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29/10/2008 - Maysa Oliveira

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Maysa Oliveira, uma das revelações de arbitragem das Olimpíadas Escolares deste ano, em Poços de Caldas (MG), guardou o dinheiro que ganhou trabalhando na competição para tirar a carteira de motorista. “Só falta uma prova”, conta a estudante do segundo período de Educação Física da Universidade Federal de Sergipe. Mas antes de dirigir automóveis, a sergipana de apenas 18 anos já aprendeu a conduzir partidas de basquete. Foi num Acampamento de Arbitragem Eletrobrás em sua cidade, Aracaju, que Maysa despertou a atenção do coordenador de arbitragem da CBB e comissário FIBA, Geraldo Fontana. Desde então, os convites para apitar começaram a aparecer e a árbitra está gostando cada vez mais da experiência, apesar do nervosismo que ainda a impede de comer e de dormir nas vésperas das competições mais importantes. Maysa estréia nesta quarta-feira (dia 29) no Campeonato Nacional Feminino apitando o jogo Sport (PE) x São Caetano (SP), em Recife.

Como o basquete entrou na sua vida?

Comecei a praticar aos 11 anos e só parei agora, aos 18. Jogava como ala/armadora. Fui do time da escola e também da seleção de Sergipe, com a qual disputei três vezes o Campeonato Brasileiro Sub-17 – Região Nordeste. Agora estamos formando um time da universidade, a UFS (Universidade Federal de Sergipe), onde estudo Educação Física, aqui em Aracaju. Vou jogar mais como armadora mesmo, porque me sinto melhor nessa posição.

Você sempre gostou de esportes?

Sempre. Desde criança. Já pratiquei vários: basquete, vôlei, natação. Minha mãe foi professora de ginástica olímpica, mas ela nunca me estimulou muito porque não queria que eu me dedicasse mais ao esporte que aos estudos. Então, começava a praticar e dali a alguns meses ela me tirava, porque eu só queria saber do esporte e não estudava mais. Minha vontade de jogar era maior que a de estudar.
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Por que decidiu tão cedo a se dedicar à arbitragem?

Na verdade, foi por acaso. Em abril desse ano, o Geraldo Fontana veio dar um curso em Sergipe, um Acampamento de Arbitragem Eletrobrás. Eu já havia participado de uma Clínica Técnica com o César Guidetti e tinha gostado muito. Resolvi fazer esse Acampamento do Fontana também, mas quando tentei me inscrever, não havia mais vagas. Eu fui mesmo assim e consegui participar graças a uma desistência. Quando o Fontana me viu, perguntou: “Você vai ser árbitra?”. Eu disse que não sabia, mas que queria conhecer melhor a profissão. Até então, nunca tinha pegado um apito na vida.

Você se identificou com a profissão?

No último dia de Acampamento, o Fontana disse que eu tinha talento para apitar. Ele gostou muito do meu trabalho e pediu aos árbitros mais velhos aqui de Sergipe que me ajudassem e me treinassem. Depois disso, comecei a atuar como árbitra. Aproveitei três Campeonatos que aconteceram em Sergipe para pôr em prática o que aprendi no Acampamento.
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Como foi a experiência nas Olimpíadas Escolares em Poços de Caldas (MG)?

Foi incrível. Antes de viajar, passei duas semanas sem dormir nem comer direito, de tanto nervoso. Tinha muito medo de errar. Mas o Fontana me ligou e falou: “Se não errar, como vai acertar?”. Eu evoluí muito durante as Olimpíadas Escolares. Apitei dez jogos. Os árbitros mais velhos me deram apoio. Aprendi como me portar em quadra e a postura que um árbitro deve ter. Foi uma experiência que mudou completamente a minha forma de visão dos jogos. Gosto também de fazer amizades, de conhecer gente, e para isso esses encontros são ótimos. A FIBA dá valor a pessoas que sabem interagir.
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Você se deu bem com os árbitros mais experientes na competição?

Sim. Recebi muito apoio de todos. Nunca contrariaram as minhas decisões e me ensinaram várias coisas. No começo, por exemplo, eu apitava muitas faltas. Eles chamaram a minha atenção para marcar só as mais graves e aplicar a lei da vantagem. Gostei especialmente de apitar com a Andreza Almeida, a Flavia Renata e o Vander Lobosco Jr.

Pretende seguir a carreira de árbitra de basquete?

Gostaria muito, mas aqui em Sergipe é um pouco difícil porque temos menos campeonatos. Tento apitar em clubes, escolas, para não perder o que eu aprendi. Também tenho que partir para competições fora do Estado. Fui convidada pelo Fontana para apitar nas Olimpíadas Escolares de 15 a 17 anos, em novembro, em João Pessoa (PB).

E a carreira internacional, te interessa?

Lógico. Vou até voltar a estudar inglês, que estou parada há algum tempo, porque o Fontana disse que é muito importante para a carreira internacional. E no dia que eu conseguir chegar lá vou agradecer muito a ele. Já estou feliz demais pela oportunidade que tive de participar de uma competição como as Olimpíadas Escolares e agora o Campeonato Nacional Feminino. Fontana me falou que a FIBA quer investir em mulheres e também em pessoas mais jovens, que comecem mais cedo para que possam se dedicar durante mais tempo à arbitragem. E esse é o meu caso.
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As árbitras são respeitadas pelos jogadores?

Os meninos respeitam, pegam leve com as árbitras. Eles até assumem o erro quando nós marcamos alguma falta. Isso ocorre também porque, nas Olimpíadas em que eu apitei, eles eram bem novos. Tinham, no máximo 14 anos. Então, o respeito com os árbitros é total. Já as meninas reclamam bastante, bem mais que os meninos. Os técnicos, por exemplo, reclamam muito. Se deixar, eles não param de falar no ouvido do árbitro. Tem que saber cortar, se impor. Essas situações ainda são um pouco difíceis para mim. Por isso é bom ter em quadra um outro árbitro mais experiente.

Você ainda fica nervosa antes dos jogos?

Sim, claro. Antes do jogo sinto muito medo. Mas, quando você chega na quadra e vê que sabe fazer, as coisas acontecem naturalmente. Agora, que eu sei que vou apitar nos jogos em João Pessoa, já estou nervosa por antecedência. Vou ficar um mês nervosa e sem comer direito. Não adianta. Eu sou assim mesmo.

Você toca violão e canta. Também fica nervosa quando se apresenta?

Mesma coisa. Antes dos shows chego a passar mal, tenho dor de barriga. Gosto muito de música, principalmente de MPB. Já participei de uma banda de reggae aqui em Aracaju. Também componho, tenho várias canções de minha autoria. Sempre levo o violão para os encontros, como aconteceu nas Olimpíadas Escolares. Gosto de tocar para o pessoal cantar junto. A música traz muita alegria para a vida.