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17/09/2008 - Flávia Almeida

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A arbitragem brasileira sempre foi respeitada internacionalmente. Entre as mulheres, Tatiana Steigerwald e Fátima Aparecida da Silva ficaram conhecidas pelo desempenho nas quadras tanto no Brasil como no mundo. E para manter a tradição, uma nova árbitra está ganhando espaço no cenário nacional. Flávia Renata de Almeida vem se destacando nas quadras e, este ano, entrou para a história como a primeira mulher a apitar uma final do Campeonato Nacional Masculino. A paranaense conheceu o basquete como jogadora e o interesse pela arbitragem começou apenas por curiosidade. E para sorte da modalidade, Flávia decidiu seguir a carreira de árbitra. Os primeiros passos já foram dados. Da categoria regional passou para nacional. Agora Flávia aguarda uma oportunidade para fazer a avaliação internacional e seguir a trajetória de sucesso.

Como começou a carreira?

Eu estava fazendo vestibular em 1999 e encontrei o árbitro Cristiano Maranho. Ele ia ministrar um curso de arbitragem no Paraná e me convidou para participar. Eu jogava basquete, comecei aos 10 anos, e o Maranho costumava apitar algumas das minhas partidas. Conhecia as regras pelo lado de atleta e fui fazer o curso por curiosidade. Acabei gostando. Fiz as provas, passei e fiquei dois anos apitando apenas no Paraná, até ser chamada para atuar em competições em outros estados. Em 2007, fui promovida à categoria nacional.
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O que representa ter sido a primeira mulher a apitar uma final masculina?

É um orgulho muito grande. Fico satisfeita em abrir as portas para outras mulheres. Acho que serve como motivação para a arbitragem feminina. Se eu apitei uma final, outras também podem apitar. A CBB vem incentivando, formando árbitras, e isso é muito importante para o crescimento desta profissão entre as mulheres. Podemos dizer que estamos numa nova fase da arbitragem feminina no Brasil.

E como foi a experiência?

Apitar as finais do Nacional Masculino 2008 foi uma grande realização. A gente sempre almeja mais do que tem. Desejamos, mas não esperamos que aconteça tão cedo. Fiquei sabendo que ia apitar a final entre Flamengo e Universo na véspera do jogo. Fiquei surpresa e feliz com a notícia. A responsabilidade e o comprometimento são iguais em qualquer partida, principalmente numa final. Não importa se é feminina ou masculina. Agradeço muito a CBB e ao Geraldo Fontana, coordenador de arbitragem da Confederação, por mais essa oportunidade.
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Você enfrenta algum preconceito por ser mulher num jogo masculino?

No começo eu sentia uma certa diferença de tratamento, mas nada acintoso. Era mais surpresa que preconceito em si, afinal ninguém estava acostumado a ver uma mulher apitando confrontos masculinos. O trabalho do Fontana nos Acampamentos de Arbitragem e a de inserção árbitras nos jogos entre os homens, começando já nas categorias de base, faz com que as pessoas vejam a situação com normalidade. Em 2004, eu e a Marcela Barbosa formamos a primeira dupla feminina a apitar uma final masculina dos Jogos Escolares. Hoje, acho que a minha pouca idade causa um impacto maior do que ser mulher.

Existe alguma diferença entre apitar um jogo masculino e um feminino?

O principal é a característica física, estatura e força. Os homens são mais altos, enterram e o passe sai com um pouco mais de velocidade por conta da força. Algumas avaliações também são diferentes. É comum nas partidas masculinas a interferência de trajetória e de cesta, o que não acontece no feminino.
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Na sua opinião, quais as características de um bom árbitro?

Acho que um árbitro deve ter determinação, seriedade, honestidade e persistência. Devemos procurar sempre fazer o melhor trabalho em todos os jogos. Ser profissional, levar a arbitragem a sério, não como uma brincadeira de fim de semana.

Assim como os atletas, os árbitros devem estar sempre bem fisicamente. Como é a sua rotina de treinamento?

Eu procuro ir à academia todos os dias. Como eu trabalho nos dois períodos (manhã e tarde), vou nos intervalos do almoço. Faço musculação, corro na esteira ou na rua, dependendo da academia que vou. Me mantenho sempre em atividade física. Na época de competição, procuro intensificar mais o treinamento.

Que tipo de jogo você gosta de apitar?

Gosto de apitar as partidas em que as duas equipes entram em quadra para jogar, disputar cada bola, independente da diferença do placar. Quando um dos times não quer jogar ou desiste da partida, fica um pouco mais complicado de administrar.
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Teve algum árbitro que você mais gostou de trabalhar?

Gosto de trabalhar com a Fátima. Ela é muito carismática e conversa bastante com a gente. Também gostei de atuar com o Maranho, afinal ele é o culpado pela minha vida de árbitra. Sempre brinco com ele por causa disso. O Renatinho (Carlos Renato dos Santos) também procura sempre nos ajudar. Na verdade, não tem ninguém que eu não tenha gostado de trabalhar. A gente sempre aprende alguma coisa.

Qual a regra que você acha mais difícil de aplicar na hora do jogo?

Acho que a falta técnica é uma das mais complicadas. Como não é uma falta de contato e sim uma advertência a um jogador, técnico ou dirigente, tem que ser marcada no momento certo. São dois lances-livres mais a posse de bola a favor da equipe adversária, uma situação que pode influenciar um resultado. Por isso, é uma penalidade que deve ser marcada com muita consciência.

O que acha das mudanças nas regras?

A tendência é que as regras sejam únicas em todo o mundo. A FIBA vem adaptando as regras internacionais para que fiquem parecidas com as da NBA, visando uma unificação. Acho que todos querem que o jogo fique cada vez mais dinâmico, o que vai exigir cada vez mais dos árbitros. É importante que todos acompanhem as alterações, não só a arbitragem.
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Hoje você está na categoria nacional. Em que estágio está a transição para árbitra internacional?

No momento estou focada nos Jogos Escolares, a competição que acontece esta semana em Poços de Caldas (MG). Depois vou me preparar para o Nacional Feminino, que começa dia 7 de outubro. São dois Campeonatos que servem como preparação para uma prova. O estudo das regras e da língua inglesa, além da preparação física, é constante na vida de um árbitro. Se surgir a oportunidade de ser indicada para uma avaliação da categoria internacional, vou estar pronta.

Como concilia a vida de professora de educação física e árbitra?

Na Escola Municipal de Rolândia (PR), eu tenho horário certo a cumprir e, por isso, troco de horário com outros professores. Na Universidade Estadual de Londrina é um pouco mais fácil, porque eu posso remarcar as aulas. Existe a possibilidade de alguém me substituir ou trocar o horário com outra disciplina, mas geralmente eu marco as aulas para outro dia. Neste momento, está tranqüilo. Só fica complicado quando é época de provas.