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10/09/2008 - César Guidetti

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O técnico César Guidetti, de 38 anos, se define como um homem calmo, mesmo quando enfrenta adversidades. De fato, ao conversar, o paulista de São Bernardo do Campo pensa, pondera, escolhe com cuidado cada palavra e fala pausadamente. Talvez seja exatamente essa característica que o qualifica como um dos talentos do país para dirigir seleções de base. “Meu desafio é aprender a ensinar”, ele diz. Campeão no Sul-Americano de 2006, no Uruguai, como técnico da seleção masculina cadete, Guidetti acumula ainda as funções de assistente de Paulo Bassul, na seleção adulta feminina, e ministra Clínicas Técnicas Eletrobrás por todo o Brasil. Ao todo, são 30 anos dedicados ao basquete desde que os pais o levaram para a primeira aula, na escolinha do Esporte Clube São Bernardo. Bem que ele tentou escapar do destino, quando cursou Engenharia para seguir os passos do pai. A experiência serviu para provar o quanto seu coração batia mais forte pelo esporte da bola laranja. Entre desfazer as malas da volta de Pequim e refazê-las rumo à Venezuela, no comando da seleção brasileira masculina Sub-15 para mais um Sul-Americano, ele fala sobre a carreira, as escolhas, as conquistas e o futuro.
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Você começou no basquete como jogador. Conte como foi.

Meus pais me levaram para o basquete. Comecei aos oito anos, em São Bernardo do Campo, onde morava, e joguei até os 25. Aos nove já estava inscrito para disputar o Campeonato Paulista. Passei por todas as categorias, desde a escolinha até o profissional e, nessa trajetória, defendi alguns clubes: Esporte Clube São Bernardo, Pirelli, Hebraica, Limeira e São Caetano, todos em São Paulo.

Por que decidiu ser técnico?

Estudei dois anos de engenharia, mas vi que não era a minha praia. Percebi que, além de jogar, eu também gostava de observar e quis o desafio de tentar ensinar. Resolvi fazer vestibular para Educação Física, e foi nessa época que eu percebi que queria ser técnico de basquete. Já no primeiro período da faculdade comecei a trabalhar como técnico, e continuava jogando e estudando. Foi então que senti a diferença entre jogar e ensinar. Saber jogar ajuda muito, mas não determina que você será um bom professor. O meu desafio era esse: aprender a ensinar. Quando você joga, acha que algumas coisas são fáceis. Mas, quando ensina, percebe que a didática é mais importante.
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Como foi sua formação como técnico?

Além da faculdade, busquei cursos de especialização. Fiz vários no Brasil, com técnicos brasileiros de expressão, além de europeus e americanos, da NBA. Mas o curso que realmente me abriu horizontes foi no final de 1994, em Moscou. Fiquei lá por dois meses e o curso era bastante abrangente. Além de basquete, tinha aulas de medicina, fisioterapia, fisiologia, psicologia entre outras. Esse curso, sem dúvida, impulsionou minha carreira. Quando voltei ao Brasil, recebi boas propostas como técnico e decidi parar de jogar. Percebi que o caminho como técnico se abria mais do que como jogador. Tomei essa decisão em 1995 e acho que foi uma das melhores que tomei até hoje. Desde então, passei a dirigir clubes, sempre nas categorias de base.

Quando foi a estréia no comando de seleções?

A primeira oportunidade que tive em seleção foi em 2002, com a equipe infanto de São Paulo. Fui campeão brasileiro com esse grupo, e essa conquista me rendeu convites para dirigir as seleções brasileiras. No mesmo ano, 2002, vim para o Rio de Janeiro acompanhar os treinos da seleção Sub-16 como técnico convidado da Confederação. Acabei me tornando assistente técnico e acompanhei o grupo, dirigido pelo Flavio Davis, ao Sul-Americano no Equador. Foi uma experiência inesquecível. Quebramos um jejum de cinco anos ganhando da Argentina na final por um ponto. Não gosto de falar que um título foi melhor que outro, mas esse foi o que mais me emocionou. A partir dessa conquista, fui chamado para assumir as seleções masculinas de base e, em 2005, tive a primeira oportunidade como técnico. No ano seguinte, 2006, repetimos a dose: fomos novamente campeões sobre a Argentina.
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Seu novo desafio é levar a seleção masculina Sub-15 ao Sul-Americano, na Venezuela. Como está a preparação do grupo?

Nessa categoria, o Brasil é sempre um dos favoritos em disputas na América do Sul. Temos que usar isso como uma vantagem, um ponto positivo. Apesar de o grupo já ter passado por duas etapas de treinos, estamos tentando aproveitar o máximo já feito e buscando uma interação entre comissão técnica e jogadores. Toda seleção brasileira é uma honra e um desafio. Acredito que, depois de seis anos trabalhando com categorias de base e participando de várias edições do Sul-americano, da Copa América e de Mundiais, me sinto preparado para esse compromisso. Nessa nova formatação da primeira competição (atletas de 15 anos, e não mais de 16), é preciso estar atento às adaptações para a idade em todos os aspectos – físico, técnico, psicológico, tático – e saber que nós vamos para conseguir o título e a classificação para a Copa América. Tão importante quanto a conquista, é formar jogadores para as futuras seleções.

Você também atua no basquete feminino. O que muda?

No basquete feminino, dá-se mais importância aos aspectos técnicos, porque, no masculino, há o fator força que, às vezes, se sobrepõe à técnica. O mais importante em trabalhar nos dois lados é poder observar aquilo que pode ser aproveitado em ambos e o que é mais característico de um ou de outro. Acredito que essa experiência me enriquece como técnico. Durante todos esses anos, pude trabalhar com grandes nomes do basquete brasileiro e esse é o meu maior orgulho.
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Você acaba de voltar da Olimpíada, na China. Fale sobre essa experiência.

Quando você chega no maior evento esportivo do mundo, tem que estar preparado e tentar encarar esse fato com a maior naturalidade. Foi o que eu fiz. Como todos dizem, participar de uma Olimpíada é um sonho de todo profissional do esporte, é uma experiência fantástica. Mas a verdade é que a rotina não muda. Ao mesmo tempo em que o mundo se vira para lá, você continua desenvolvendo o trabalho que sempre fez, continua tendo a mesma postura. Eu sempre me espelhei nas pessoas que, quando subiram de patamar, mantiveram a mesma conduta.

Como foi sua estréia na seleção adulta feminina?

Paralelamente ao trabalho de técnico, desde 2004 me especializo em edição de vídeo. Faço versões reduzidas dos jogos com os momentos mais importantes, dependendo do que se quer observar, e uso os vídeos tanto nos treinos quanto nas clínicas. Em 2006, fui convidado para realizar esse trabalho com a seleção feminina adulta durante o Mundial disputado em São Paulo. Até então, tinha trabalhado com grupos femininos em clubes e colégios, mas não em seleções. Depois do Mundial, fui efetivado como assistente da seleção feminina adulta e tive a oportunidade de participar de todo o clico olímpico, que inclui Mundial, Jogos Pan-Americanos, dois Pré-Olímpicos e Olimpíada.
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E a experiência das Clínicas Técnicas Eletrobrás?

Nas clínicas, o foco é na iniciação do trabalho de base. Desde que comecei a ministrá-las, há três anos, pude perceber dois pontos bastante positivos. O primeiro é poder contribuir com o conhecimento que adquiri até hoje e o outro é a experiência que se ganha. As viagens pelo Brasil me enriqueceram, me fizeram ampliar a visão em relação ao país, entender as diferenças vendo-as de perto, as dificuldades e as necessidades que o esporte atravessa em lugares mais distantes. Atuando nas clínicas, tive a oportunidade de conhecer técnicos, jogadores e profissionais do basquete em outras regiões, o que considero importante para termos uma visão do esporte em todo o país. Acredito que essa iniciativa contribua para o conhecimento e para o desenvolvimento do basquete no Brasil.

Cite alguns dos momentos inesquecíveis da sua carreira.

Foram vários, mas é impossível não citar os títulos. Em 2002, dirigindo o APABA/Santo André ganhei meu primeiro título paulista. Aliás, esse foi um ano muito bom, porque fui campeão paulista, brasileiro e sul-americano (este último como assistente técnico). E, claro, em 2006, o título sul-americano já como técnico da seleção brasileira cadete, em Montevidéu, no Uruguai.
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Quais são os planos para o futuro?

Na minha profissão, sempre tive objetivos, mas nunca gostei de fazer previsões. Procuro valorizar o momento, o que está na minha mão agora. Tento me preparar o melhor possível para as oportunidades que surgem. Esse é um dos meus pontos positivos: estar sempre atento para novos desafios, pois são eles, acredito, que me motivam a continuar crescendo e evoluindo profissionalmente.

O que é preciso para formar bons jogadores no Brasil?

Nós, técnicos e professores, temos que procurar um caminho comum que leve a uma formação cada vez melhor de atletas. Acredito que a formação de jogadores no Brasil deve ser mais unificada, porque nós temos muita qualidade no trabalho, sobre isso não há dúvida. Sinto que precisamos buscar uma identidade no processo de formação. Há sempre o dilema entre vencer e formar jogadores. É preciso valorizar o profissional do esporte que trabalha na formação dos futuros atletas e cidadãos.