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28/03/2006 - Nilza Monte Garcia

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“Mistura de Gérson, Rivelino e Pelé. Eis a nossa Nilza”. Essa manchete de jornal de 1971, durante o Mundial do Brasil, descreve o talento da pivô Nilza Garcia, um dos grandes nomes do basquete feminino brasileiro. Nilza é a sétima maior cestinha da seleção feminina. Essa paulistana do bairro do Ipiranga teve várias conquistas na seleção, entre eles o vice-campeonato do Mundial do Brasil (1971), as medalhas de ouro dos Jogos Pan-Americanos (Winnipeg-1967 e Cali-1971) e o tricampeonato sul-americano (Chile-1968, Equador-1970 e Bolívia-1974). Aos 63 anos, Nilza, que é formada em Educação Física, Pedagogia e Psicologia não para. Trabalha até hoje como professora universitária unindo duas de suas grandes paixões: a Educação Física e a Pedagogia.

Você é a sétima cestinha da história da seleção brasileira e faz parte de uma geração vitoriosa do basquete feminino. O que isso representa na sua vida?

Tenho muito orgulho de ter servido ao basquete. A minha geração abriu muitas portas para o basquete feminino. Foi uma época agitada, ocupada e muito feliz. As lembranças que ficam são as amizades, as viagens e as conquistas. Era uma época de muito patriotismo. Apesar de sermos muito responsáveis com o esporte, o basquete para nós não era profissão, era uma recreação, que nos dava a honra de representar o nosso país e conhecer diferentes países e pessoas.

Como era o seu dia-a-dia como jogadora?

Eu vivia numa correria só. Todas nós estudávamos e trabalhávamos. Eu dividia os treinos com os estudos. Ia para o clube e para seleção carregada de livros. Era muito dedicada como atleta e como estudante. Em 1967, não fui ao Sul-Americano da Colômbia para não perder o período de provas na faculdade.
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E a rotina nas viagens com a seleção?

Lembrar das viagens nos traz lembranças muito divertidas. A gente ficava geralmente em alojamentos e para passar o tempo, sempre inventávamos várias brincadeiras. Era guerra de travesseiro, de pasta de dente e mesmo sendo muito responsáveis, sempre arrumávamos um jeito de dar uma escapadinha, principalmente no exterior, para conhecer os lugares. O chefe da delegação, Ivan Raposo, ficava louco, mas o técnico sempre sabia onde a gente estava.

Conte como foi uma dessas “escapadinhas”?

Uma vez fomos a França fazer uns jogos amistosos. Em Paris, não resistimos a dar uma fugidinha para conhecer a cidade, os bares, as boates, e encontramos o Cônsul do Brasil na França, com a esposa. Ele disse que estava triste em ver atletas curtindo a noite. Eu respondi: “O senhor está triste, mas vai acordar amanhã em Paris, e nós não”. Era Paris, ora. Quem ia ficar dormindo e perder a chance de conhecer um dos lugares mais famosos do mundo?
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Qual o momento mais inesquecível da sua carreira?

Foram muitos, com certeza, mas um dos mais emocionantes, foi, sem dúvida, o Mundial do Brasil, em 1971. O Ibirapuera estava sempre lotado, conquistamos a medalha de bronze e mostramos o nosso talento para o mundo. Para mim foi muito bom, pois fui a cestinha do Brasil na competição e fui eleita para a seleção do campeonato, junto com duas russas, uma japonesa e uma francesa. Guardo até hoje uma reportagem da época, cuja manchete era “Mistura de Gérson, Rivelino e Pelé. Eis a nossa Nilza”. Esse tipo de lembrança é que fica para sempre na nossa vida e faz tudo ter valido a pena.

E a cesta mais emocionante?

Essa é fácil. Foi contra o Japão, no Mundial do Brasil, em 71. Estávamos perdendo e fiz a cesta da vitória no último, fechando em 77 a 76. Um dos meus maiores orgulhos foi ter ajudado o Brasil naquela partida.

Ser atleta naquela época não era nada fácil. Você teve o apoio da sua família na sua carreira?

Realmente a maioria das famílias não via com bons olhos a vida de atleta, pois era muito agitada e não dava retorno financeiro. Mas eu contei com o apoio da minha família, principalmente do meu pai. Ele foi goleiro e não conseguiu seguir carreira no esporte e então passou a compartilhar dos meus sonhos no basquete. Quando eu fui jogar no Corinthians, então, ele adorou. Já minha mãe tinha muito medo que eu me machucasse, mas depois ela se acostumou e me ajudou bastante.
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O que você faz atualmente?

Sou aposentada, mas não consegui ficar parada. Trabalho na Faculdade de Educação Física da UNIFMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), como professora e supervisora de estágio escolar. Leciono matérias relacionadas à parte pedagógica da Educação Física. Sempre tive uma vida muito ocupada e nunca fiquei parada, sempre me dediquei aos Estudos relacionados à Educação e ao Esporte. Sou professora e me graduei em três carreiras: Educação Física, Psicologia e Pedagogia e fiz Pós Graduação em Educação Física Escolar.

Qual a sua expectativa para o Mundial do Brasil em setembro?

Acredito que podemos subir ao pódio do Ibirapuera mais uma vez. A nova geração verá o quanto é maravilhoso disputar um Mundial em casa. Sinceramente, não tenho tido tempo para acompanhar o basquete atualmente, mas sei que temos grandes talentos que têm todas as condições de fazer um excelente campeonato.