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26/01/2009 - Adriano Geraldes

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O clube Univates/Bira está de técnico novo para a temporada 2009 da Liga Nacional de Basquete (LNB). O paulistano Adriano Geraldes, de 42 anos, assumiu o time na primeira semana de janeiro e avisa: a equipe pode surpreender. De volta ao Brasil após encarar o desafio de dirigir a seleção Sub-20 do Líbano, que lhe trouxe uma experiência inédita, Geraldes sente-se feliz na cidade gaúcha de Lajeado, onde está a sede do clube, apesar da saudade dos dois filhos e da esposa. Como quase todos os técnicos, ele também começou nas quadras, mas admite que sua maior virtude como jogador foi perceber que atuaria melhor no comando do time, e decidiu estudar Educação Física, mas jamais largar o basquete. Após anos trabalhando na Hebraica (SP), Adriano chega ao Univates com a promessa de mostrar ao Brasil o bom trabalho que vem sendo feito por lá.

Como está a preparação do Univates para a estréia no NBB?

A equipe está se preparando bem. Estão todos cansados, porque os treinos têm sido duros, em dois períodos, há duas semanas. Cheguei aqui no dia 6 de janeiro e sinto que os jogadores já estão num estágio avançado de conhecimento do meu ritmo de trabalho, ou seja, estão se adaptando ao que eu pretendo implantar aqui.
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Quais os pontos fortes da equipe?

Acredito que, na competição, a equipe irá se destacar pelo trabalho coletivo. Mas é claro que um ou outro jogador se destaca mais. O jogo de transição também está num padrão bom. A maioria dos atletas eu já conhecia, mas de jogar contra. Estamos ainda em um momento de adaptação. A equipe é jovem, a média de idade está na faixa de 25 anos. Os atletas estão cheios de disposição, vontade de aprender e querem mostrar trabalho.

O ex-técnico da equipe, Clairton “Xis”, continua no clube como coordenador. Como é a relação entre vocês?

Nos conhecíamos de competições anteriores, mas não chegamos a nos tornar amigos. O convite para que eu assumisse a equipe partiu dele, e estou achando excelente a forma como ele trabalha. O que o time é hoje se deve à figura fantástica do Xis, extremamente carismático e com boas relações na cidade de Lajeado. É muito positivo para mim estar ao lado de um profissional como ele.
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Quais suas expectativas para o NBB?

Considero o NBB um novo campeonato, que será diferente do Nacional que tivemos até o ano passado. Para essa temporada, não posso prometer uma classificação do Univates. Prefiro falar que vamos nos dedicar muito para tentar uma boa colocação. Há equipes muito fortes na competição, sendo oito de São Paulo, todas boas e com tradição no basquete. Além do Minas Tênis (MG) e do Universo (DF), que estão na Liga das Américas, e do Flamengo, todas fortes. Então, as dificuldades são muitas, mas não vamos deixar de trabalhar para mostrar nosso basquete. As instalações que temos aqui são de alto nível, comparáveis às de qualquer grande clube do Brasil. Tenho certeza de que muitos vão se surpreender quando vierem jogar em Lajeado.

Já se adaptou à cidade?

Estou adorando Lajeado. Sempre morei em São Paulo, já estava acostumado àquele trânsito louco, e aqui é tão calmo! E não é uma cidade tão pequena assim, tem um tamanho bom, oferece toda infraestrutura que precisamos e fica a 120 km da capital, Porto Alegre. O único ponto ruim é que sinto falta da família. Meus filhos estão em São Paulo e minha esposa, Fernanda, também. Mas, se tudo der certo, em breve ela poderá estar aqui comigo.
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Fale um pouco sobre a sua carreira no basquete.

Tentei ser jogador, mas minha maior virtude foi perceber que, como jogador, nunca vestiria a camisa da seleção brasileira. Então, fui estudar Educação Física, mas já pensando em ser treinador de basquete. Meu foco, claro, sempre foi esse. Comecei como treinador no Ipê, um clube pequeno de São Paulo, e depois fui para o Continental (SP), onde fiquei por bastante tempo, passei por diversas situações e aprendi muito. Em 2001, fui para a Hebraica (SP) trabalhar como assistente do time adulto masculino, que acabei assumindo como técnico entre 2004 e 2006. No ano seguinte, 2007, recebi o convite para treinar a seleção masculina libanesa Sub-20 e fiquei lá por seis meses. No retorno ao Brasil, voltei para a Hebraica para trabalhar nas categorias de base e logo fui chamado para assumir o Univates.
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Como foi sua experiência no Líbano?

Muito gratificante. Um aprendizado enorme. Tive a oportunidade de participar de um Mundial na Sérvia (8º Campeonato Mundial Sub-19 Masculino, realizado em julho de 2007, na cidade de Novi Sad), onde estreei justamente contra o Brasil. Perdemos porque o Neto (técnico da seleção brasileira) fez um trabalho muito correto, muito bom. Disputamos um torneio forte na Turquia também. Mas toda a experiência no Líbano foi, de certa forma, engrandecedora. Eu estava em total zona de desconforto, pois fui para lá sozinho, sem falar a língua. Me comunicava em inglês com os jogadores. O povo libanês é alegre como o brasileiro. A capital, Beirute, é dividida entre católicos e muçulmanos. Eu fiquei na área católica, mas no clube tanto atletas quanto os funcionários do departamento técnico eram de ambas as partes e conviviam em paz. Claro que quase todos têm histórias de parentes perdidos, têm medo da guerra, mas tentam encarar isso de forma natural, o que para mim era impressionante, pois há mais de dez acampamentos palestinos dentro do país. Como a questão religiosa é muito forte entre eles, a situação ficava delicada às vezes, mas todos conviviam juntos na equipe. Apesar desses problemas, é um país lindo, com padrão de vida elevado, paisagens exuberantes e alimentação muito boa. E foi essa experiência que me deu bagagem para vir a Lajeado.

Como o basquete é visto por lá?

É o primeiro esporte do país, como é o futebol para nós, brasileiros. Todos entendem de basquete e as torcidas são fanáticas. Para se ter uma idéia, os estádios de futebol comportam menos pessoas que os ginásios de basquete. Há academias e escolas de basquete por todos os lados e as crianças praticam no colégio também, tanto meninos quanto meninas.
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Cite alguns momentos importantes da sua carreira.

O momento que estou vivendo hoje é bastante importante para mim, pela oportunidade que estou tendo e pela estrutura que encontrei aqui. O período no Continental (SP) também foi especial. Tínhamos uma infraestrutura limitada e fazíamos de tudo, de limpar a quadra a dar carona aos jogadores. Lá pude lançar jovens talentos, assim como na Hebraica. Nem sempre os grandes momentos são os títulos, mas as lições que o esporte nos dá. A dedicação exclusiva ao esporte é pesada, prejudica nossa vida familiar, mas é o preço que se paga. Há mais momentos felizes do que tristes, sem dúvida. O reconhecimento é algo que me deixa feliz. Trabalhar com jovens é participar de um momento importante da vida deles, um momento de formação. Quando ouço de um atleta que fui importante na formação e na vida dele, me sinto gratificado.