Imprensa

23/04/2009 - Diego Maroja Falcão

img
Diego Maroja Falcão descobriu o basquete aos doze anos de idade, em João Pessoa (PB) como jogador. A curiosidade sobre a preparação física na modalidade levou o jovem paraibano a cursar Educação Física. A partir daí, dedicou sua vida acadêmica e profissional a mergulhar nos conhecimentos e descobertas da ciência do esporte. Aos 28 anos, Diego se orgulha de levar suas origens nordestinas para a comissão técnica brasileira, onde está desde 2008. O preparador físico integrou a seleção nos treinamentos das equipes de base e adulta e foi para o Sul-Americano Adulto Masculino, no Chile. Este ano, prepara a seleção sub-17 masculina para o Sul-Americano da categoria, em maio, no Uruguai. Diego trabalha também na equipe adulta masculina do Metodista/São Bernardo (SP) e no laboratório de fisiologia do exercício do CEFE-UNIFESP.

Fale um pouco sobre a sua formação acadêmica.

Conclui a graduação em Educação Física na minha querida João Pessoa (PB). Depois, fui para São Paulo e fiz minha pós-graduação em Fisiologia do Exercício no CEFE-UNIFESP, de onde recebi o convite para me tornar membro da equipe do laboratório de Fisiologia do Exercício do CEFE-UNIFESP, onde estou até hoje, colaborando no que posso tanto nos testes e avaliações de diversas modalidades desportivas, quanto no intrigante mundo da pesquisa científica.
img

Como surgiu seu interesse pelo basquete?

Aos 12 anos, treinava basquete e futebol, até que um dia tive que optar por uma única modalidade e escolhi o basquete. Joguei pela Paraíba e por Pernambuco, chegando a disputar alguns campeonatos brasileiros na categoria de base pela Paraíba. Isso contribuiu para que eu fosse me apaixonando cada vez mais por este jogo tão complexo. Porém, percebi que muitas das dúvidas que tinha relacionadas à preparação física eu não encontrava as respostas. Isso acabou aguçando minha curiosidade e, quando dei por mim, já havia abandonado as quadras e me dedicava intensamente aos mistérios da ciência do esporte no curso de Educação Física. Minha decisão de deixar João Pessoa deveu-se a minha necessidade de aumentar meus conhecimentos e São Paulo era o lugar perfeito para isso, pois possui instituições de ensino renomadas internacionalmente como UNIFESP e tradição em ter grandes equipes de basquete. Daí pra frente foi trabalhar bastante e buscar meu espaço.

E como começou a trabalhar com a modalidade?

Foi na Paraíba com uma equipe universitária. Já em São Paulo, tive a oportunidade de começar na base tanto com equipes masculinas quanto femininas no projeto da Janeth Arcain (2004/05). Depois, fiz uma consultoria para a equipe adulta masculina do Sport Recife (2006/07) e, já em 2007, fui convidado para ser o preparador físico do projeto que a Ulbra iniciou em São Bernardo do Campo. Quando a equipe mudou-se para Rio Claro (SP) em 2008, tive o prazer de seguir com o time. Atualmente, estou muito entusiasmado em participar no novo e promissor projeto da Metodista/São Bernardo do Campo (SP) para o Torneio Novo Milênio.

Quem te ajudou nesta vitoriosa trajetória?

Não posso perder a oportunidade de agradecer a todos os preparadores físicos que me ajudaram e contribuíram para meu desenvolvimento: Diego Jeleilate, João Nunes, Ytalo Motta, João Borin, Bruno Camargo, João Henrique e Rafael Fachina, além de todos os técnicos com quem trabalhei. Entre eles Adriano Lucena, Kátia de Araújo, Ivonete, Rita de Cássia, Claudio Mortari, José Alves Neto, Carlos Romano, Moncho Monsalve, Gustavo De Conti e Sidney Coppiny. Aprendi muito com eles em situações positivas e algumas negativas, mas sempre levando lições importantes e aumentando meus conhecimentos.
img

Existe uma diferença muito grande do trabalho com equipes adultas para a base?

Com certeza. Trabalhar na base e com os profissionais são coisas completamente diferentes. Na base, o pensamento gira em torno de ações pedagógicas, saber que estamos, antes de tudo, formando homens para vida e não apenas atletas, já que a maioria não irá viver do basquete. Priorizam-se os valores que o esporte ensina: socialização, respeito, hierarquia, entre outros. Já no profissional tudo isso é minimizado. Todos já têm sua formação definida, com as coisas positivas e também as negativas já fortemente enraizadas. Por outro lado, os aspectos diretamente relacionados ao rendimento ganham uma dimensão enorme.

E qual é a principal característica do treinamento nas equipes profissionais?

O treinamento de resultado passa a ser o foco. Muitos criticam o fato de que praticamente tem-se que matar um leão por jogo no profissional. De minha parte, isso não me preocupa. Prefiro pensar que isso é uma realidade estabelecida no esporte nacional e me adaptar. Pra isso, você tem que estar preparado para dar o treino sempre sabendo que todos os atletas vão lhe testar todos os dias e você tem que estar preparado, saber o porquê das coisas e qual é o objetivo do trabalho proposto. O atleta deve perceber que você é capaz de extrair o melhor dele com o seu conhecimento.

Você trabalha com times femininos e masculinos. Quais as principais diferenças?

Bom, a dinâmica motora é a mesma, mas alguns detalhes mudam bastante a abordagem. Muda a forma de aplicar o treinamento, ou seja, o controle das cargas para melhor adequação do volume e intensidade. Esse aspecto é completamente diferente por questões biológicas. Mas a diferença mais significativa que percebi com a experiência é na relação interpessoal, o como tratar no cotidiano, com suas perdas, sucesso, decepções e vitórias. Para ter um sucesso no treinamento você tem que, antes de tudo, saber com quem está trabalhando e o que se passa com aquele individuo tanto no grupo quanto fora dele.

Como funciona a preparação física das equipes de base?

Hoje o basquete esta passando por uma fase de transição na preparação física de base. Antigamente, o fato de uma equipe ter um preparador físico era visto como luxo. Atualmente todos estão vendo com uma necessidade. Bom para o basquete brasileiro, em minha opinião! O que temos que entender é que a preparação física de base é a longo prazo, não adianta observar os resultados de forma aguda (resultado imediato). Assim, como em todo processo de treino, os resultados vêm de forma planejada, mas é notório que faz diferença. Na seleção brasileira já fazemos um trabalho de padronização da preparação física, desde a base até o adulto, com as diretrizes sendo estabelecidas pelo professor Diego Jeleilate para melhor acompanhar o desenvolvimento dos nossos atletas. Isso é um grande passo e espero que seja em breve uma referência para todos no território nacional quando se trata de valores referência para o basquete.
img

Quanto tempo está com as seleções brasileiras? E o que acha do trabalho?

Comecei no ano passado. Tive a oportunidade de ser convocado para a Copa América e o Sul-Americano Feminino. Infelizmente não tive condições de ir por compromissos no meu clube. A primeira vez com a seleção foi na adulta masculina para a disputa do Torneio Pré-Olímpico. Esse trabalho foi uma transição de comissão técnica e, portanto, trouxe toda uma reestruturação conceitual. Achei bastante interessante, já que o trabalho interdisciplinar é realidade na seleção, onde todos têm suas funções delegadas e bem definidas no processo de treinamento. Achei uma experiência bastante positiva, mas sempre temos que evoluir e ter como objetivo as melhores estruturas do mundo para profissionais e atletas.

Como está a preparação física brasileira em comparação com os outros países?

No treinamento desportivo e na fisiologia do exercício o Brasil está certamente entre as cinco potências mundiais. Temos excelentes profissionais e muitos estudiosos dessas áreas aqui. Além disso, o nível de treinamento dos atletas brasileiros está melhorando a cada dia. Hoje temos muita gente jogando no exterior e isso tem facilitado a cultura de treino, principalmente a do treino de força (peso), essencial para a modalidade a nível internacional. Isso tem ajudado o desenvolvimento dos nossos atletas e facilitado nosso trabalho no Brasil.

E os atletas respondem ao treinamento físico?

Sim. Quando você é claro e objetivo no seu treinamento eles sempre respondem bem. O que o atleta não gosta é treinar sem saber o que, como e quando vai melhorar ou sentir os efeitos do treinamento. Se ele se desgasta e sofre com os exercícios sabendo do seu sucesso no jogo ele vai se dispor a trabalhar forte.
img

Quem dá mais trabalho nos treinos físicos, homem ou mulher? Adolescente ou adulto?

Isso é bastante relativo. Depende do grupo e qual o objetivo no trabalho. Não existe sucesso sem dedicação e renúncia. Lógico que, dentro de uma equipe, sempre temos aqueles que gostam mais e outros menos do físico, mas cabe a nós procuramos convencer e fazer com que todos treinem da melhor forma. Não tem aquele que dá mais trabalho de acordo com o gênero ou idade. Existem aqueles que têm objetivos mais ousados e outros nem tanto, e há também aqueles que perseveram até o seu limite do mesmo jeito que existem aqueles acomodados com a situação, isso independente de qualquer divisão de gênero ou idade.

E você, gosta de malhar? O que acha da prática esportiva?

Sim. Acho extremamente importante não só para mim, mas para qualquer individuo que tenta manter sua saúde em dia, e ainda se preparar para viver uma “melhor idade” com mais qualidade de vida e mais saudável para atividades da vida diária.

Como entra a parte de musculação na adolescência dos atletas?

A musculação é parte de um treinamento de força. Não é o melhor, nem mesmo o único, é apenas mais um recurso que temos para desenvolver as capacidades físicas do atleta. Hoje, infelizmente, ainda há muitos mitos na atividade física para crianças e adolescentes, principalmente quando o assunto é “Treinamento resistido” (musculação). Hoje sabemos que crianças e adolescentes são aptos a utilizar esta ferramenta, mas com uma orientação adequada de um profissional de educação física para um treino sem risco e com sucesso.

Quais as novidades na área de preparação física no Brasil e no mundo?

Na parte da ciência da preparação física, o que mais interessa nos estudos e pesquisa atualmente são os controles do aspecto regenerativo dos atletas. Como saber quando posso dar um treino forte ou quando preciso descansar. Hoje na ciência esportiva não existe apenas um marcador para analisar essa pergunta, mas sim existem vários, que são subjetivos e bioquímicos (questionários, sangue, saliva, biópsia entre outros) para controlar a aptidão física do atleta. Esses marcadores chamados de “marcadores biológicos e controles de carga de treinamento”, são a novidade nos últimos anos na pesquisa da preparação física. Porém, o grande problema é a dificuldade de relacionar esses marcadores ao rendimento do atleta na quadra. Esse é o grande objetivo e dificuldade na ciência moderna. Em breve, espero que possamos ter respostas mais concretas e nosso desejo é que os meios encontrados sejam utilizados diariamente num futuro próximo em clubes e na seleção para um melhor rendimento e para uma maior vida útil dos atletas.

Você participou dos treinamentos da seleção adulta para o Pré-Olímpico da Grécia. Como foi a experiência e o que mais aprendeu com ela?

Representar o meu país é uma emoção indescritível. É o objetivo de qualquer pessoa que trabalha com esporte, e comigo não seria diferente. Foi a realização de mais um sonho na minha vida. Tive a chance de conviver com diversas formas de entender basquete. Foi enriquecedor observar o técnico Moncho Monsalve aplicando sua forma de treino e filosofia de jogo, além do convívio os atletas que jogam no Brasil e no exterior.
img

E como foi participar de algumas Clínicas Técnicas e de Preparação Física Eletrobrás?

Participar das Clinicas Eletrobrás tem um gosto especial sempre. Na área de preparação física existem muitas dúvidas em qualquer lugar do mundo, e a troca de informações que ocorre nas Clínicas é um grande passo para diminuir esses questionamentos. E também é muito gratificante saber que estamos contribuindo para o crescimento do basquete nacional e ainda padronizando alguns modelos de treinamento.

Em 2006, você fez uma palestra sobre "Fisiologia aplicada na preparação física de árbitros de basquete". Existe algum diferencial na preparação física dos árbitros?

A preparação para árbitros não tem nada especial. Infelizmente os árbitros não têm uma atividade regulamentada e todos têm atribuições extra quadra, dificultando no treinamento exclusivo para o basquete. Não tem diferencial no treinamento dos mesmos, apenas eles têm que treinar as mesmas capacidades que os atletas de basquete. Claro que no volume e a intensidade são bem menores. Hoje são três árbitros e eles correm apenas a metade da quadra (líder e seguidor). Isso já diminui bastante o desgaste e o deslocamento.
img

Além do basquete você trabalha com outro esporte?

Hoje lido diretamente apenas com o basquete da Metodista/São Bernardo do Campo. Mas, no laboratório de fisiologia do exercício do CEFE-UNIFESP, trabalho com muitos esportes e troco bastante informação de treinamento com todos os membros da equipe, já que avaliamos todos os tipos de esporte. O que tenho feito de diferente, com o professor Rafael Fachina (CEFE-UNIFESP), é a elaboração de uma metodologia em que seja realmente possível a quantificação das cargas de treinamento para atletas de esportes de combate, mais especificamente os de MMA (Vale Tudo). Mas nesse território tenho atuado apenas nas discussões da planificação e diagnóstico dos resultados dos testes durante o ciclo. É um ambiente totalmente diferente do basquete, além de ser um esporte individual.