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28/09/2007 - João Nunes

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João Nunes, de 36 anos, é o preparador físico da seleção brasileira feminina adulta e coordena esse setor nas categorias de base da Confederação Brasileira de Basketball (CBB). Membro da comissão técnica brasileira desde 1997, ele desenvolve uma filosofia de trabalho e acompanhamento das atletas da seleção cadete à adulta. Doutorando em Treinamento Desportivo da USP, João afirma que o Brasil é um dos destaques mundiais em preparação física. O país conta com grandes pólos de pesquisa nesse setor e profissionais extremamente capacitados, que trabalham constantemente para melhorar o rendimento dos nossos atletas.
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Explique o papel da preparação física no esporte de alto rendimento?

O primeiro objetivo do treino desportivo é compreender que o treinamento é a união entre as partes física, técnica, tática e motivacional. Dentro dessa filosofia, a preparação física dá o suporte para as ações técnicas e, consequentemente, para as táticas. Isso vale para todas as categorias. Assim, deve se compreender dois princípios: o da individualidade biológica, ou seja, as características e respostas de cada um ao treinamento e a especificidade do esporte, no caso o basquete.

Quais são essas especificidades do basquete?

O objetivo final do basquete é colocar a bola na cesta. Na preparação temos que desenvolver os movimentos que ajudem o atleta a jogar. Trabalhamos as ações motoras específicas da modalidade. E acima de tudo, o basquete é um esporte coletivo e tudo tem que estar voltado para o fator grupo. A adaptação da atleta ao meio e à equipe é determinante para o rendimento.
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Fale sobre as necessidades específicas das posições em quadra.

A armadora, que trota mais e puxa as jogadas do time, precisa de um trabalho mais aeróbio. As pivôs têm mais necessidade de desenvolver a capacidade de força, por conta do jogo de contato embaixo do garrafão. E a função exercida pelas laterais requer mais velocidade, pois elas puxam o contra-ataque do time, têm mais explosão.

Qual a importância da musculação para o atleta?

A musculação é mais utilizada para quem quer ganhar massa e não é atleta. Em treinamento desportivo, o termo mais correto é treino de força. Esse trabalho serve para dar subsídios para que o atleta possa executar bem todas as ações técnicas com alto nível de performance. É pré-requisito para desenvolver também a velocidade, que é a principal capacidade física exigida no basquete.

E atleta gosta de malhar?

Independente de gostar ou não, a atleta entende que é bom para ela, pois aumenta a performance e diminui o risco de lesões. Quando ela se conscientiza da importância desses treinos de força para o rendimento esportivo, passa a se dedicar e gostar.

E como ocorre a preparação física de uma seleção, em que as atletas chegam de clubes e lugares tão diferentes?

A grande sacada da preparação num esporte coletivo é deixar a equipe em um nível muito bom. É mentira dizer que todos os atletas estão no mesmo nível. Temos que montar um time bem preparado, atendendo à necessidade de cada atleta e de sua função em quadra.
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E como se dá a preparação física para um campeonato específíco?

O primeiro fator a considerar é o tempo da competição. Em um Mundial ou Olimpíada, que duram mais tempo, há folgas entre os jogos e a equipe deve evoluir fisicamente durante as partidas. Já em um torneio curto, como o Pré-Olímpico ou Copa América, isso não é possivel. O grupo tem que estar totalmente pronto, em todos os aspectos, para o início do campeonato.

É feito algum acompanhamento depois que termina a temporada de seleção brasileira?

Sim. Estabelecemos contato constante com as atletas em seus clubes, no Brasil e no exterior, para tentar controlar o máximo possível o seu condicionamento físico. Se houver alguma mudança significativa e nós não pudermos intervir por não sermos do clube da atleta, pelo menos sabemos o que está acontecendo e temos conhecimento sobre em que ponto ela está. Eu fico diariamente entre 23h e uma hora da manhã, a disposição na internet. E entramos em contato também por telefone e e-mail sempre que necessário.
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Como é a relação do preparador físico com o técnico?

A comissão técnica tem que estar em total harmonia e integração para atender às necessidades da equipe. Como já disse, o treinamento é a união de vários aspectos. Na seleção feminina, tudo é decidido em conjunto, em parceira com o preparador físico, como corte, entrada da jogadora na partida, tempo que ela permanece em quadra etc.

Como está a qualidade da preparação física no Brasil?

No Brasil, especialmente em treinamento de esporte coletivo, a qualidade da preparação física é uma das melhores do mundo, mesmo não contando com recursos que outros países possuem. Mas em relação a capacitação profissional estamos muito adiantados. Temos profissionais renomados internacionalmente. E, pelo que as atletas relatam, a preparação física aqui é superior a de muitos países. Temos importantes pólos de pesquisa no Brasil, como a USP e Unicamp, que desenvolvem trabalhos fundamentais nesse setor.

E como a tecnologia ajuda nessa área?

O treinamento desportivo é composto de várias ciências que dão suporte ao trabalho, como a Medicina, Cinesiologia (estudo do movimento), Nutrição, Biomecânica, Pedagogia e Psicologia do Esporte. A partir da evolução dessas áreas, o profissional atualizado ganha cada vez mais recursos para avaliar, monitorar e desenvolver a capacidade do atleta. Ele acompanha o rendimento e trabalha para aumentar a performance, a que chamamos de índice de eficiência.

Você é o coordenador da preparação física nas categorias de base. Como funciona esse trabalho?

O mais importante na categoria de base é entender que se trata de um processo de formação da atleta. É trabalhar a longo prazo para formar um bom jogador de alto rendimento na categoria adulta. Nas seleções brasileiras desenvolvemos a mesma filosofia em todas as categorias, mantendo um contínuo processo de análise e acompanhamento da jogadora até a equipe adulta. Temos que desenvolver os atletas na sua totalidade, englobando os aspectos cognitivo, sócio-afetivo e motor. Esse grupo atual, que disputa o Pré-Olímpico reúne a geração com que estamos trabalhando desde as categorias de base.