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23/06/2009 - Janeth Arcain

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Após 24 anos de dedicação e conquistas nas quadras do mundo inteiro, Janeth Arcain trocou a bola pela prancheta. A idéia de ser técnica já vinha amadurecendo na cabeça desde 2003, quando fundou o Instituto Janeth Arcain. Nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, cogitou a possibilidade de parar, mas esperou o momento certo. E a despedida veio em 2007 nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. Para encerrar a carreira, Janeth não podia escolher outro lugar que não fosse seu próprio país. A atleta fez questão de jogar sua última partida diante do melhor público que ela já teve: os brasileiros. A quadra e as cestas deram adeus a um dos grandes nomes da seleção brasileira, mas nem tudo são lágrimas. Dois anos depois, Janeth volta a vestir a camisa amarelinha para comandar a seleção sub-15 feminina no 16º Campeonato Sul-Americano e ser assistente técnica de Paulo Bassul na equipe principal, que vai disputar a Copa América / Pré-Mundial de Cuiabá, no mês setembro.

Como um dos grandes nomes da seleção feminina adulta, você nunca foi jogadora de ficar muito tempo no banco. Agora vai esquentar o banco os 40 minutos. Como vê esse novo desafio da carreira?

É até estranho, porque você fica ali na lateral da quadra, sabe que ainda pode levantar, mas tem hora que dá uma vontade de entrar na quadra e perguntar para o atleta se ele não está enxergando determinadas coisas. É diferente, é uma coisa que eu venho trabalhando a cada dia para aprender a melhor maneira da passar as instruções para os jovens. A gente vê, mas a questão é qual a forma ideal de fazer com que o jogador entenda o que você quer. Cada um tem uma percepção diferente e tenho que falar com cada menina de um jeito para elas captarem o que estou passando. E eu penso muito rápido e falo na mesma velocidade. E falar devagar é uma das coisas que preciso treinar. Além disso, tenho que acostumar a finalizar meus pensamentos. Às vezes eu começo e, como já sei o final, não termino o raciocínio. Acho que todo mundo está me acompanhado e na verdade ninguém está me entendendo. Mas estou me adaptando a tudo. Não vou dizer que é gostoso ficar no banco, porque não é, mas estou me acostumado com isso.
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Você estava acostumada a decidir os jogos na quadra, com passes e cestas. Como se sente agora tendo que decidir com pilot ou imãs e a prancheta?

Não gosto dos imãs não. Prefiro o pilot para escrever e apagar rápido, tentando mostrar a jogada de modo mais coerente. Mas antes da prancheta, a gente tem que mostrar dentro de quadra, tentar explicar, principalmente na movimentação ofensiva ou defensiva, onde é o buraco, onde é o atalho onde aquela jogada foi feita e por que e aonde ela vai fazer com que o atleta fique livre para finalizar. É isso que a gente tem que tentar passar para os jovens. Geralmente os jogadores conhecem e fazem tanto a movimentação, que depois de um tempo já visualizam com facilidade. Ano passado, quando eu estava com os meus atletas, eu pedia muito para que eles não só pensassem como visualizassem comigo a situação. E isso para que justamente na hora que eu falasse, eles já estivessem visualizando a jogada.

Qual a sua filosofia de trabalho da Janeth?

Quando eu parei de jogar, eu pensei: tenho que tentar adotar uma filosofia que juntasse um pouco de cada técnico que eu tive e aprender com isso. Uma das coisas é que eu sou muito positiva e não é todo mundo que é assim. Outra coisa é trabalhar o jogador de maneira a extrair o máximo dele. a parte técnica e tática, o objetivo é deixar os atletas bem soltos em quadra. Deixá-lo seguro das movimentações que ele deve fazer, seja um drible, um arremesso ou passar a bola pela frente, por trás, uma transição rápida ou saída de contra-ataque. Quero um jogo em que todos possam comandar, não só a armadora. Enfim, muita paciência para ensinar, ter competitividade, conversar bastante para amenizar a distância entre treinador e atleta. Quero dar liberdade para que me falem o que estão sentindo. E no jogo dentro de quadra, uma transição rápida, jogo livre e de equipe.
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Como acha que será o trabalho com o técnico Paulo Bassul na seleção adulta?

Acho que vai ser muito bacana. É uma outra experiência. A gente tem muita coisa para trocar. Com as meninas, a sensibilidade de saber como é ser jogadora para justamente diminuir essa distancia entre o treinador e as atletas. Eu fui uma atleta muito positiva. Como capitã na seleção, eu estava sempre disposta a ajudar nas situações difíceis pelas quais as companheiras estivavam passando e resolver o que fosse preciso dentro de quadra. E agora posso continuar a fazer a mesma coisa, claro que de uma maneira diferente, porque a posição é outra. Será um trabalho bom, com muito a ganhar e progredir.

Como chegou a decisão de parar de jogar?

Depois da minha última participação em Olimpíadas, que foi em Atentas (2004), eu já estava com pensamento em parar. Veio o Mundial do Brasil (2006) e os Jogos Pan-Americanos (2007). Duas competições no Brasil em que eu ia ter a oportunidade de jogar para o público brasileiro. Como sempre jogava fora e as pessoas quase não lembravam mais de ter me visto jogar no país, cheguei a conclusão de que seria o melhor momento para parar. Vou estar jogando no meu país, com os fãs ao meu lado, torcendo por mim. E a rotina vinha me deixando estressada também e já tinha outros planos. A idade também vinha chegando e depois que montei o Instituto Janeth Arcain, em 2003, estava planejando outras coisas. E esse foi mais um incentivo porque pensei comigo mesma, vou parar de jogar, começo a treinar as equipes do meu instituo já com o objetivo de me preparar para ser treinadora. Foi uma decisão certa e independente do resultado, eu queria que o público tivesse como última visão a Janeth jogando no país dela e se despedindo das quadras ao lado dos compatriotas.
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O que vem fazendo nesses quase dois anos que parou de jogar?

Estou na direção do Instituto Janeth Arcain e ainda faço palestras e clínicas voltadas para os jovens que estão iniciando a pratica do basquete. Por enquanto, nas palestras, eu falo da minha carreira, das minhas conquistas, todo o esforço que fiz para alcançar meus objetivos. Ainda não é voltada para o lado motivacional, mas pretendo chegar lá.

Antes mesmo de parar de jogar, você treinava algumas equipes do CFE Janeth Arcain. Há quanto tempo está atuando como técnica?

No Instituto eu sempre ficava no banco ao lado da comissão técnica nos jogos e participava dos treinos. Fiz isso em 2006 e 2007, até que assumi o comando mesmo em 2008. Este ano, alguns trabalhos foram surgindo, inclusive com o Comitê Olímpico Brasileiro, o que me impossibilita de fazer tudo ao mesmo tempo. E como tenho profissionais de alta qualidade trabalhando com as equipes no Instituto, fico com as minhas palestras, como embaixadora do Rio 2016 e me dedicando aos cargos de técnica da seleção sub-15 e assistente da adulta.

Você tem experiência de trabalhar com meninos e meninas de 15 anos. Como é treinar essa categoria e o que está achando de trabalhar com as jovens atletas na seleção?

Como eu trabalho com meninos lá no Instituto, sou até mais rígida lá do que estou sendo aqui na seleção. Geralmente as meninas amadurecem mais rápido, são mais calmas, mais disciplinadas. Os meninos, muitas vezes, só têm tamanho e exigem bastante controle.
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Quando jogava, tinha algum ritual antes de entrar em quadra?

E agora como técnica, faz alguma coisa? Eu sempre levanto da cama com o pé direito. Até hoje eu faço isso. Quando entrava na quadra, a mesma coisa. Sempre o pé direito primeiro. Como técnica, ainda não fiz nada. São situações diferentes. O que aconteceu comigo como atleta, ainda vai acontecer como técnica. Quem sabe eu não entro com o pé direito na quadra nos jogos deste Campeonato Sul-Americano, que marca a minha estreia em competições oficiais como técnica do Brasil. Mas acho que vai acabar aparecendo outra coisa.

Qual a influência da família na carreira?

Foi sempre muito positiva. Minha mãe me apoiou bastante. Tive amigos e técnicos que me ajudaram bastante. Minha professora que me levou para o basquete. Mas a minha família sempre esteve ao me lado, me dando força. Quando eu comecei, em 1983, o basquete ainda era visto como esporte para homem. Foi uma época difícil, mas minha mãe estava sempre me apoiando. Depois foi vindo o apoio dos técnicos e amigos.

Como é a Janeth fora das quadras?

Sou muito tranqüila. Fora da quadra, não fazia muita coisa relacionada ao basquete. Agora, como técnica, tenho que pensar na bola laranja quase 24 horas por dia. Gosto de navegar na internet, de tudo que é relacionado à computação. Mas é difícil entrar no computador para jogar joguinhos de basquete, essas coisas. Assisto aos jogos pela televisão, sempre gostei.
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Ainda bate uma bolinha?

Às vezes brinco com as meninas, arremessando a bola do meio da quadra. Mas fica nisso. Vontade de jogar é que não falta. De treinar não tenho saudade não, mas de jogar... Sinto falta da sensação que eu tinha quando fazia uma cesta, de quando a gente comemorava, da análise do jogo e do adversário durante a partida e, é claro, do público. Seja torcida contra, a favor. É lógico que quando torcem a seu favor é algo indescritível. Antes de vir para Santa Bárbara, assisti novamente à final do Pan-Americano do Rio, contra os Estados Unidos. Toda aquela torcida, a despedida, foi inesquecível.

O que você gosta de comer?

Gosto de bastante coisa como frango assado, massa, lasanha, salada de maionese. Não bebo refrigerante, só suco de frutas, não me importa o sabor, gosto de qualquer um. Não sou viciada em chocolate. Se tem ou não, para mim não faz diferença. Até gosto de comer doce, mas pouco. Outro dia tinha um mousse de maracujá de sobremesa e comi um pouquinho. Mas não sou fã numero um dessas coisas.

Você é organizada?

Bastante. Minhas roupas ficam todas arrumadas no armário. É claro que não separo por cor, mas fica tudo organizado. Meus tênis ficam guardados todos juntos, coisas normais. Não deixo roupa jogada pelos cômodos ou no chão. Meu escritório fica sempre arrumado, tudo bem guardadinho. Se eu precisar de uma nota fiscal de anos atrás, eu sei muito bem onde está.
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Qual o lugar mais estranho que o basquete já te levou?

A maioria era legal. No Mundial de 2002, que foi na China, nós fomos a lugares que só por Deus mesmo. Lembro de um que era muito estranho. Imagina o mercadão de São Paulo, onde tem tudo, uma grande feira fechada, e junta com aquelas comidas dos chineses, os cheiros todos misturados. Pois bem. O ginásio de treino era no final do mercado e nós tínhamos que andar do início ao fim para chegar á quadra. Realmente, foi uma das coisas mais estranhas que já me aconteceu.

Piores adversárias?

As cubanas sempre foram grandes rivais. Depois de um jogo contra Cuba, a gente sai toda roxa e arranhada. E elas ainda ficam falando no nosso ouvindo, provocando, implicando. Mas o Brasil aprendeu a jogar e a vencê-las. As européias também, principalmente a Rússia, eram muito difíceis. Parecia um muro, não dava para sair no corta-luz. E, claro, as americanas. Elas têm um jogo explosivo, muito rápido e uma qualidade técnica individual muito boa, que na hora do coletivo fica excepcional. Nos Estados Unidos, eles trabalham muito a técnica individual do atleta para ficar mais fácil depois coletivamente.
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O que significa ter quatro anéis da WNBA?

No começo teve um sentimento de excitação por ser a única sul-americana na competição e a 12ª estrangeira a ser escolhida. Toda vez que me lembro dessa fase da minha carreira, tenho a certeza que estava no lugar certo, na hora certa e com as pessoas certas. Isso é muito claro para mim quando me recordo dos anos que joguei na WNBA. Tive dificuldades no início, por conta do idioma, mas a cada treino que passava eu pensava: existe um porque de estar aqui e que se me chamaram é porque realmente eu tinha o meu valor. Eu tenho que olhar nos olhos dos americanos de igual para igual. Basquete é bola na cesta, isso é universal, e vou fazer o que mais sei fazer. Assim, fui conquistando o carinho do público de Houston e todo o ano vinha a proposta de renovação de contrato e começaram a vir os títulos. Também foi um período onde minha carreira foi colocada a prova. Joguei em posições que não jogava. Fui quatro, dois e um e fui campeã em todas essas posições. Foi um privilégio aprender a jogar nessas posições e me sinto lisonjeada por ter esses títulos. Afinal sou a única estrangeira a ser tetracampeã da WNBA.