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10/03/2009 - Cristiane Simões Lima

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Responsável pela diversão pós-treino na seleção brasileira Sub-19, Cristiane Simões de Lima deixa as piadas do lado de fora da quadra. No garrafão, a pivô só quer saber de impedir o adversário de pontuar e brigar pelos rebotes. Kika, como é carinhosamente chamada por todos, já defendeu o Brasil em três Campeonatos Sul-Americanos, dois na categoria Sub-15, da qual foi campeã em 2006, e um Sub-17. Em 2008, foi a reboteira da seleção, patrocinada pela Eletrobrás, e a terceira no geral na Copa América – Pré-Mundial da Argentina. A jogadora foi uma peça importante na conquista da vaga para o Mundial Sub-19 da Tailândia, que acontece em junho deste ano. Em quatro competições oficiais, Kika soma 211 pontos em 21 jogos com a camisa verde e amarela. A pivô não quer parar por aí e avisa que os adversários do Brasil no Mundial terão bastante trabalho para passar por cima dos seus 1,95m de altura.
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Por que escolheu o basquete?

Na verdade o basquete me escolheu. Eu estava na casa do meu tio e veio um amigo da família e se interessou pela minha altura. Então ele deu meu telefone para o técnico Vinicius, do Colégio Magnum, onde tinha basquete feminino. A técnica Carla entrou em contato e insistiu bastante para eu ir fazer o teste. Fui, gostei e não parei mais. Nem penso na possibilidade de ficar longe do basquete.

Você deixou sua família em Belo Horizonte para morar em Jundiaí e se dedicar à carreira esportiva. Como é a vida longe de casa?

Não tive muita escolha. Em Minas Gerais, o basquete feminino não é tão competitivo como em São Paulo. Fui convocada para a seleção brasileira e logo depois o técnico Luis Cláudio Tarallo me deu mais essa oportunidade, me convidando para jogar em Jundiaí. Cheguei no início de 2007 e já estou muito bem adaptada. Cresci bastante como jogadora e como pessoa.

Qual foi a reação dos seus pais?

Meus pais sempre me incentivaram muito. Eles viram mais como uma grande oportunidade para eu crescer no esporte. Ficar longe de casa era apenas um detalhe. Um detalhe importante, mas não o principal. Senti muito os primeiros meses, mas agora já acostumei. As companheiras na república viraram minha família. Além disso, meus pais vêm passar o fim de semana comigo às vezes. Outras, eu vou para casa. E assim eu vou matando as saudades.
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Como é a república que você mora?

É bem tranqüilo. A tia Rosinha toma conta da gente, faz com que tudo fique organizado. Temos horário para tudo. Para almoçar, jantar. Se sair, temos que voltar até a hora determinada. Não é como a casa da gente, não temos a mesma liberdade, mas chega bem perto. Moro com mais 13 meninas, que já viraram minha família.

Você treina com o Tarallo no clube e na seleção. Como é convívio com ele?

Não tem muita diferença do Tarallo do clube para a seleção. Ele é exigente da mesma maneira. Talvez a cobrança seja um pouco maior, já que na seleção nós defendemos o país inteiro, não só a cidade. Eu gosto de trabalhar com ele e facilita bastante tê-lo como técnico na equipe brasileira. Como eu o conheço bem, já sei o que ele quer que eu faça durante os treinos e jogos.
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O que acha do clima na seleção brasileira?

É sempre muito bom ficar com a seleção brasileira. Já conheço a maioria do grupo, tem uma ou outra que chegou agora. Temos bastante afinidade dentro e fora da quadra. O clima é sempre o melhor possível, já que todas nós queremos a mesma coisa, que é representar bem o Brasil lá fora.

O que achou da Copa América – Pré-Mundial da Argentina em 2008?

Foi uma experiência única para mim. Enfrentar os Estados Unidos e o Canadá foi muito bom para o desenvolvimento do meu jogo. Fiquei feliz demais com a oportunidade de defender o Brasil na Copa América e mais ainda quando conseguimos a vaga para o Mundial.

Além da vaga e da medalha de bronze, a Copa América teve um gostinho especial. Como foi ganhar da Argentina na casa delas?

Mesmo com a derrota para os Estados Unidos e Canadá, foi uma competição muito boa. Sabíamos que seria um torneio difícil. Aprendemos bastante e, além disso, derrotamos as argentinas. Pela rivalidade histórica que as duas seleções têm, vencê-las na casa delas foi uma sensação incrível. Todo o grupo queria ganhar e demonstrava essa vontade em quadra. Fizemos um ótimo jogo e conseguimos a vitória por dois pontos de diferença.
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Você foi a reboteira do Brasil e a terceira no geral, além de líder nos bloqueios da competição e da seleção brasileira. O que achou do seu desempenho?

O Tarallo dá uma condição muito boa para se soltar em quadra. Ele confiou no meu potencial e comecei jogando. Fico feliz em ter correspondido. Sabíamos das dificuldades, mas era só colocar em prática o que tínhamos treinado. Trabalhamos em equipe, uma ajudando a outra sempre. Eu estava confiante em mim e no grupo. Sabia que poderíamos fazer uma boa competição e garantir nossa vaga.

Qual é a pior parte das viagens?

Definitivamente a alimentação. A gente se alimenta muito bem no Brasil e, quando vamos para o exterior, sentimos muito a diferença. Estamos mal acostumadas a comer bem. Na Argentina era macarrão no almoço, na janta e, se bobeasse, teria no café da manhã também. Uma boa alimentação é uma das coisas mais importantes na vida de um atleta e a diferença da nossa comida para os outros países é muito grande.
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Como você vê a sua evolução física e técnica durante esses anos de basquete?

Quando comecei a jogar, não tinha muita estrutura. Eu treinava apenas duas vezes por semana e, quando chegava em casa, era comer e comer. Sempre fui grande e forte e naquela época não tinha tipo físico de atleta. Quando o Tarallo me deu a oportunidade de ir par Jundiaí, eu estava pesando 130 quilos. Fiz um trabalho especial com o preparador físico do time, o Paulo Martignago. Eu chegava antes do treino para correr. Treinava junto com a equipe e ficava mais um tempo depois correndo mais ainda. O Paulo me ajudou muito a conseguir um bom físico. Emagreci e ganhei musculatura, o que eu não tinha quando jogava em Minas. Agora, tento manter minha forma física a qualquer preço. Tenho a oportunidade de defender uma equipe tradicional no basquete brasileiro e vestir a camisa do Brasil. Não posso deixar que uns quilinhos tirem a minha chance de crescer no esporte.

O que significa para você representar o Brasil?

A melhor coisa que existe é vestir a camisa brasileira. Não tem sensação igual a essa. Seja nos treinos, em jogos, ser convocada para representar seu país não tem orgulho maior. Afinal, o grupo que está aqui são as melhores do Brasil na categoria. Isso é um reconhecimento de todo esforço e dedicação que temos nos clubes e nas competições que já disputamos pela seleção.

Quais seus pontos fortes e o que precisa melhorar?

Eu jogo bem no garrafão, embaixo da cesta. Pego bastante rebote também. Acho que todo mundo tem sempre alguma coisa para melhorar. Nunca estamos no auge. E eu não sou diferente. Procuro sempre me superar. Sigo a orientação dos técnicos, buscando me aperfeiçoar cada vez mais.
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E a expectativa de ir para o Mundial?

É sempre muito gratificante ser convocada para a seleção. Pretendo dar mais do que cem por cento para ficar entre as doze que vão para a Tailândia defender o Brasil no Mundial. Seria o ápice da minha carreira neste momento, já que é a principal competição da minha categoria.

Por quais as dificuldades passam uma adolescente com 1,95m de altura?

Eu sempre fui alta e na escola sofria para sentar na carteira. As minhas pernas não davam direito, eu ficava muito desconfortável. Às vezes a cama é um problema. Durmo com os pés para fora.

Qual o melhor momento do jogo?

Aquele em que o time inteiro está querendo ganhar o jogo. Mesmo com as coisas não dando certo, o grupo continua lutando, se esforçando para se superar. E acaba que no final, a nossa força de vontade faz com que tudo dê certo.

O que gosta de fazer quando está longe do basquete?

Nos raros momentos que não estou treinando, jogando ou pensando em basquete, gosto de assistir filmes, principalmente de terror. Adoro filmes que tenham assassinos em série. Um dos meus favoritos é a sequência de Jogos Mortais. Também curto muito ficar com a minha família, descansar. Às vezes gosto de sair, ir ao shopping fazer compras, tomar sorvete, comer chocolate.