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05/01/2009 - Micaela Jacintho

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Eleita a MVP (melhor jogadora) do 11º Campeonato Nacional, a ala Micaela Jacintho, de Ourinhos, comemora o prêmio, mas conta que não teve um ano fácil. Demorou a “encontrar” seu melhor jogo e não conseguiu atuar como desejava nas Olimpíadas de Pequim. Fatos, porém, que não a impediram de ganhar o troféu, que agora faz companhia aos outros dois, conquistados em 2004, quando atuava em Americana (SP), e em 2006, já em Ourinhos (SP). Já os títulos do Nacional, são quatro em 11 edições da competição: os três em que foi escolhida a melhor jogadora mais o do Vasco da Gama (RJ), em 2001. Aos 29 anos e em excelente forma física, Micaela diz que se cobra demais e sofre quando erra, a ponto de não querer sair de casa. “A torcida de Ourinhos fica em cima da gente”, conta. A última cesta perdida, que deu a vitória do terceiro jogo do playoff final para Americana, ainda estava atravessada na garganta. O alívio só veio na quarta partida, em que a atleta brilhou e Ourinhos se consagrou pentacampeão do Nacional.
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Qual a sensação de ser eleita a melhor jogadora do Nacional?

Especialíssima. A premiação vem coroar meu trabalho. Eu tenho consciência de que não fui tão bem nesse campeonato. Mas no terceiro jogo da final eu olhei o troféu e pensei: na minha estante tem lugar para mais um. Terminamos a partida mal e ainda perdi a cesta que poderia nos dar a vitória. Mas no quarto confronto dei a volta por cima e o troféu acabou na minha mão.

O que achou da série final?

A final conta muito. É quase um campeonato dentro do campeonato. Achei que consegui fazer jogos melhores na semifinal e na final, consegui dar um “a mais” que estava faltando no início da competição. Ganhamos os dois primeiros jogos com facilidade. Acho que a decisão foi mesmo na terceira e na quarta partidas. Aí sim, foram duas equipes lutando pelo título. Tenho consciência de que Ourinhos foi uma equipe que investiu mais, mas Americana veio para cima com tudo, porque dentro da quadra o que conta não é o investimento, mas o coração.
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Qual a razão do sucesso de Ourinhos?

Investimento, sem dúvida. Temos obrigação de vencer. Pelo menos eu penso assim. E se continuarem investindo, o time vai continuar vencendo. Todos sabem que Ourinhos é uma equipe a ser batida, então isso estimula as outras equipes a investirem também, como aconteceu com Americana nesse último campeonato. É isso que eu quero que aconteça: equipes de qualidade competindo e jogadoras que estão fora do país tendo a opção de voltar e jogar aqui. Isso elevaria muito o nível da competição e do basquete feminino do Brasil.

O que passa na cabeça da atleta quando o jogo acaba e conquista o título?

Dessa vez, quando acabou, eu não tinha nada na cabeça. Estava muito cansada. Eu tinha errado a última cesta do terceiro jogo e não estava conseguindo nem dormir até chegar na decisão final. Queria terminar o quarto jogo de outra maneira. Quando terminou, só pude agradecer por ter terminado tudo bem.
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Qual foi o jogo mais difícil?

O quarto e último. Porque eu estava traumatizada com essa última cesta do terceiro jogo e não sabia se conseguiria fazer uma boa partida de novo. Fiz muitas faltas, fui muitas vezes para o banco. E olhar o jogo do banco é difícil. Foi estafante. Quando acabou, mal conseguia comemorar de tanto cansaço.

O que achou do seu desempenho na competição?

Acho que cresci nas semifinais e nas finais. O ano de 2008 foi difícil para mim e, no começo do campeonato, eu não conseguia mostrar o que eu sei que consigo fazer. Tive uma fase difícil e, pela primeira vez na vida, isso afetou meu jogo. Queria ter mostrado um basquete melhor, principalmente nas Olimpíadas de Pequim. Depois voltei ao meu normal. Houve uma melhora na minha atitude dentro de quadra, ou seja, saber o que é preciso fazer para jogar melhor, e no final acabou dando tudo certo.
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Este foi seu quarto título brasileiro. Cada conquista tem uma emoção diferente?

Sim. No Vasco, em 2001, eu tinha apenas 21 anos. Fazíamos jogos difíceis contra a Mangueira/Paraná, dirigido pelo Vendramini. Foi uma final com cinco jogos. Eu não agüentava mais, era muito jogo! E o Vasco tinha um timaço, tinha a Janeth. Nessa época eu jogava muito na defesa. Já na conquista por Americana, em 2003, eu estava em ótima fase. Consegui jogar bem do primeiro ao último jogo do campeonato. O Paulinho (técnico Paulo Bassul) montou muito bem o time. Chegamos à final empolgadíssimas. Fui a cestinha do campeonato e a segunda melhor em assistências, o que mostra que não é preciso ser fominha para ser cestinha. Eu gosto de passar a bola. Essa conquista me deixou muito feliz.

Como foi lidar com o favoritismo de Ourinhos no Nacional? Isso pesa para o grupo?

Pesa, claro. Nós temos um time forte, que pode revezar as jogadoras sem cair de qualidade. Então não podemos errar porque, se errar, vem alguém melhor do banco para o jogo. Tem sempre uma atleta jogando bem na sua posição, então quem erra vai para o banco. Isso nos impulsiona a jogar melhor e cometer menos erros. É uma pressão, claro, mas é positiva. A atleta tem obrigação de render. Falo em obrigação porque é um time que investe, com torcida, patrocinador. Há uma cobrança e nós também cobramos muito de nós mesmas.
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Como foi trabalhar com o técnico Urubatan?

Ele é um técnico tranqüilo. Dava liberdade porque sabia que podia agir assim. Ele falava: “Admiro vocês, quero que vocês dêem o melhor”. E conversava bastante, dava força, botava o time para cima. Foi a pessoa ideal para ficar no lugar do Bassul. A conquista foi importantíssima para nós e para ele.

Como é jogar em uma cidade que ama o basquete? Como foram as comemorações em Ourinhos?

Teve comemoração no ginásio (Monstrinho, em Ourinhos) e carreata na rua, que já é costume de lá. Depois jantamos todos juntos. Foi maravilhoso. Aqui, eles amam demais o basquete. Quando eu errei aquela última cesta não queria nem sair de casa. E não saí mesmo. Fiquei escondida, não queria ver ninguém. Fui rápido ao mercado e falaram: “Você errou a última cesta!”. Então, eles gostam mas também cobram o tempo todo.
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Alguma equipe ou jogadora te chamou a atenção no campeonato? Por que?

A Karina Jacob (pivô) e a Renata (ala), ambas de Americana. A Karina já estava jogando muito bem e agora está melhor ainda. Já a Renata é uma boa lateral. É rápida, dinâmica. Tem um grande futuro e merece ser chamada para a seleção. As duas fizeram um ótimo campeonato.

Como faz para manter a forma física nas férias?

Não temos muitas férias. Eu gosto de ir à academia e tento me alimentar bem. Já aboli os doces, pois vou fazer 30 anos e ainda quero jogar bastante. Nas férias acabo comendo mais porque tenho menos o que fazer. Mas detesto corrida, não corro de jeito nenhum! E também tenho facilidade para pegar músculo, mesmo sem precisar levantar muito peso.

Tem planos para a próxima temporada?

Estou na espera e estou tranqüila. Aguardo propostas. Gosto de Ourinhos demais, mas o importante para mim é jogar e estar em um lugar bacana, que valorize o basquete.