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10/12/2008 - Alzira Amaral

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Alzira Amaral é um nome conhecido no meio do basquete. Quem joga, dirige ou participa de algum jogo no Rio de Janeiro sabe bem quem ela é. O que poucos sabem é que Alzira foi a primeira mulher a ser árbitra de basquete no Brasil e no mundo. Mas como o machismo ainda era muito presente nos anos 60, Alzira teve que se adaptar para continuar no esporte. O jeito foi ficar na mesa, o que acabou sendo a melhor solução, porque como ela mesma diz, Alzira nasceu para ser oficial de mesa. E é considerada uma das melhores do país. Nos 43 anos na profissão, ela já presenciou cenas inusitadas do basquete brasileiro, acompanhou a evolução da carreira de grandes atletas e vê o esporte passar de pai para filho.

Como surgiu o interesse pelo basquete?

Eu queria praticar algum esporte que me agradasse. Comecei a jogar tênis, mas era muito lento, tinha que parar toda hora. Fui para o vôlei, mas era outro também bastante parado, previsível. Foi quando resolvi entrar na quadra de basquete para bater uma bola. Comecei a jogar no Vasco e depois fui treinar no América, que era perto da minha casa.

O que a fez decidir por ser oficial de mesa?

Depois de um tempo, vi que o meu negócio não era jogar basquete. Não nasci para levar pancada e essa é uma modalidade com muito contato físico. Atuar na quadra não era mesmo a minha praia. E como eu sempre fazia os scouts no banco de reservas, resolvi mudar de área. Fiz um curso de arbitragem em 1964. Fui a primeira mulher a atuar como árbitra no Brasil e acho que até no mundo. Se hoje temos poucas mulheres apitando, naquela época era mais raro ainda. Fiquei um ano como árbitra, mas logo vi que não ia a lugar nenhum. Nos anos 60, o machismo era muito grande e eu não tinha chance de entrar para o clube do Bolinha. Em 1965 fui para a mesa. Em três meses já estava participando de Brasileiros.

Você lembra do seu primeiro jogo como árbitra?

Não me lembro de muita coisa não, porque faz tempo. Eu sei que foi no ginásio antigo do clube América, na Tijuca. Foi uma partida nervosa, porque tinha muito oba-oba. A rádio e a televisão estavam no jogo e tive os meus 15 minutos de fama.

São 43 anos como oficial de mesa, não dá para enjoar?

De maneira nenhuma. Eu gosto muito de ser oficial de mesa. Não consigo nem explicar como isso me faz bem. Nasci para isso, está no meu sangue.

Qual o seu principal desafio durante um jogo?

Quem está na mesa tem que prestar atenção em tudo. Todo mundo comete erros uma vez na vida, isso é humano. Por isso, um dos meus desafios é chegar ao final de uma partida sem errar nada. Além disso, pretendo continuar sendo uma boa oficial de mesa.

Tem alguma diferença de um jogo mirim para um adulto? Uma competição nacional para internacional?

É tudo a mesma coisa, a responsabilidade é a mesma. Eu participo de jogos do Campeonato Carioca desde a categoria mirim até adulto e trabalho da mesma forma em todos. A mesma coisa acontece numa partida internacional. Para mim todas as competições são iguais.

Como é o relacionamento dos oficiais de mesa com os árbitros?

Temos um ótimo relacionamento. É sempre muito tranqüilo. Como trabalhamos juntos, mas em áreas diferente, não tem ciúme. Fica cada um na sua, cuidando da sua parte no jogo. A gente se dá super bem, tanto com os árbitros do Rio como de outros estados.

Nesses anos, muitos atletas já passaram pela sua mesa. Como é conhecer todo mundo do basquete?

Conheci muita gente boa no basquete. Vi grandes atletas no início de suas carreiras, jogando desde as categorias menores até chegar na adulta. Hoje em dia, sou oficial nos jogos dos filhos dos atletas que conheci quando eram mirins.

Você também já viu muitas situações engraçadas e inusitadas.

Já vi de tudo sim. Brigas na quadra, na torcida. Já tive que sair de fininho do ginásio com a súmula escondida dentro da blusa. Já vi árbitro tomar decisão dentro do vestiário. Acho que tudo que poderia acontecer num jogo de basquete, eu já presenciei.

Cite algumas competições que você já participou?

Fui convidada para a Universíade realizada na Sicilia, Itália. Participei de Copa América, dos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro e de três Campeonatos Mundiais que foram realizados no Brasil. Nas competições entre clubes, sou oficial nos estaduais, nacionais, sul-americanos e agora da Liga das Américas. Também já estive em outras cidades pelo Campeonato Nacional. O presidente Grego já deu a oportunidade de intercâmbio entre os oficiais de mesa. Viajamos para trabalhar nos jogos de outras equipes.

Qual é o seu trabalho na Federação do Rio de Janeiro?

Eu trabalho no departamento técnico da Federação. Fico responsável pela marcação das partidas, estatísticas, vejo se os atletas têm ou não condições de jogo, esse tipo de coisa. Já sei até o nome dos jogadores de cor e salteado de tanto que vejo os nomes.

E como é a Alzira longe do basquete?

Gosto de ir a praia, bater um papo. Também adoro viajar. Quando o dólar está em baixa, eu aproveito e saio do país. Agora que está em alta, estou segurando mais um pouco. A última vez que viajei foi para Las Vegas. Aproveitei para jogar um pouquinho. Mas foi só um pouquinho mesmo, sou bem controlada. Gastei o suficiente para ter uma boa diversão.