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17/08/2006 - Luiz Cláudio Menon

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Aos 62 anos, Luiz Cláudio Menon, ex-jogador da seleção masculina adulta, se lembra com alegria dos tempos de atleta, quando os treinos e jogos dividiam espaço com livros e plantões da Faculdade de Medicina. Nos dez anos que defendeu a camisa verde-amarela, Menon construiu um currículo invejável. O ala/pivô foi campeão do Mundial do Brasil (1963), medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de São Paulo (Brasil - 1963), medalha de bronze no Mundial do Uruguai (1967), vice-campeão do Mundial da Iugoslávia (1970) e campeão dos Jogos Pan-Americanos de Cali (Colômbia - 1971). Mas para Menon, a maior conquista de sua carreira supera todas as medalhas: ter sido o porta-bandeira brasileiro nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, umas das maiores honras que um atleta pode receber. Com 1,98m e uma agilidade incomum para pivôs na época, Menon marcou 664 pontos em 50 partidas pela seleção em competições oficiais. Em clubes, começou nas categorias de base do Palmeiras e logo depois se transferiu para o Sírio, onde ficou até o fim de sua carreira. Tanta dedicação ao time rendeu a Menon um lugar na galeria de dos imortais do clube. Homenagem que não imaginava receber quando descobriu o basquete, arremessando bolinhas de papel em um balde de plástico, que se transformava em cesta. Hoje, médico endocrinologista, especializado em Medicina tradicional chinesa, Menon acompanha com entusiasmo a nova geração do basquete brasileiro.

Fale um pouco de sua trajetória no basquete.

Comecei por acaso, na juventude. Eu brincava no quintal de casa arremessando bolinha de papel em uma cesta feita com balde de plástico, sonhando em jogar com grandes atletas como Wlamir, Sucar, Rosa Branca. Depois de um ano e meio no juvenil do Palmeiras, fui convocado pela primeira vez para a seleção adulta em 1962, e nunca fui cortado, tenho um grande orgulho disso. Depois de chegar à equipe principal, minha meta foi fazer parte do time titular e ter mais tempo de jogo, o que consegui mesmo a partir de 1965. Minha responsabilidade foi aumentando e meu jogo evoluindo. Fui cestinha do Brasil no Pan-Americano de Winnipeg (1967) e no Mundial do Uruguai (1970). Jogava com um grupo extraordinário. Todos faziam o melhor em quadra. Em clubes, saí do juvenil do Palmeiras e fui para o Sírio, onde fiquei até o fim da minha carreira.

Como foi conciliar o esporte com a Faculdade de Medicina?

Difícil, mas consegui equilibrar as duas coisas. Entrei para Faculdade de Medicina em 1965, e o esporte funcionava como higiene mental para os estudos e vice-versa. No começo, foi muito complicado. Quando eu consegui encarar as duas rotinas com tranqüilidade, meu jogo evoluiu. Comecei a participar mais dos jogos e me tornei titular nas competições. Depois que me formei ficou mais difícil ainda, devido aos intensos plantões da residência. Em 1974, com trinta anos, resolvi me dedicar exclusivamente à medicina.
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O que significou a conquista do mundial do Brasil, em 1963?

No Mundial de 63, eu era um garoto de 19 anos. Estava realizando o grande sonho de jogar entre ídolos como Wlamir Marques, Rosa Branca, Sucar. Joguei pouco, mas só de estar ali já era uma conquista enorme. Me lembro do Ibirapuera lotado e todos gritando o nosso nome. Uns dois meses antes, perdemos para os americanos a medalha de ouro no Pan-Americano de São Paulo e decidir o título mundial contra eles era uma revanche incrível. Na final, a equipe que estava em quadra começou a fazer muitas faltas e ficava rezando para não ter que entrar no lugar de alguém. É até engraçado porque depois que amadureci, queria ser titular, lógico. Para um menino como eu, foi excepcional. Desfilamos em carro aberto, recebemos diversas homenagens, foi sensacional.

Qual foi a maior emoção da sua carreira como jogador?

Sem dúvida ter sido escolhido para porta-bandeira do Brasil nos Jogos Olímpicos de Munique (1972) foi a maior honra da minha carreira de atleta. A cada Olimpíada, a imprensa resgata os portas-bandeira das edições anteriores e eu estou lá. Fico muito orgulhoso de ver meu nome cravado na história do esporte.

E como foi essa experiência?

Fantástica. O presidente do COB me chamou para me dar a notícia, dizendo que havia sido uma escolha unânime do Comitê. Não só pela minha trajetória como atleta, mas porque eu sabia o valor de carregar a bandeira do meu país. No ensaio, com o ginásio olímpico de Munique vazio e só eu desfilando, já chorei muito. Voltei à Munique a passeio exatos 30 anos depois e quando passei por lá toda aquela emoção veio à tona novamente. É realmente uma alegria indescritível.

O que faz atualmente?

Continuo trabalhando como médico endocrinologista, no meu consultório e em hospital. Além disso, há 20 anos estudo medicina tradicional chinesa. A filosofia oriental tem muito a nos ensinar. Hoje, 70% do meu trabalho é baseado na saúde preventiva e na acupuntura.

O que você acha da nova geração do basquete brasileiro?

Tento acompanhar o basquete atual o máximo que posso, dentro da minha rotina atribulada de médico. Lógico que este ano, por ter mundial, fico mais atento. Gostei muito do que vi até agora. O jogador brasileiro aprendeu a defender bem, o que faltava no meu tempo. Acho que o intercambio que os atletas fazem jogando na Europa e nos Estados Unidos trouxe um benefício enorme, principalmente quanto à marcação.
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Quais suas expectativas para o Mundial do Japão?

Acho que temos talento para fazer um excelente campeonato. O técnico Lula conta com excelentes jogadores como Leandrinho, Alex, Guilherme, Tiago Splitter, Anderson Varejão, de quem eu gosto muito, pois é um pivô alto e com uma agilidade impressionante. A grande revelação foi o Marcelinho Huertas, que evoluiu bastante em pouco tempo. Fiquei impressionado. Tudo isso me deixa otimista em relação ao Mundial.
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E sobre o Mundial Feminino, em setembro, no Brasil?

Tenho certeza que será fantástico. O povo paulista adora basquete e vai prestigiar as nossas meninas, que vão ter a emoção que tive em 1963. O Brasil é uma das maiores forças do basquete feminino mundial e acho que tem grandes chances de disputar a final. As jogadoras que mais me chamam a atenção são Helen e Iziane. Gosto de armadores, admiro muito quem tem a função de organizar as jogadas em quadra.

Deixe uma mensagem para os iniciantes no basquete:

Sejam persistentes. Dediquem-se ao esporte sem deixar os estudos de lado. Estudar enriquece culturalmente e abre novas possibilidades profissionais. Eu sou um exemplo de que é possível equilibrar as duas coisas. Durante a minha melhor fase no basquete, eu também cursava a faculdade de medicina.