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26/08/2008 - José Alves dos Santos Neto

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Aos 37 anos, José Alves dos Santos Neto faz parte da nova geração de técnicos brasileiros que estão ganhando espaço no cenário internacional. Nascido em Itapetininga, na região sudoeste do estado de São Paulo, Neto começou a carreira no basquete no Clube Athlético Paulistano, em 1992. Trabalhou nas escolhinhas, treinou as categorias de base até assumir o comando do time principal. Os bons resultados nos Campeonatos Paulista e Nacional renderam o convite para ser assistente da seleção brasileira adulta masculina, em 2004. Como integrante da comissão técnica, participou dos Sul-Americanos do Brasil (2004) e Venezuela (2006), da Copa América – Pré-Mundial da República Dominicana (2005), do Campeonato Mundial do Japão (2006) e do Pré-Olímpico Mundial de Atenas (2008). Neto também já esteve no comando das seleções brasileiras de base. Dirigiu uma geração de jovens talentos que foi medalha de bronze na Copa América – Pré-Mundial Sub-18 dos Estados Unidos, em 2006, e que foi quarto colocado no Mundial Sub-19 da Sérvia, em 2007. Atualmente, Neto segue como assistente técnico da equipe principal masculina do Brasil, comandada pelo espanhol Moncho Monsalve.

Como começou a carreira?

Eu estava cursando o último ano de Educação Física na USP em 1992, quando fui convidado para ser professor da escolinha de basquete do Paulistano. Trabalhei como técnico e assistente técnico das categorias de base do clube, antes de assumir a equipe adulta em setembro de 2001 para disputar a Divisão Especial do Campeonato Paulista da temporada 2001/2002.
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Você ficou 15 anos no Paulistano. Fale um pouco do trabalho no clube.

No início, o objetivo era permanecer na Divisão Especial do Paulista, já que o investimento era pequeno. Conseguimos alcançar a meta estabelecida e, no ano seguinte, eu e meu assistente Gustavo de Conti fizemos um planejamento mais ousado. Queríamos formar uma equipe para disputar o Campeonato Nacional pela primeira vez na história do clube. Conseguimos a vaga ao terminar em quinto lugar no Estadual, além de lançar o jovem armador Marcelo Huertas no cenário nacional. Outros objetivos também foram atingidos. Fizemos a semifinal do Paulista na temporada 2003/2004 e fomos vice-campeões em 2004/2005. Após 18 anos, recolocamos uma equipe da capital paulista numa final. Além disso, firmamos o basquete no clube, atingindo o principal objetivo que era usar a categoria adulta como espelho para a base, que hoje está em todas as finais das competições que disputa.

Por que escolheu o basquete?

Escolhi a modalidade por ter jogado, de forma modesta, mas o suficiente para seguir trabalhando com o basquete. O Paulistano só tinha times masculinos disputando os estaduais e seguir treinando equipes masculinas foi um caminho natural. Acredito que possa haver perfeitamente um intercâmbio do masculino e feminino, pois o conceito de basquete é o mesmo, necessitando apenas adaptar algumas situações para as exigências específicas do gênero.
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Como é a experiência de trabalhar com o técnico Moncho Monsalve?

Acima de sermos grandes profissionalmente, temos que ser grandes pessoas. O Moncho é uma excelente pessoa, que respeita muito o trabalho coletivo dentro e fora de quadra. Isso faz com que o comprometimento e a responsabilidade aumentem. Ele é um profissional exigente e detalhista, que trabalha com conceitos de jogo ofensivo e defensivo como o resto do mundo. Os movimentos ofensivos são utilizados para ativar os conceitos, como por exemplo, uma bola quando chega ao pivô em poste baixo e o deslocamento dos demais jogadores a partir deste momento. O mesmo acontece com o posicionamento dos jogadores com a rotação defensiva determinando a ajuda dos outros jogadores em cada situação. Ele gosta de trabalhar com variações defensivas, tendo como base a defesa individual. Isso fez com que ficasse bem claro que o mais importante não é O QUE fazer, mas POR QUE, PARA QUE e QUANDO fazer.

Existe muita diferença da escola espanhola para a brasileira?

Atualmente, o Brasil não tem um conceito de jogo estabelecido. Usamos os estilos europeus e americanos (que são completamente diferentes) como suporte para o trabalho dos técnicos. A escola espanhola, assim como a maioria dos europeus, é centrada em um jogo mais coletivo, de controle, buscando finalizar na situação de menor risco para a equipe. Defensivamente, podemos ver nas equipes espanholas uma aplicação constante do fundamento individual (posicionamento e deslocamento nesta posição) em qualquer um dos sistemas defensivos (individual, zona, mista, combinada ou pressão). Acredito que com o Curso Nacional de Treinadores, que surgirá em breve, poderemos ter um padrão para trabalharmos em prol do bem comum, que é o basquete brasileiro.
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Você vai fazer intercâmbio na Espanha?

Neste tempo que trabalhei com o Moncho, tivemos várias conversas sobre a capacitação de técnicos. E ele, como um dos principais instrutores do Curso Nacional de Treinadores da Federação Espanhola, me convidou para fazer o curso de nível superior na Espanha, que é direcionado para técnicos que querem obter a máxima titulação oficial do basquete espanhol. Nele se desenvolvem aspectos específicos e com um grau elevado de execução, o que faz deste curso uma das melhores experiências formativas que um treinador pode ter.

De que maneira você vê a evolução do basquete masculino no mundo?

O basquete masculino no mundo está evoluindo muito rápido. Isto pode ser observado ano a ano ou de uma competição para outra. A participação de jogadores no universitário americano, na NBA, e em grandes equipes européias, traz para seus países e seleções muitos benefícios. No momento, acho que o basquete tem muitos times entre os melhores do mundo.

Que equipes você destacaria atualmente no cenário internacional?

Os americanos, quando conseguem usar suas qualidades individuais em prol da equipe, são praticamente imbatíveis, como vimos agora na Olimpíada de Pequim. Espanha, Argentina, Grécia, Lituânia, Croácia, Rússia e Eslovênia também possuem um basquete muito forte. Mesmo um pouco mais atrás, Alemanha, Austrália, Porto Rico, Brasil e China têm condições de vencer as equipes citadas anteriormente. Seleções que estão chegando e podem surpreender: França, Sérvia, Turquia e Itália. Todas estão passando por um processo de renovação. Outros países também vêm trabalhando para chegar num nível mais elevado, como Angola, Coréia, Canadá e Camarões. As duas últimas têm muitos atletas atuando no basquete universitário americano.

E o basquete no Brasil?

É um momento de união. Acredito que tudo é uma grande engrenagem e para que tenha um bom funcionamento todas as partes precisam estar sincronizadas. Governo, dirigentes (de todos os níveis), atletas, técnicos e profissionais do esporte precisam estar em sintonia para que o produto seja benéfico pra todos. Acho fundamental a criação do Curso Nacional de Treinadores, um projeto que está bem próximo de ser concretizado. Temos excelentes jogadores nas categorias de base. Muitos deles são procurados para jogar em grandes clubes europeus. A Europa é vantajosa, porque tem várias competições de alto nível anualmente, desde a categoria Sub-16 a Sub-20 e com várias divisões, o que não acontece em outros continentes. Não basta estarmos no caminho certo, temos que trilhar nele para que possamos chegar aos objetivos propostos.
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Você foi quarto do mundo com a seleção brasileira Sub-19 em 2007, na Sérvia. Que análise você faz dessa geração?

Essa geração se preparou por quase quatro anos para o Campeonato Mundial. Disputamos o Sul-Americano Cadete em 2004, o Sul-Americano Juvenil em 2005, a Copa América – Pré-Mundial em 2006, em que ganhamos a medalha de bronze e a vaga para o Mundial da Sérvia no ano seguinte. Entre a Copa América e o Mundial, a comissão técnica das seleções adulta e juvenil trabalharam juntas para planejar e realizar cinco etapas de treinamento e amistosos internacionais contra os Estados Unidos, além da preparação com a equipe adulta brasileira. Se perguntássemos antes do nosso embarque para a Sérvia se poderíamos ser campeões num torneio com Argentina, Espanha, Lituânia, Canadá, Turquia e Austrália, muitos achariam impossível. E o Brasil terminou na frente de todos esses países no Mundial. Talvez isso possa servir como estímulo para planejar, investir e trabalhar com as categorias de base no Brasil.

Como foi a caminhada até ficar entre os quatro primeiros?

Quando chegamos na Sérvia para o Mundial Sub-19, sabíamos que seria duríssimo. Na fase de classificação, estávamos no grupo com França e Lituânia, que eram os atuais campeões e vices da Europa, respectivamente. Nas oitavas-de-final, cruzamos com Sérvia, país sede, Estados Unidos, campeão das Américas, e China, campeã asiática. A vitória sobre a Lituânia e China e depois nas quartas-de-final sobre a Austrália, que defendia o título mundial e estava invicta na competição, foram fundamentais para ficarmos entre os melhores do mundo.

Como você analisa o nível técnico das outras seleções nas categorias de base?

Eu acredito muito na continuidade do trabalho, pois numa modalidade como o basquete o que prevalece é o coletivo. As equipes européias têm uma seqüência de trabalho, pois a FIBA Europa promove Campeonatos das categorias de base anualmente, envolvendo jogadores dos 16 aos 20 anos. Isso facilita a implementação dos conceitos de jogo, avaliação de uma geração a longo prazo e, dessa forma, dificilmente os jogadores talentosos se perdem, chegando na seleção adulta já com experiência.