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10/02/2006 - Norma Pinto de Oliveira

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Considerada uma das melhores jogadoras de todos os tempos, Norma Pinto de Oliveira é um dos grandes destaques do basquete feminino brasileiro. Norminha, como é conhecida, nasceu na Argentina mas veio para o Brasil com treze anos onde descobriu o prazer do esporte. Se naturalizou brasileira para poder jogar na seleção. A armadora, de 63 anos, fez parte, junto com nomes como Maria Helena, Heleninha, Nilza, Marlene entre outras, de uma vitoriosa geração do basquete do Brasil. Entre suas principais conquistas estão seis títulos sul-americanos (Brasil - 1965, Colômbia - 1967, Chile - 1968, Equador - 1970, Peru - 1972 e Bolívia - 1974), medalha de prata nos Jogos Pan-Americanos de São Paulo (Brasil - 1963), medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos (Winnipeg-1967 e Cali – 1971), 5º lugar no Mundial do Peru (1964), medalha de bronze no Mundial do Brasil (1971) e 4º lugar nos Jogos Pan-Americanos da Cidade do México (México - 1975). Ao todo, Norminha participou de oito sul-americanos, quatro Jogos Pan-Americanos e quatro Mundiais em 20 anos de seleção brasileira. Com tantas conquistas no currículo e dona de um talento incomparável, Norminha foi considerada em uma eleição internacional realizada em 2000, uma das cinco melhores jogadoras do século.
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Quais as diferenças do basquete da sua época e a atual?

A grande diferença era que na minha época o basquete não era profissional como hoje, não ganhávamos dinheiro com o esporte, nem no clube nem na seleção. O clube ajudava com moradia, comida, mas não tinha salário não. A maioria, como eu, dividia o tempo com os treinos, faculdade e trabalho. O basquete feminino não era muito conhecido e tínhamos muita dificuldade para viajar. Algumas atletas praticavam mais de um esporte ao mesmo tempo. A Marly, por exemplo, fazia basquete e vôlei e era titular nas duas seleções. Ela ia de um treino para o outro. Uma loucura.

O jogo em si, também mudou muito?

Demais. As regras de basquete estão sempre mudando para ficar cada vez mais dinâmico. Quando comecei, não havia, por exemplo, tempo de posse de bola, que depois passou a ser de 30 segundos. A partir daí, os placares ficaram mais altos e o jogo mais emocionante. E foi assim com várias alterações, como a cesta de três pontos, entre outras. Isso tudo para deixar o jogo cada vez mais bonito.
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Como era a seleção brasileira naquele tempo ?

Os times femininos de basquete no Brasil eram bem diferentes dos de hoje, a estatura era bem menor. As mais altas da minha geração eram a Nilza, com 1,82m e a Marlene, com 1,81m. As armadoras eram bem baixinhas comparando com as atuais. A gente enfrentava as gigantes russas, americanas, tchecas, era até engraçado. Nós tínhamos uma velocidade impressionante e muita resistência física. O que era interessante, porque na época não tínhamos acesso à preparação como agora, nem uma equipe técnica com, fisioterapeuta, preparador físico, enfim, uma estrutura grande. Como eu tinha o melhor condicionamento físico da equipe, as outras jogadoras repetiam os exercícios que eu fazia.

Você fez parte de uma geração de ouro da seleção brasileira. Fale um pouco sobre essa trajetória.

Fui convocada pela primeira vez para a seleção com 17 anos, na preparação para o Pan-Americano de Chicago, em 1959. Eu só treinei, pois, além de muito nova, ainda não tinha a cidadania brasileira. A Confederação batalhou muito pela minha naturalização e no ano seguinte, fui para o Sul-Americano do Chile. Entrei no segundo jogo e nunca mais saí, só não jogava em caso de contusão. Foram quinze anos jogando com uma equipe ótima, os técnicos mudavam e a gente permanecia. Conquistamos seis títulos sul-americanos, o bicampeonato pan-americano e a medalha de bronze no Mundial do Brasil, em 1971. Foi uma geração realmente vencedora, representamos muito bem o Brasil no basquete numa época em que o país comemorava os títulos da Copa do Mundo. Tivemos participação importante no fortalecimento do basquete feminino no mundo. Depois de vencer o Pan-Americano de 1967, fizemos partidas com a seleção tcheca a convite da FIBA para que avaliasse a inclusão da modalidade na Olimpíada, o que aconteceu em 1976. Isso mostra o prestígio que tínhamos na época.
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Quais os momentos mais emocionantes de sua carreira?

Acho que a grande conquista da minha geração foi o bicampeonato pan-americano, em 1967, em Winnipeg, e em 1971, em Cali. O segundo título então foi sensacional, pois o masculino também venceu. Foi a glória para o nosso país. O Pan era uma competição muito difícil e desgastante, era turno e returno e enfrentávamos equipes altas como Estados Unidos, Canadá e Cuba, além da Venezuela, que tinha um bom time na época. A medalha de bronze no Mundial do Brasil, em 1971 também foi inesquecível.
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Como foi disputar o Mundial do Brasil, em 1971?

Sensacional. O basquete feminino não era muito reconhecido e apenas um canal de TV, a Gazeta, se interessou em transmitir. O campeonato foi um sucesso, ginásio lotado todas as partidas, fomos vencendo os jogos e avançando na competição. Os canais de televisão acabaram comprando os direitos da Gazeta, que ganhou a maior grana e até trocou os equipamentos. A gente não estava acostumada com público. Na estréia contra França, eu vi o ginásio lotado e fiquei morrendo de vergonha de jogar na frente de tantas pessoas. Era fantástico ouvir os torcedores gritando e cantando a música da Copa do Mundo de 70, que tinha sido meses antes. A disputa da medalha foi maravilhosa. Quinze mil expectadores lotaram o Ibirapuera e cinco mil ficaram do lado de fora.
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Na sua opinião, quais as chances do Brasil no Mundial deste ano, em São Paulo e em Barueri?

A seleção ficou em uma chave relativamente fácil, mas o cruzamento das próximas fases pode ser complicado. Acredito que, com uma boa preparação, a equipe pode se superar, fazer bonito na competição e subir ao pódio no Ibirapuera mais uma vez. O povo paulista gosta demais de basquete e com certeza vai prestigiar a competição, incentivando crianças e jovens a gostarem ainda mais do esporte.
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O que o basquete significa na sua vida?

Muita alegria. O basquete só não me deu dinheiro. Mas as emoções e conquistas que tive não têm preço. Conheci o mundo, fiz amizades importantíssimas e ajudei a abrir portas para o basquete feminino no Brasil, e até no mundo. Não tem felicidade maior do que subir em um pódio e ouvir o hino do seu país, a torcida gritando o seu nome. Apesar do Brasil não ter muita memória, eu recebo algumas demonstrações de carinho que me deixam muito orgulhosas. Quando fui eleita, em 2000, uma das cinco melhores jogadoras do século recebi uma série de homenagens do Mackenzie, onde joguei, da FMU, faculdade onde trabalho, da Confederação de Basquete, entre outras e isso me enche de satisfação.

Você trabalha com basquete até hoje. Quais são as suas atividades atuais?

Eu estou aposentada, mas não parei de trabalhar, muito menos de me dedicar ao esporte e à educação. Sou professora do Curso de Educação Física da UNIFMU (Faculdades Metropolitanas Unidas), onde também faço assessoria pedagógica na área de Educação Física. Sempre fui muito dinâmica e gosto de praticar atividades físicas, acho que vai ser difícil parar.