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12/08/2004 - Rafael Paulo de Lara Araújo

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Após quatro anos nos Estados Unidos, Rafael Paulo de Lara Araújo, o Baby, comemora sua ida para a NBA. O pivô de 2,11m foi escolhido na primeira rodada do Draft pelo Toronto Raptors, do Canadá. Rafael Baby impressiona com os números obtidos na última temporada pelo Brigham Young University. Foram 16 double-doubles (dois dígitos em dois fundamentos) e uma média de 18.4 pontos e 10.1 rebotes por partida, sendo o 11º no país. Baby ainda bateu o recorde de sua carreira ao marcar 32 pontos e 17 rebotes em um jogo. Na temporada 2002/2003, o pivô foi o segundo colocado da sua conferência nos rebotes com média de 8.9 e anotou oito double-doubles. Pelo Arizona Western, teve média de 17.9 pontos e 10.7 rebotes em 2001/2002, ficando entre os dez melhores. Na mesma temporada, o atleta foi eleito o MVP regional e integrou o time da conferência Mountain West. O jogador ainda recebeu a Menção Honrosa da Associated Press All-America. Baby estreou na seleção brasileira em 2000, quando foi vice-campeão sul-americano Sub-21. Na categoria adulta Baby participou do Campeonato Mundial de Indianápolis (2002). Nesta entrevista, o jogador fala sobre a sua trajetória no esporte e a expectativa de jogar no melhor campeonato de basquete do mundo.

Como começou sua carreira?

Comecei a jogar basquete em São Paulo, no Corinthians, e a minha família sempre me incentivou muito. Tive passagens por Bauru, São José do Rio Preto, Ypiranga e Paulistano, ainda juvenil. Em 2000, fui jogar em Santa Cruz do Sul (RS), no Corinthians. Fui convocado para as seleções brasileiras juvenil, Sub-21 e principal antes de vir para os Estados Unidos.

Por que escolheu o basquete?

Desde pequeno eu queria ser jogador de basquete. É claro que ser bem maior do que os meus colegas de colégio ajudou a estar mais perto de realizar esse sonho. Sempre fui o maior da turma, e isso me fez seguir esse caminho de forma natural.

E o apelido Baby?

Surgiu meio que por acaso, quando eu jogava no Corinthians, em São Paulo. Eu tinha uns 15 anos e um técnico, que não me lembro o nome, começou a me chamar de “Baby” logo no primeiro dia. Ele falou que eu era grandão, mas tinha cara de criança. Meus companheiros de treino começaram a me chamar assim também e o apelido pegou.
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Como foi a mudança para os Estados Unidos?

Eu estava no Corinthians, de Santa Cruz do Sul, e nem pensava na possibilidade de vir para os Estados Unidos. Lá jogava com o armador Walter Roese e acabamos ficando muito amigos. Ele é bem mais velho do que eu, mas foi um cara muito importante na minha vida. Foi ele quem me mostrou como seria bom jogar nos Estados Unidos. O Roese me indicou para um Junior College para que, primeiro pudesse aprender um idioma, e depois tentasse seguir carreira. No final do primeiro ano comecei a ser recrutado por algumas universidades, mas, desde o início, gostei da Brigham Young University (BYU), que é conceituada e forte em esportes. Me formei em Recreation Manager (Administração de Recreação e Lazer) e muito do que tem acontecido de bom comigo é por “culpa” do Roese, que é o atual diretor de basquete da BYU e quem me aconselhou em muita coisa. Desde a minha saída do Brasil, queria poder estudar e jogar basquete. Fui mais além, não só me formei e consegui sucesso no basquete, como também consegui uma outra vitória, a maior da minha vida até agora, que foi me casar e ser pai. Fiz um planejamento de quatro anos e tenho certeza de que foi a melhor decisão que podia ter tomado. Tudo isso só foi possível porque tive amigos e pessoas em quem confio ao meu lado. Talvez, se tivesse permanecido no Brasil, poderia ter tido uma oportunidade de entrar na NBA, como Nenê, Leandrinho e Alex tiveram, mas esses quatro anos aqui nos Estados Unidos me ajudaram muito a crescer como jogador e como homem.

E a adaptação ao estilo de vida americano?

Não foi muito difícil me adaptar, nem mesmo a questão da língua, que eu acabei aprendendo bem rápido. Nada foi mais complicado do que a saudade da família. Muitas vezes eu me sentia sozinho, ficava triste, mas não me arrependo de nada, faria tudo de novo e estou feliz de ver meus sonhos se realizando. A vida aqui é muito boa, não posso reclamar. Fui muito bem recebido por todos quando cheguei. Tive a oportunidade que não estava tendo no Brasil. Estava difícil conciliar o basquete e o estudo, e financeiramente também não estava sendo bom para mim. Confiei no meu potencial e resolvi arriscar.

Quais foram as maiores dificuldades que você enfrentou quando chegou?

Acho que a comida e o estilo de jogo universitário. A comida é bem diferente e isso foi uma coisa que eu custei um pouco a me acostumar, assim como o estilo de jogo, que é completamente diferente do brasileiro. Além disso, tinha o idioma, mas a adaptação foi mais fácil, e a saudade da família, que até hoje ainda é muito grande. Matei um pouco a saudade na semana do Draft, quando meus pais vieram me visitar, e agora vou passar uns dias no Brasil com eles.
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Fale um pouco da diferença entre o basquete brasileiro e o universitário americano?

Cada um tem suas características, são dois estilos diferentes, mas tanto o universitário quanto o brasileiro são bem competitivos. Acho que a maior diferença é em termos de calendário e estrutura. No universitário a temporada é mais curta e, só para se ter uma idéia, a BYU fretou um avião para que a equipe pudesse viajar. É uma estrutura incrível, que movimenta muitos empregos e muito dinheiro. No campeonato brasileiro temos bons técnicos e jogadores com muito potencial. Em termos de basquete, acho que o universitário e o Brasil são competições de alto nível. Cada um muito bom ao seu jeito, mas a maior diferença fica na condição financeira de cada um.

Depois de se destacar no basquete universitário, você esperava ser draftado tão rápido?

Tudo o que aconteceu foi fruto de um planejamento de quatro anos que fiz. Sabia que, para entrar na NBA, eu precisava estar bem, na melhor forma possível e fui atrás disso. Preferi não pular etapas, fiz os dois anos de Junior College, joguei as duas temporadas da liga universitária e já havia até sido convidado no ano passado para fazer a inscrição no Draft, mas não era a hora ainda. Queria passar mais um ano na universidade, me aprimorar e me formar. Ano passado era o meu último de universitário e a última temporada foi excelente, jogamos bem, ganhei muitos prêmios e entrei no Draft na hora certa, vindo de um bom ano, bem preparado, maduro e mais bem cotado.

Qual foi a sensação de ser escolhido no draft?

Foi uma emoção maravilhosa. Foi como um sonho que virou realidade e, mesmo assim, não dá para acreditar. Sempre pensei que poderia chegar à NBA, sabia que era muito difícil, que era um longo caminho, mas nunca deixei de sonhar e acreditar no meu sonho. Agora quero me firmar, espero conseguir mostrar o meu melhor jogo e aproveitar essas oportunidades.

Como está sendo desenvolvido o trabalho na NBA?

Ainda está muito no começo, joguei a Liga de Verão e participei de alguns camps. Em setembro, quando me apresentar para começar os treinos, é que a coisa vai começar de verdade. Estou ansioso e animado para começar o campeonato logo.
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Qual a expectativa para a temporada 2004/2005 da NBA?

A melhor possível, estou muito animado. Quero entrar logo em quadra para brigar por um espaço e ajudar o Toronto a ir longe e dar alegrias aos torcedores dos Raptors. Estou indo para ajudar o time, quero mostrar que posso ser útil à equipe, conquistar meu espaço. Acho que hoje em dia não há muito mais essa questão de titular ou reserva, uma equipe de basquete não ganha jogo com cinco, sempre precisa da ajuda do seu banco. Acho que podemos fazer uma boa temporada, o Vince Carter é o um jogador acima da média, Rod Strickland é outro atleta experiente, importante dentro do grupo, além de Lamond Murray, Jalen Rose, Chris Bosh. Acho que o Toronto vai fazer bonito este ano.

Que conselhos você daria para quem quer tentar uma chance no exterior?

Que corram atrás de seus sonhos. Eu sonhava ser jogador de basquete e consegui. Não foi nada fácil, mas consegui. Nada cai do céu, ninguém ganha nada nem chega a lugar algum sem sacrifício. Ninguém conquista nada sem esforço e dedicação. Sonhem e corram atrás dos seus sonhos, pois nada é impossível. Mas é preciso conhecer e estar bem ciente dos riscos. Estar bem preparado tanto para quando as coisas derem certo, quanto, e principalmente, para quando derem errado. Nada deu certo para mim por acaso, e nada foi fácil também, houve momentos de tristeza, de depressão, de sacrifício, mas nunca desisti, assim como também houve momentos de alegria, de euforia, e é preciso estar preparado para tudo.
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O que você sentiu quando soube que não poderia defender a seleção brasileira por dois anos?

Não queria que minha primeira convocação ficasse marcada daquela forma. Aquele momento foi muito difícil, muito ruim, ficou uma tristeza grande pelo fato de não ter tido culpa e ter sido prejudicado pelo que aconteceu. Mas isso faz parte do passado, levei como aprendizado e naquele momento meus amigos e minha família foram importantes demais para que eu conseguisse ter equilíbrio e apoio para dar tempo ao tempo. Prefiro esquecer, me concentrar na NBA e no meu futuro, onde está o sonho de vestir de novo a camisa do Brasil. Voltar a jogar pela seleção brasileira é um objetivo que tenho. Sei que entrar na NBA vai ser importante e muito bom para mim, vai me dar mais visibilidade e vai aumentar ainda mais a cobrança e a responsabilidade. Quero ajudar o Brasil a conquistar títulos importantes.

Qual a expectativa para a Copa América – Pré-Mundial 2005? E quais as chances do time brasileiro?

Acho que o Brasil tem tudo para se firmar como uma potência em poucos anos. E não acho loucura pensar assim. É só olharmos como os nossos jogadores estão indo bem, mostrando qualidade, aqui nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. E os atletas que estão ganhando espaço em seus times, levam o nome do Brasil ao lugar mais alto com boas atuações. São atletas novos, de 20 e poucos anos. Isso sem falar nos veteranos, que têm um papel muito importante também. Temos uma base forte para o futuro e isso já pode começar a aparecer na Copa América. Talento nós temos e estamos mostrando isso. Quando imaginaríamos que, um dia, o Brasil teria cinco jogadores na NBA? Quero voltar à seleção e ajudar o país a conquistar muitos títulos. Defender o Brasil é motivo de orgulho e, mais do que sonhar, nós precisamos trabalhar. Não podemos ficar pensando muito no que passou, acho que temos que fazer a nossa parte, treinar muito, trabalhar muito. O Brasil tem bons valores, jovens de talento que podem fazer a seleção brasileira voltar a um lugar de destaque.