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30/04/2004 - José Edvar Simões

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Aos 61 anos, o técnico Edvar Simões encara mais um desafio em sua carreira. Depois de mais de três anos trabalhando como gerente de futebol do Corinthians (SP), Edvar voltou à quadra de basquete para treinar o Corinthians/UMC, na sétima semana do Nacional Masculino 2004. A equipe de Mogi das Cruzes ocupava o oitavo lugar, com cinco vitórias em 12 jogos, situação incômoda para o atual vice-campeão paulista e um dos favoritos ao título. A chegada do novo treinador renovou o ânimo da equipe, que está com sua vaga garantida para os playoffs da competição e agora o pensamento é no título. Experiência em decisões não falta ao técnico, que é pentacampeão da Taça Brasil de Clubes (Tênis Clube de São José dos Campos/1980 e Monte Líbano/1984, 85, 86 e 87 ). Pelo Monte Líbano, Edvar foi ainda bicampeão sul-americano e conquistou o vice-campeonato mundial de clubes (1985).
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Qual foi a sua motivação para voltar ao basquete?

Depois de cumprir meu compromisso no futebol do Corinthians, recebi o convite do basquete e fiquei muito feliz, porque é o esporte que faz parte da minha vida. Por mim, trabalharia sempre com esse esporte, mas quando saí do COC/Ribeirão Preto, em 2000, o melhor convite que surgiu foi no futebol e eu aceitei. Tenho planos de continuar o trabalho aqui em Mogi e vamos ver o que acontece.

Como foi a experiência em outro esporte?

O convívio com outros profissionais do esporte me fez amadurecer muito. Trouxe uma visão mais ampla sobre a filosofia de trabalho esportiva e os meios de superar as dificuldades.
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Fale um pouco do seu trabalho basquete do Corinthians?

O Corinthians tem um grande elenco. Agora está se transformando em um grande time. Esse trabalho leva tempo e acho que estamos conseguindo realiza-lo bem. O que fiz foi implementar minha filosofia de trabalho, fazendo cada jogador descobrir o seu potencial. O grupo é muito bom, tem grandes promessas, como o Fúlvio, Marquinhos, Murilo, Paulinho e outros. A base é jovem e tem segurado muito bem o jogo. Temos nomes experientes, como Demétrius e Josuel, mas eles atuaram pouco, enquanto os mais novos estão assumindo mais responsabilidade e estão dando conta do recado.

O que esperar do Corinthians para os playoffs?

Agora podemos falar em buscar o título. Claro que temos que pensar por etapas, mas temos condições de chegar lá. A tendência é melhorar ainda mais, principalmente porque ao longo da competição o grupo fica mais entrosado e os atletas mais conscientes do que podem fazer em quadra para ajudar a equipe.

Quais os jogadores que mais se destacaram na competição?

Além dos atletas do Corinthians que eu já citei, me impressionou bastante a evolução de alguns jogadores como o armador Helinho (Uberlândia), o pivô André Bambu (Ajax) e o ala Alexandre (Flamengo).
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E os favoritos ao título do Nacional 2004?

Analisando a primeira fase da competição, três equipes mostraram uma regularidade que as credenciam ao título: Uberlândia, Flamengo e Ajax. O time mineiro está um pouco acima das demais equipes. Tem um grande elenco, que está acostumado a trabalhar junto. Os jogadores e o técnico se conhecem bem e isso faz toda a diferença. O Flamengo evoluiu muito com o excelente trabalho do Emmanuel Bomfim e o Ajax conta com uma equipe experiente e coletiva. Não podemos esquecer do COC, atual campeão brasileiro, e do Uniara, além do Corinthians.

Analisando a atual geração de jogadores, o que esperar do basquete nacional para os próximos anos?

O Brasil tem grandes talentos e chances de voltar a ser uma das potências do basquete mundial. Para isso precisa de mais intercâmbio internacional, com clubes, seleções e universidades. Outro problema é a falta de proteção ao clube que formou o atleta. Um clube investe anos na formação de um talento e não é recompensado quando ele vai jogar fora do país, por exemplo.
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Como é o técnico Edvar Simões?

Sou exigente. Mas cobro do meu atleta aquilo que um jogo de basquete necessita. O basquete exige determinação, defesa, coletividade etc. Eu não inventei isso, é o jogo. Se o grupo não apresentar essas características eu vou cobrar dele até o fim, do contrário o trabalho não vai render. Minha grande referência como treinador é o professor e ex-técnico Kanela. Foi um profissional sério, firme, que chegou onde chegou com o seu trabalho competente, honesto e determinado.

Qual a maior alegria da sua carreira?

As melhores lembranças que ficam de uma carreira são os amigos que o esporte nos dá. O respeito das pessoas que conviveram com a gente é a melhor recompensa que podemos ter. Por exemplo, há pouco tempo recebi um cartão do Alex, que está na NBA, que me deixou muito feliz. Eu o trouxe para Ribeirão Preto, trabalhei com ele uns dois anos e hoje ele está em um dos melhores times do mundo. O reconhecimento e a gratidão dele pelo meu trabalho me deixou honrado. Isso é que faz as coisas valerem a pena, apesar das dificuldades.

E a maior tristeza?

Foi a minha experiência como técnico da seleção brasileira. Foi um momento muito difícil, porque a equipe ficou desfalcada de seus principais jogadores por contusão. Com isso, perdemos para a Austrália e acabamos em oitavo lugar no Mundial de 1982. Não tive outra oportunidade de desenvolver o trabalho que iniciei. Depois disso, fui para o Monte Líbano, que por alguns anos foi a base da seleção brasileira. Fomos tetracampeões brasileiros, vice-campeão mundial e continuei sem chances na seleção. Isso foi realmente frustrante.

Deixe uma mensagem para os iniciantes do basquete

Acredito que só tem sucesso no basquete quem ama o que faz. O esporte de alto rendimento exige muito do jovem. É preciso abdicar de algumas coisas para treinar e ser um atleta de alto nível. Só fazemos isso direito se gostarmos muito da profissão que abraçamos.