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03/09/2009 - Kelly da Silva Santos

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Kelly da Silva Santos é um dos principais nomes do garrafão brasileiro. Com 1,92m de altura, a pivô sempre deixa sua marca nas competições internacionais. Com um gancho inconfundível, a jogadora já defendeu o Brasil em três Olimpíadas, conquistando a medalha de bronze em Sydney (2000). A Copa América / Pré-Mundial de Cuiabá, que será realizada de 23 a 27 deste mês, marca o início de mais um ciclo olímpico. O treinamento para a competição é forte, exige dedicação e persistência, características da paulista de 29 anos. Bicampeã do torneio continental (1997/2001), Kelly quer mais um título para sua coleção. Com a experiência adquirida em 13 anos de seleção e nas temporadas no basquete europeu e da WNBA, o garrafão brasileiro estará em boas mãos.

Como foi a temporada 2009 nos clubes?

Comecei na Espanha, no Cadi La Seu D’Urgell. Tive um bom desempenho na Liga Espanhola, inclusive estava entre as cestinhas da competição. Recebi uma proposta do Cesis, da Letônia, e resolvi ir jogar por um tempo lá. Foi uma experiência boa. Ganhamos o Campeonato Nacional e classificamos para a próxima edição da Euroliga. Foi muito bom para mim. A mudança me favoreceu bastante. Depois fui para o Equador, onde defendi o UTE. Fui campeã equatoriana e vice na Liga Sul-Americana de Clubes. Perdemos a final para o time de Ourinhos, o que era compreensível uma vez que a estrutura do basquete no país ainda está em crescimento.
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Você está se sentindo bem fisicamente?

Estou me sentindo muito bem. O trabalho na seleção é sempre completo, com musculação, treino pesado em quadra. Não tem moleza e estou conseguindo acompanhar bem o ritmo forte de treinamento. Agora também contamos com alguns exercícios de pilates, que tem ajudado bastante a fortalecer o abdômen e a lombar. Além da nutricionista, que me passou um plano alimentar que fez com que o meu percentual de gordura diminuísse bastante.

E tecnicamente?

Estou bem a vontade com o grupo, tanto as jogadoras como comissão técnica. Semana passada senti um cansaço, mas já me recuperei e estou a todo vapor. Estou com bastante liberdade para jogar e isso ajuda muito porque posso colocar o meu jogo individual a favor do time.

O que você achou da programação da equipe com treinos durante a semana e o fim de semana livre?

Estou achando muito válida a programação do jeito que está. É importante para nós, porque precisamos nos desconectar do basquete por algumas horas. Voltamos melhor, mais focada, com mais vontade ainda de arrebentar nos treinos. A gente desliga um pouco e já sente um pouco de falta da quadra. Isso faz com que a jogadora volte com mais determinação. Além disso, é sempre bom ficar perto da família e amigos, principalmente para quem mora no exterior e não tem essa oportunidade todo fim de semana.
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Você não cansa da rotina da seleção?

Para mim é um pouco mais difícil quando a semana é mais longa, ou seja, quando tem treino no sábado. Bate o cansaço físico e temos que recuperar mais rápido para não cair na monotonia. Mas quando se está treinando bem, é sempre gostoso. E eu estou treinando bem, o que faz a semana passar bem rápido. Nem sinto os dias correrem.

A Copa América está chegando. Como está sua expectativa para a competição?

Estou muito animada, ainda mais porque a competição será realizada no Brasil. A última vez que joguei no meu país foi no Mundial de 2006, em São Paulo. Não tem nada melhor do que contar com o apoio da nossa torcida. Acho importante a gente sediar torneios de alto nível como este para ver se as pessoas acordam para o basquete.

A estrutura médica da seleção agora conta com acompanhamento nutricional e ginecológico. O que você está achando dessas novidades?

É bem bacana. Acho que acertaram em cheio ao trazer essas duas profissionais para a equipe. Nos sentimos bem mais tranquila quando as coisas são feitas profissionalmente e pensando no nosso bem estar. Eu sempre fiz acompanhamento com nutricionista. É sempre bom contar com uma pessoa envolvida no esporte, que entenda as nossas necessidades. A Mirtes, nutricionista da seleção adulta feminina, me passou uma dieta que está me favorecendo. Com certeza, me sinto muito bem com a nova alimentação. A ginecologista é muito importante para a mulher. A parte hormonal afeta o nosso humor e desempenho, não só na quadra como na vida pessoal também. E a Tatiana, nossa ginecologista, procura o melhor remédio para cada uma, visando não alterar muito a parte hormonal. Acho que todo trabalho que é feito para ajudar no desempenho em quadra é valido.

O retorno da Helen e da Alessandra veio na hora certa?

A volta delas foi de extrema importância para a seleção brasileira. Desde o Mundial de 2006 até a Olimpíada de 2008, sete jogadoras encerraram a carreira na seleção. É um número alto de baixas num time, que faz muita diferença dentro e fora de quadra. A Helen e a Alessandra têm muita experiência e passam uma segurança muito grande para quem está jogando com elas. Se eu me sinto mais confiante com elas em quadra, imagina as mais novinhas, que estão chegando agora?
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O que está achando da estrutura de Barueri?

Estou adorando, nunca fui tão mimada. A gente chega e ganha flores, todo treino tem fruta, um biscoitinho, suco. Nunca tive um tratamento como esse. Realmente, o esquema profissional e cordial de Barueri está se superando. Tudo está sendo feito para que a gente se sinta em casa. O nosso bem–estar é prioridade aqui e isso nos deixa mais tranquilas. É muito bom ter alguém cuidando da gente.

Você acha que o grupo está chegando ao ponto ideal para encarar os adversários na Copa América?

O grupo está muito bem. Estamos treinando forte para chegar cem por cento na Copa América. Queremos a vaga e o título e vamos lutar por isso. Temos uma equipe formada por três gerações do basquete feminino. As mais velhas sempre procuram orientar e as mais novas se esforçam para permanecer no elenco. Todas as atletas estão muito focadas e com o objetivo de começar bem esse novo ciclo olímpico. Para mim é importantíssimo estar na seleção, treinando sempre no meu limite. Aqui eu encontro meninas que estão no meu nível e isso me ajuda a evoluir. É claro que tem a disputa pela posição, mas é uma disputa muito saudável.

Os amistosos contra equipes masculinas de categorias de base estão sendo válidos para a equipe?

A gente faz um esforço muito maior do que contra equipes femininas, já que os homens têm quarenta por cento a mais de capacidade que a mulher. Os meninos correm bastante, interceptam o passe com facilidade. E um treino de alto nível para nós, principalmente na parte física em que temos que buscar o nosso máximo. A briga no garrafão é mais difícil ainda. Eles são mais altos e fortes e, para driblar esse obstáculo, procuro maneiras diferentes de jogar, ampliando minhas opções de movimento em quadra.
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A seleção ainda vai enfrentar as equipes da Argentina e do Canadá. Será uma prévia do que vai acontecer na Copa América?

O time da Argentina não é muito alto, mas tem muita raça e determinação. Elas jogam rápido na transição, que é uma das características das argentinas. Contra a nossa equipe, no cinco contra cinco, elas perdem na estatura e no físico, então elas jogam sempre na velocidade. Parece que houve uma boa evolução no Canadá nos jogos que elas fizeram com Cuba. É um time que joga bem organizado, num estilo parecido com o das americanas. As pivôs são pouco experientes, mas são muito altas. Se as jogadoras da WNBA vierem, como a Sutton-Brown, o jogo será melhor ainda, tanto para o nosso treinamento como para o público que for assistir.

Você segue algum ritual antes dos jogos?

Faço algumas orações. Uma coisa bem particular, entre Deus e eu, nada de extraordinário. Não tenho essas coisas de entrar com o pé direito na quadra, usar o mesmo prendedor de cabelo. Não sou nem um pouco supersticiosa.

O que a seleção brasileira significa para você?

Uma das coisas mais importantes na minha vida é defender o Brasil. Enquanto eu tiver condições físicas para jogar pelo meu país, eu vou estar na quadra, vestida com o uniforme verde-amarelo.

Quando você pegou na bola de basquete pela primeira vez, você imaginava que ia chegar onde você está hoje?

Nem me passava pela cabeça. Eu comecei a jogar e em três anos consegui minha vaga na seleção brasileira juvenil. Aconteceu tão rápido que eu nem acreditava direito. Depois de mais quatro anos, eu ingressei na equipe adulta. Acho que a minha estatura, meu tipo físico e meu jogo forte me favoreceram. Foi bem difícil conseguir me manter nas seleções. Tinham várias jogadoras da minha idade ou mais velhas com muita qualidade técnica e física, mas felizmente consegui me destacar e me manter na seleção por esses anos. É sempre uma premiação ser convocada.
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O basquete transformou a sua vida?

O basquete é tudo na minha vida. Tudo o que eu e minha família temos, veio pelo basquete. Tenho estabilidade financeira, pude ajudar meus irmãos a se formarem, mas o importante mesmo foi a disciplina e os princípios que o esporte me deu. Por muitas vezes, deixei de sair com meus amigos em prol do basquete. E não me arrependo de nada. Valeu a pena abrir mão de algumas coisas. Hoje, eu vejo alguns conhecidos envolvidos com drogas e penso que se eles tivessem a paixão que eu sempre tive pelo basquete, a vida deles seria bem mais fácil.

E sua família, como se encaixa na sua vida de atleta?

Eu sou a mais nova e sempre fui muito mimada. Como eu moro sozinha na Europa, quando chego no Brasil, minha família me mima mais ainda. Eles acompanham tudo sobre basquete nos jornais, na TV, nos sites. Vão assistir aos amistosos que temos no Brasil. A família é muito importante para mim. Toda a minha força e dedicação vêm da minha família. Sempre quis poder dar uma boa estrutura para eles e esse objetivo me ajudou a superar muita coisa esses anos todos. Hoje eu estou tranquila, porque tenho todos estruturados. Meus irmãos são advogados e tudo que eu preciso, eles resolvem para mim. Minha irmã é professora de português e inglês e, se tenho alguma dúvida, recorro a ela. Hoje eles me retornam me dando suporte em tudo que eu preciso.