conta com um total de 20 árbitros brasileiros. Fabiana conheceu o basquete graças a influência do pai, que era seu grande companheiro para assistir os jogos e o interesse pela arbitragem começou por acaso. O curso de arbitragem, que serviria apenas para agregar conhecimento, virou profissão séria para essa paulista de 29 anos. Além de árbitra, ela trabalha com iniciação esportiva e treinamento em basquete e ainda é triatleta. Fabiana começou a apitar profissionalmente em 2000, quando participou do Paulista Pré-mirim. As principais competições em que já atuou foram o Campeonato Paulista Adulto Masculino e Feminino, além dos Jogos Escolares.

Fale um pouco sobre a prova para árbitro internacional, realizada em São Paulo.

Foram abordados temas como psicologia, filosofia e mecânica de arbitragem, contato físico, relação árbitro/treinador, interpretação das novas regras e preparo físico. A clínica foi ministrada pelo Aníbal García, diretor técnico da FIBA Américas, e por Alejandro Amiconi, instrutor de árbitros da entidade. A prova foi no clube Espéria, em São Paulo, e lá também fizemos o teste físico e a prova teórica, além da entrevista com Anibal Garcia na etapa final. Durante os três dias que duraram a prova, apitamos alguns amistosos e fomos avaliados rigorosamente o tempo todo. Foi muito bom, mas ficamos desgastados. Além da pressão, tinha o lado emocional.

Qual a emoção de dar um passo tão importante na carreira?

É muito gratificante ver tudo que investimos sendo reconhecido, principalmente na parte emocional. Levo muito a sério a minha carreira como árbitra e não foi fácil chegar até aqui. Exigiu muita dedicação.

De que forma as competições nacionais te ajudaram a chegar ao nível internacional?

Todo jogo é bom. Sempre se soma alguma experiência, sem falar no intercâmbio com árbitros experientes. São degraus que subimos e sem eles não chegamos ao topo.

Como é o relacionamento entre o árbitro e os jogadores antes, durante e depois das partidas?

O relacionamento é sempre formal, com foco no trabalho, cada um dentro da sua função. Tento manter ao máximo o profissionalismo, mas é sempre um contato bastante tranquilo e harmonioso de ambas as partes.

Você sente muita diferença entre competições femininas e masculinas? Entre base e adulta?

Sempre existem diferenças. Entre base e adulta, por exemplo, a primeira são atletas que ainda estão em formação, então é mais calmo. Na outra o contato é mais forte, as violações são maiores. E entre feminina e masculina, de novo, o contato no masculino é mais forte que no feminino. As regras são iguais então é mais isso mesmo que diferencia. Os homens me respeitam, tem mais educação até se fosse um árbitro masculino.
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Quais os árbitros que mais admira?

São minhas primeiras referências. Não dá para eu falar em arbitragem sem falar em Geraldo Fontana e Tatiana Steigerwald, que foi minha professora no curso de árbitro, meu primeiro contato direto com a arbitragem. São duas pessoas extremamente competentes e um espelho pra mim.

E as principais características de um bom árbitro?

O componente físico é importante, mas não é fundamental. Acredito que o controle emocional para tomar decisões em frente a situações adversas seja mais importante que físico. Um bom árbitro não pode perder o foco nem a concentração.

Como lidar com a pressão dentro de quadra?

De certa forma mantenho um pouco a frieza. Procuro tomar decisões baseadas na situação e na razão, nunca na emoção.

O que você mais gosta num jogo? E o que não gosta?

Adoro o jogo em si, o espetáculo que é. É apaixonante e bonito o poder de mobilização do esporte nas pessoas. O ambiente de competição me atrai e me dá muito prazer. Não gosto nenhum pouco de situações de indisciplina, falta de educação. Isso não é interessante e não combina com esporte.

Qual a partida mais difícil que já apitou? Por quê?

Num contexto do todo, só posso dizer que foi meu primeiro jogo adulto masculino. A pressão da estreia aliada ao fato de ser mulher exigiu muita concentração, mas consegui me preparar bem e o resultado foi compensador.

Tem alguma regra difícil de aplicar na hora do jogo?

Acredito que qualquer infração seja difícil de aplicar. É muito ruim quando o árbitro precisa interromper a partida, independente da infração. Mas estou ali para isso e procuro avaliar da melhor maneira possível.

Como você vê a evolução da arbitragem brasileira no cenário nacional e internacional?

Em relação à arbitragem nacional, o que deve ser destacado é o trabalho desenvolvido pela CBB em conjunto com o Geraldo Fontana atrás de novos talentos para a arbitragem brasileira. Temos todo um suporte. Por exemplo, sempre depois que apitamos um jogo, fazemos todo o estudo da partida, assistindo ao jogo em DVD, que recebemos no final de cada disputa. Discutir e analisar o que foi feito é importante para melhorar a qualidade dos próximos jogos. O quadro de árbitros internacionais brasileiros também possui grandes representantes, como Carlos Renato dos Santos, Cristiano Maranho, Fátima Aparecida, Tatiana Steigerwald, são árbitros de muito conhecimento e experiência. Isso só aumenta a responsabilidade de procurar cada vez mais a qualificação e tentar chegar quase a perfeição.

E os seus objetivos para o futuro?

Chegar a arbitra internacional foi o primeiro passo. Espero participar de competições internacionais e obter êxito, pois a arbitragem brasileira é bem conceituada no cenário mundial. Por isso, minha preparação é constante. Mas tenho muito trabalho pela frente ainda. A idéia agora é ter boas atuações, evoluir sempre e chegar a apitar as melhores competições.

Quando não está apitando, você senta e assiste a um jogo de basquete?

Na verdade assisto, mas ultimamente tem sido mais para assistir meus colegas de profissão e estudar as atuações. Sempre tive o hábito de assistir as fases finais, tanto no feminino quanto no masculino. Hoje em dia está mais difícil conseguir fazer isso, mas sempre que dá vou para aprender.

O que faz no dia-a-dia? Em que trabalha?

Eu tenho uma jornada tripla e que são bem difíceis de conciliar. Trabalho com iniciação esportiva e treinamento em basquete e ainda sou triatleta. Não sobra tempo para nada. No triatlhon preciso fazer treinos diários de ciclismo, natação e corrida. É muita coisa, mas adoro a adrenalina.

Mas com tudo isso dá tempo de passear, namorar? Você é muito vaidosa?

Sou solteira e brinco sempre dizendo que para ser árbitra é melhor que continue assim. No momento, estou muito focada na minha vida profissional e não tem dado muito tempo para outros programas que não sejam os profissionais. Sou vaidosa, mas muito tranqüila. Me cuido bastante e procuro sempre estar com uma boa apresentação.

Você tinha o objetivo de ser árbitra ou aconteceu por acaso?

Foi bem por acaso. Um dia, em 1999, vi o cartaz falando do curso para árbitros no mural da faculdade e resolvi fazer para agregar conhecimento. Fiz educação física, bacharelado na USP, e achava mais interessante apitar do que jogar. Em 2000, comecei a apitar profissionalmente e nunca mais parei.

Qual a rotina dos árbitros durante a competição?

É uma rotina bastante desgastante. O principal é dormir bem e ter uma alimentação saudável e regulada. Mas até isso é difícil, pois viajamos muito e os horários são incertos. É fundamental termos a vida pessoal sempre equilibrada com a profissional para conseguirmos desempenhar uma boa atuação.

De que maneira sua família influencia na carreira de árbitro?

Sempre tive muito apoio da minha família em tudo que quis fazer. Toda minha influência esportiva veio do meu pai. Ele adorava esporte e sempre me levava com ele. Éramos muito companheiros. Perdi meu pai quando tinha cerca de seis meses de arbitragem e ele sempre me acompanhava. Foi bem difícil, mas com certeza ele desempenhou um papel fundamental na minha profissão.